domingo, 13 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE RUSSELL KIRK E CONSERVADORISMO

"Democracia dos mortos" é mais um jeito de retirar Deus da base da ordem civil. Russell Kirk ["A Política da Prudência"] fala, ecoando Burke, sobre o Pacto entre Deus e os homens, mas em nenhum momento o temor do Senhor é tomado como algo relevante para a política e não há uma visão ortodoxa deste Pacto; a coincidência de interesses entre cristianismo e conservadorismo é fruto do apelo conservador ao consenso cristão do passado. Kirk nega, mas parece plausível que o conservadorismo, qualquer que seja sua definição, tem raízes no ceticismo de Hume - que é precisamente a opinião defendida pelo Pondé. O empirismo é a base do conservadorismo? Meus olhos saltaram ao ler o americano dizer que "é improvável que tenhamos novas descobertas no campo moral", criticando o rompimento da tradição por parte da esquerda. Hã?! Moral se descobre pela experiência de alguma forma? Quero crer que ele não quis dizer isso e que eu interpretei equivocadamente. Se for este o caso, corrijam-me, por favor. (Mas não digam que a resposta está clara na obra, porque não está.)

O conservadorismo, afirma o autor, tem princípios; não dogmas (?). A Escritura, nas palavras do próprio Kirk, não é muito além de um relato de um conjunto de meras "experiências espirituais"[SIC].

Entre os conservadores, para ele, temos desde pagãos romanos até unitaristas ingleses e americanos. De capa a capa, a autoridade de Deus é negligenciada. A razão humana continua juíza. Kirk denuncia (corretamente) os pontos em comum entre libertarianismo e esquerdismo apenas para, no momento seguinte, trair-se a si mesmo defendendo um ponto de contato entre sua visão de estado e a visão de estado da esquerda, ambas como reflexo tardio da visão de Aristóteles, recauchutada por Tomás de Aquino. A única alternativa genuína para ambos é a visão cristã reformada *madura* de estado (porque nós também erramos neste ponto no passado). Parece óbvio que tudo aquilo que poderia trazer Cristo para o debate é substituído por uma visão anti-bíblica de lei natural. A substituição da religião pela lei natural foi um dos primeiros passos de imanência e de desvalorização da religião para a vida pública e para a secularização. Para um grupo que se diz avesso ao secularismo, uma menção "conservadora" ao cristianismo não passa de uma emoção esteticamente refinada, mas sem muita autoridade real. 


Ao mesmo tempo, é evidente que há uma visão distintamente diferente entre a noção de Pecado Original na tradição agostiniano-reformada e a visão conservadora. Em "A Política da Prudência", Russell Kirk diz que os seres humanos são sempre imperfeitos, e que, ao contrário da visão esquerdista, podem ser bons ou maus. Parece contraproducente tentar extrair grandes conclusões desta única frase, mas, como observa John Robbins (famoso clarkeano, mas com quem eu também não tenho muita concordância), o conservadorismo é epistemologicamente diferente do pensamento reformado, donde podemos desenvolver severas críticas à relação entre a antropologia de Kirk e a antropologia reformada, certamente superior - como admitiu a contragosto Erik von Kuehnelt-Leddihn, um católico romano. É necessário, para o seguidor de R.K., pressupor uma metafísica diferente da metafísica calvinista, e esta é a fonte do intelectualismo do conservadorismo. E uma diferença entre intelectualismo e intelectualidade faz-se necessária. O cristianismo requer erudição como parte do mandato cultural de Deus, mas não é intelectualista.

A despeito da contribuição teórica de diversos protestantes, os atuais autores conservadores dão à razão humana (autônoma) um papel importante, parecendo ser uma atualização do tomismo. A diferença, porém, é a manutenção irracionalista de uma vaga transcendência, uma característica moderna, aliada ao perspectivismo histórico: não é a razão humana individual, mas aquela que olha para a pretensa sabedoria dos ancestrais. É a razão coletiva, a razão experimental. Não obstante, a suposta sabedoria dos ancestrais também precisa ser reconhecida através de um fator que não é evidente em si mesmo, que incluiria definições de bem e mal, que não podem ser extraídas da experiência, mesmo que seja a experiência de centenas de gerações durante milhares de anos. É neste contexto também que Robbins acusa o conservadorismo de "falácia naturalista". Ele chega à conclusão, semelhante à de muitos outros, de que o conservadorismo não responde às pequenas perguntas, como "qual é a punição justa para o tipo de crime x", e é muito pouco provável que ele consiga responder às grandes perguntas. 

O conservadorismo, como admite o próprio Russell Kirk, talvez não passe de um simples conjunto de sentimentos. Há princípios conservadores, compartilhados pelos diversos grupos que podem ser englobados dentro do termo, mas não há uma "teoria" ou "dogma" conservador. O conservadorismo é sempre relativo. E alguém é conservador em relação a quê? Alguns autores conservadores parecem marchar rumo ao relativismo e ao historicismo. O próprio Edmund Burke não aprovara a evangelização da Índia, porque o hinduísmo tinha um papel importante na ordem pública. Seria a manutenção da ordem mais importante do que a condenação de centenas de milhões de pessoas? Está claro, ainda, que o conservadorismo baseia-se em um misto de tradição-convenção-experiência-razão, ao invés da autoridade de Deus, o que nos leva a considerar o conservadorismo, em seu viés político, como uma forma de idolatria

Destarte, é claro que há muitas coisas boas para se aprender com autores conservadores. Me interessei por alguns daqueles livros e autores citados por Kirk. Mas devemos nos perguntar até onde o conservadorismo representa de fato o cristianismo. É vital que esta pergunta tenha uma resposta clara e verdadeira. Na verdade, dependendo do contexto, o conservadorismo pode voltar-se contra o Cristianismo.

O Cristianismo foi conservador dentro do Império Romano, questionando a base mais fundamental do Império, a divindade do Imperador? Teriam sido os apóstolos conservadores quando a estrutura social judaica, com fariseus, escribas e Sinédrio foram questionados? Conservadorismo e Cristianismo não se confundem. E se Deus e sua Palavra não estiverem sobre o Conservadorismo há apostasia.


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Em "The Promises and Perils of Christian Politics", Russell Kirk afirma que a dogmática cristã é destinada a ordenar tão somente a alma, mas não a ordem civil. No máximo, afirma o autor, o cristianismo trabalha mentes e corações para o corpo político. Com o suporte de uma breve seleção de caricaturas de movimentos políticos sectários na história do cristianismo, o famoso conservador tenta alertar seus leitores dos desvarios oriundos das tentativas de aplicar o cristianismo à ordem civil. E o faz iniciando sua crítica com um ataque frontal ao escrito de um presbiteriano que afirmou simplesmente que o Cristianismo era fonte de renovo do mundo, o que incluiria a política. Citando o "Conselho Mundial de Igrejas", um órgão sabidamente infiltrado por comunistas, como denunciado pela CIA, Kirk chega à conclusão de que o cristianismo na política conduz à teologia da libertação e à justificação de outras figuras supostamente libertadoras dos pobres e oprimidos, como Mao e Pol-Pot. Ele despreza que a teologia da libertação tem uma série de pressupostos e interpretações equivocadas do cristianismo? 

A separação entre igreja e estado, à qual Kirk se refere no artigo, não implica que o cristianismo perde a sua função totalizante. (Sim, o cristianismo é totalizante, engula.) Quando Cristo disse que devemos "dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus", Ele não quis dizer que Cesar não deve nada a Deus. Russell está certo ao dizer que a Igreja não é um instrumento para administração da justiça secular, da diplomacia ou da guerra. Não obstante, como argumenta Rushdoony, a noção de justiça pressupõe uma moral e a moral é derivada da religião. 

Se devemos, como os seguidores de Kirk, interpretar a diferença entre a Cidade dos Homens e a Cidade de Deus, de Agostinho de Hipona, como uma exclusão do cristianismo da vida pública, precisamos concordar, com Rushdoony, que o conservadorismo de Russell Kirk é simplesmente mais um neoplatonismo, onde Cristo é reduzido apenas a um salvador espiritual. Foi precisamente esse tipo de fé que enfraqueceu o cristianismo em todo o mundo. E é talvez o irmão gêmeo do liberalismo. Tanto o liberalismo quanto o conservadorismo tratam o cristianismo de forma "neutra" até determinado ponto. E tratar o cristianismo de forma neutra, amputando-o da cosmovisão e influência que ele requer, é uma forma discreta de anti-cristianismo.

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O conservadorismo de Russell Kirk é também uma forma de humanismo cristão. Não é uma acusação; ele mesmo dizia que o humanismo cristão "enriqueceu o cristianismo". Kirk exaltava o humanismo cristão renascentista, de Erasmo de Roterdã e Pico della Mirandola, contra o humanismo secular. Foi exatamente este humanismo cristão que Erik von Kuehnelt-Leddihn viu corretamente como uma mudança séria na Idade Média, com terríveis implicações na modernidade em "The Western Dilemma", i.e., "a síntese entre Cristianismo e Antiguidade, pela qual o conceito medieval de mundo como um círculo com Deus como seu centro foi substituído pelo conceito de uma elipse com dois pontos focais - Deus e o homem." Foi no conflito entre Erasmo e Lutero que John Carroll viu o marco da batalha entre as duas forças antagônicas no Ocidente, o cristianismo e o humanismo. Foi em Pico della Mirandola que Carroll enxergou o início de um processo que culminou na Vontade de Poder de Nietzsche. O humanismo cristão não é uma solução paliativa; é um Cavalo de Troia.

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Parte da devoção religiosa à democracia do século XX se deve ao desejo que o "Rei Demos", para citar positivamente Russell Kirk, de receber elogios. As massas querem ser elogiadas sobre a superioridade da democracia porque querem iludir-se de que governam melhor do que reis ou aristocratas. Não obstante, o pecado original afeta tanto os reis quanto o "povo". É um belo insight.

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Crítica de Rushdoony a Russel Kirk (mas que vale um pouco para Edmund Burke):

"A alternativa à continuidade, costume e convenção não é o contrato social, mas o Cristianismo. E se os costumes, convenções e continuidade forem maus? 
Se Russel Kirk fosse radicalmente honesto com sua própria posição, ele teria que admitir que o Liberalismo tem costume, convenção e continuidade nesse lado do mundo moderno e nos Estados Unidos. Por que ele não é liberal? 
O fato é que Kirk não lida com o coração da questão. Os dez livros que ele lista são de importância moderada. Eles não são livros excelentes e eles não são livros pelos quais alguém que lê possa vir a lidar com as questões do nosso tempo. Pelo menos um dos livros seria uma má influência.
Incidentalmente, quase como um pensamento secundário ele cita o Cristianismo. Ele deixa claro, certamente, que qualquer um que determine sua posição em termos da Bíblia não é seu cup of tea. O tipo de Conservadorismo que Kirk representa é impotente. Ele não pode lidar com as questões do dia porque ele quer continuidade com o passado. Ele quer enfatizar costume e convenção, não fé. E este é o coração da questão. Paulo diz que o que não é de fé, é pecado. E qualquer Conservadotismo que constrói sobre o costume e a convenção, sobre a tradição, sobre a continuidade, é pecado. É tão ruim quanto o liberalismo, porque não é de Deus. Não tem como premissa a justiça fundamental. 
O que o Conservadorismo esposaria na Índia, na África? O que seria em relação ao canibalismo em algumas partes da África? E sobre a China (comunista)? ..."

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