quarta-feira, 6 de junho de 2018

RESENHA - A Política da Pornografia

Resenha – A Política da Pornografia – R.J. Rushdoony

A já conhecida perícia intelectual de Rousas John Rushdoony está muito bem arrolada em A Política da Pornografia, publicada originalmente em 1976. Sua maestria na averiguação dos pressupostos contidos na cosmovisão do homem moderno demonstra como esta é uma espécie de sequela do narcisismo iluminista. Na obra, Rushdoony percorre desde os corredores culturais do século XVII até à antessala da miséria moral do presente século. Sua tese procura explicar o subversivo, porém não menos almejado, mito da liberdade absoluta, no qual a máxima do homem livre é a da entrega plena a toda sorte de desejos naturais, sem policiamento interno nem externo.

O prefácio escrito por seu filho Mark R. Rushdoony, já vislumbra a pornografia como consequência de uma cosmovisão específica. Expondo a filosofia pornográfica como visão de mundo, em que se vê “o grosseiro e o vulgar como bons e até mesmo acolhe-os como caminho superior”. Essa obra visa “o confronto direto com os alicerces intelectuais sobre os quais a pornografia se assenta, a filosofia da perversão, a cosmovisão do homem liberto em relação a Deus e sua lei”. A exclusão da divindade em prol da libertinagem, por um mundo sem restrições morais é o que homens como o Marquês de Sade, Willian Blake, Maurice Girodias, Henry Miller e outros também citados neste livro desejam.

Nos demais capítulos, Rushdoony argumenta que o homem moderno concebe a licenciosidade sexual como sua liberdade essencial, sendo definido meramente por seus órgãos genitais, que lhe servem como narcótico, diria Francis Schaeffer. Uma vivência estribada unicamente na imaginação, nas sensações e no experiencialismo.

De modo hábil, o autor expõe a dificuldade com que este homem moderno lida com a realidade, com o mundo real e como, por outro lado, se apaixona perdidamente pela ficção, pela dramaturgia mental e, como diria Dostoievski, pelo mundo subterrâneo. Preferindo a solidão do anonimato, da fantasia, refugia-se num lugar onde pode manipular pessoas e violentá-las sem consequências.

O aspecto religioso da pornografia é salientado como sendo o sacrifício no altar da copulação. Para isso é preciso destronar o Deus cristão de sua posição. Afinal, ele e suas leis impedem os homens de satisfazerem seus impulsos que são não somente sexuais,  mas também violentos e criminosos. A ordem natural para Sade se resumia à existência de tais desejos perversos que corroboram a naturalidade de qualquer ato. Qualquer homem estaria livre para fazer o que quisesse quando bem entendesse. Uma vez que viemos do caos, que vivamos para ele. Portanto, a pornografia não entrega o que promete, pois traz à superfície um anseio interior que não possui fim em si mesmo. À fábula da pornografia subjaz um homem destituído de força e de coragem para viver a realidade, um consumidor cada vez mais ávido de literaturas e dramaturgias que o anestesiam, que fortalecem sua frágil percepção de si mesmo. Ali o ‘aspirante a Deus’ deleita-se aos caprichos de sua perversidade.

Diante dessa anarquia individualista, fica evidente a vulnerabilidade da liberdade absoluta. Totalitarismos historicamente se mostraram inescrupulosos. Toda vez que o homem busque o absoluto em qualquer área da vida, à parte de Deus, ele se torna um tirano. Seres limitados não têm nem podem possuir poderes ilimitados; isto é uma prerrogativa apenas da divindade. Somente Deus é absolutamente livre. Quando homens ou instituições suplantam o papel de Deus, provamos tirania absoluta. Em nada o homem pode ser absoluto, a não ser na incapacidade de ser absoluto. Restrições são necessárias para a manutenção do convívio civil, do bem-estar social. Assim, a pornografia conspira radicalmente contra a liberdade civil, “pois possui uma interpretação equivocada acerca do que é ser livre. Porque a liberdade civil significa restrições legais sobre o abuso de poder e de liberdade”.

Sem mais spoilers, esta obra magnífica aponta para esse profundo oceano de engano, no qual não é possível “represar a maré da imoralidade simplesmente erguendo padrões de comportamento”. O autor fornece munição bíblica e intelectual para não somente refrear essa emergente catarse sexual, bem como tratar a sua origem: o coração humano. A mudança de comportamento é resultado de uma transformação na visão de mundo, é uma questão de foro íntimo. De modo cirúrgico o autor demonstra que o homem moderno “supostamente deseja sempre a onipotência e a imoralidade quando sua condição real é a impotência e a moralidade”. A Queda, conforme demonstrada na Bíblia, é a condição sine qua non para uma antropologia verdadeira. Acrescente-se ainda que a verdadeira liberdade é alcançada exclusivamente quando o Filho liberta (João 8:36) esse homem caído de sua escuridão existencial.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

SEPARAÇÃO ENTRE LEIS E RELIGIÃO

Para Rushdoony, a separação entre leis e religião levou à destruição das duas. A religião fugiu do mundo e entregou-se a uma ética pietista, ao mundo espiritual, sem qualquer influência na vida "prática". As leis perderam qualquer conexão com a moralidade, tornando-se mera "construção", "tradição vazia", resquícios de um passado injustificado e finalmente a “vontade da maioria” ou de um estado soberano, pelos quais o aborto, a zoofilia (legalizada na Alemanha) e quaisquer outras práticas podem ser admitidas. A recente legalização do aborto na Irlanda por mera votação mostra a natureza do problema. Se Deus não é o soberano sobre as leis, a maioria pode decidir amanhã que roubar não é mais crime. E, de fato, o socialismo é isto.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

DEUS, SIGNIFICADO E OS ASPECTOS DA REALIDADE

Desprezar a autoridade de Deus e sua Palavra sobre algum aspecto da realidade é condenar esse aspecto à ausência de significado e finalmente deixá-lo ser ocupado com algo criado pela imaginação humana. É Deus quem dá significado e propósito a tudo o que é criado. Rejeitar uma autoridade cristã nas ciências, no mundo acadêmico ou na esfera jurídica é apartar Deus da verdade e da realidade, pois aquelas são áreas que lidam com a prática. O resultado será o relativismo ou alguma outra forma de distorção. Negar a lei de Deus (ou, para usar o termo neocalvinista mais abrangente, "negar a Palavra-Lei") e as implicações dela para a vida pública é negar a infalibilidade em última instância. A igreja resume-se à tarefa da "salvação pessoal".

[Sobre Dooyeweerd e Van Til.]

domingo, 13 de maio de 2018

A TEOLOGIA DOS REVOLUCIONÁRIOS

A teologia é inescapável. Conceitos como soberania, liberdade e absoluto são inescapáveis. Mesmo que alguns defendam completamente a divisão entre religião e política, eles apenas substituem os atributos transcendentes de Deus para elementos da própria Criação, seja o próprio homem, seja a natureza. Como Paulo explicou em Romanos 1, o homem nega a divindade de Deus e adora a criatura em seu lugar. O que temos não é política sem teologia, mas políticas baseadas em teologias diferentes, que disfarçam a si mesmas.

Quando Deus foi expulso do mundo moderno, Hegel enxergou a única possível encarnação da divindade no estado. Para Rousseau, a encarnação estava na 'vontade geral'. Com Marx, a encarnação da divindade passou para o ativismo revolucionário. No fim das contas, a ditadura do proletariado seria infalível. A única transcendência possível é o futuro. "Seremos julgados pelos homens do futuro", eles diziam desde os tempos do terrorismo romântico na Rússia. Assim como os cristãos creem no decreto de Deus e na ação de sua Graça para o estabelecimento de seu Reino, o esquerdista vê sua práxis religiosa no ativismo revolucionário a fim de trazer a encarnação da divindade no Reino do Humanismo. Por isso, como Rushdoony explicou, as discussões que ocorreram entre os membros da ex-URSS em torno da possibilidade de Stalin ter (ou não) cometido erros não eram meras discussões políticas, mas discussões teológicas. A ditadura do proletariado não poderia falhar. Com atenção, Albert Camus relacionou corretamente o niilismo e o terrorismo de estado. Rejeitar a autoridade de Deus sobre a política e a história, incluindo a pressuposição de seu decreto infalível, conduz inevitavelmente ao presente estado de coisas.

A RESPONSABILIDADE É SUA - RECOMENDAÇÕES

Você já parou para pensar no porquê de Deus ter se agradado de Salomão?

"E em Gibeom apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos; e disse-lhe Deus: Pede o que queres que eu te dê. 

E disse Salomão: De grande beneficência usaste tu com teu servo Davi, meu pai, como também ele andou contigo em verdade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a tua face; e guardaste-lhe esta grande beneficência, e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como se vê neste dia. 

Agora, pois, ó Senhor meu Deus, tu fizeste reinar a teu servo em lugar de Davi meu pai; e sou apenas um menino pequeno; não sei como sair, nem como entrar. 

E teu servo está no meio do teu povo que elegeste; povo grande, que nem se pode contar, nem numerar, pela sua multidão. 

A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo? 

E esta palavra pareceu boa aos olhos do Senhor, de que Salomão pedisse isso. 

E disse-lhe Deus: Porquanto pediste isso, e não pediste para ti muitos dias, nem pediste para ti riquezas, nem pediste a vida de teus inimigos; mas pediste para ti entendimento, para discernires o que é justo

Eis que fiz segundo as tuas palavras; eis que te dei um coração tão sábio e entendido, que antes de ti igual não houve, e depois de ti igual não se levantará. 

E também até o que não pediste te dei, assim riquezas como glória; de modo que não haverá um igual entre os reis, por todos os teus dias. 

E, se andares nos meus caminhos, guardando os meus estatutos, e os meus mandamentos, como andou Davi teu pai, também prolongarei os teus dias."

[1 Reis 3:5-14]

Salomão pediu sabedoria a Deus. Você já orou por sabedoria?

Existe uma crise intelectual muito séria nas igrejas evangélicas brasileiras. Saiba que esta crise é responsabilidade sua também. Não culpe os pastores. Você é membro da igreja. A sabedoria e o conhecimento são parte do Mandato Cultural que Deus deu ao ser humano. Saiba que muitas vezes as editoras deixam de publicar livros robustos sobre determinados temas porque elas simplesmente não vendem. Os pastores deixam de aprofundar determinados assuntos porque acreditam que os membros não entenderão. Os membros das igrejas brasileiras parecem preocupados somente com o "leitinho espiritual". E digo com convicção que os membros de igrejas tradicionais têm muito menos desculpas para a letargia intelectual do que os membros de igrejas pentecostais e neopentecostais.

Não só há uma ocupação de futilidades, mas um problema educacional mais crônico. A educação brasileira está entre as piores do mundo! Você pode estar pensando: "é culpa do governo!" Mas lembre que a educação na Europa e nos Estados Unidos foi incentivada pela religião! Você, como cristão, tem obrigação de buscar e de construir entendimento e conhecimento! Saiba que as grandes universidades do mundo foram fundadas por pastores e seminários! A educação estatal é o assalto humanista à educação. A educação estatal é parte do problema.

Há um grande impedimento ao homeschooling no Brasil, porque muitas vezes nem mesmo os pais tiveram um preparo intelectual adequado. Mas se você está lendo este blog significa que você tem recursos suficientes para buscar melhorar seu conhecimento. Entender os métodos de educação, investir em lógica, retórica, interpretação de texto e, principalmente, gramática, são possibilidades acessíveis a qualquer um que se esforce para isso. Já prestou atenção em quão mal escrevem as pessoas das igrejas brasileiras? Se mal dominamos a nossa própria língua, como esperamos poder interpretar a Escritura, com traduções que muitas vezes requerem o conhecimento de vários idiomas?

Se não entendemos filosofia e história, como podemos aplicar pressupostos corretos para a interpretação? Como podemos defender nossa fé diante dos ataques ideológicos e filosóficos tão cruéis contra a fé cristã? Como evangelizar?

Isto também é responsabilidade sua. E quanto mais você investir nisto, mais ganhos terá, tanto pessoalmente quanto ganharão todos aqueles próximos de você.



Eventualmente aparecem jovens me pedindo indicações de leitura, ou até mesmo um cronograma de estudos. Em primeiro lugar, conheça sua própria fé. Leia As Institutas de João Calvino. Entenda o que a Reforma realmente ensinou. Há muitos ensinos na igreja brasileira que não refletem e nem honram o que a Reforma Protestante realmente ensinou. E, por favor, as 95 Teses de Lutero andam longe de explicar tudo o que você precisa saber! Nem mesmo conhecer os 5 Pontos do Calvinismo. Se você não entende nem a sua fé, que julga ser tão importante para a salvação da sua alma, por que você acha que tem a prioridade de entender assuntos como filosofia e política? Quer salvar a "cultura ocidental"? Ora, deixe-me dar um spoiler do que você encontrará neste blog: sem Cristo, não há "salvação" para o Ocidente. Parte do meu esforço aqui é demonstrar que sem Cristo é impossível haver conhecimento, filosofia, história, ordem pública, leis e autoridade. Portanto, sem Cristo, não há civilização realmente justa, ordenada e saudável possível. A crise cultural do Ocidente começou com o abandono da religião.

Depois de conhecer bem sua fé, eu recomendo que você entenda o que é cosmovisão. A cosmovisão, em si, é um conceito filosófico que foi desenvolvido com o tempo. Didaticamente, do meu ponto de vista, ele não é o ponto inicial para a compreensão da filosofia, mas é o escudo que o protegerá da grande confusão do pensamento teórico ocidental, impregnado de anti-cristianismo.

Há alguns autores já publicados no Brasil que são, se não exaustivos, pelo menos eficazes para dar ao cristão brasileiro toda a defesa intelectual de que precisa, e o norte pelo qual navegar em assuntos intelectuais. Não existe uma fórmula infalível que sirva como guia. E nem eu sou especialista em qualquer coisa. Sou apenas um esforçado autodidata, que lida com as dificuldades de quem busca a própria educação e com os próprios limites. Não espere perfeição de mim e nem que eu ofereça a lista mais perfeita do mundo. Em parte, eu apenas estou oferecendo as pistas e os autores que serviram na minha própria caminhada - se é que interessam a você. E alguns deles são de muito fácil leitura. Os que considero mais básicos são:

1. Francis Schaeffer.
2. Nancy Pearcey.
3. Gordon Clark.
4. Cornelius Van Til.
5. Herman Dooyeweerd.
6. R. J. Rushdoony.
7. Abraham Kuyper.

Compreendendo bem estes autores, penso eu, qualquer cristão pode navegar sem medo nos mais variados temas sem perder-se. Comece por Schaeffer e Pearcey; vá para Van Til e Clark depois. E só depois siga para Dooyeweerd, Kuyper e Rushdoony. Neste ponto, depois de resguardado, procure os melhores intérpretes de cada pensador, em obras secundárias, mas jamais deixando de ir para as fontes primárias. As fontes secundárias servem para ajudar a entender as fontes primárias. Você chegará nos grandes pensadores cristãos como Agostinho (se decidir não começar com ele). 
Assim você poderá estudar os filósofos gregos para conhecer os primórdios do debate. Lerá os filósofos modernos como quem disseca cadáveres putrefatos. Meu amigo Fabrício Tavares sempre reitera o papel fundamental da Literatura. Procure ler os clássicos. Entenda o valor de Shakespeare, Dostoiévski, John Milton e tantos outros. Acha que poesia é fútil? A Bíblia tem livros poéticos.

"Ah, irmão Vitor, mas é muito difícil e eu não consigo!" E quem disse que seria fácil? Você conhece alguma coisa fácil na vida? Este é o segundo spoiler: é muito difícil e você vai demorar mais de um ano para começar a entender. Por isso, não desista! Faça como Salomão e ore a Deus: "Senhor, ajuda-me a entender!" "Senhor, ajuda-me a glorificar o teu nome nestes temas tão importantes!" O esforço traz recompensas. E muitas pessoas dependem disso. O Reino de Deus depende disso. Faça isso para a Glória de Deus.

Nesta empreitada, procure entender algumas coisas importantes que estão totalmente interligadas:

1. A crítica à neutralidade da razão.
2. Os efeitos noéticos do pecado, segundo a interpretação reformada - em contraste com as demais.
3. Aprenda o que são epistemologia e metafísica!
4. Entenda os problemas da "razão autônoma" e como ela destrói a cosmovisão, prejudicando a igreja.
5. Pressupostos e interpretação.

6. As diferenças entre os pensamentos calvinista, luterano, arminiano, tomista, etc., inclusive nos temas supracitados, como metafísica.

Não desista até entender exatamente o que são todas estas coisas. Até aqui, você não estará plenamente consciente de como se guiar diante de tantas interpretações da ética, da história, da filosofia, da psicologia, da ciência, da sociologia e até da própria teologia! Leve o tempo que precisar. Eu tenho me dedicado há anos. Dedique-se, mas sem deixar que seu interesse por tais assuntos prejudiquem sua vida espiritual. Deus e sua Palavra são soberanos. Mantenha a Sola Scriptura em mente. Lendo meu blog, você entenderá que a Sola Scriptura é muito mais do que um mero conceito para o estudo de teologia.

Que Deus abençoe sua vida.

NOTA: Eu sou um zero à esquerda intelectualmente. Mas sou esforçado. Se há quem se interesse eventualmente pelos autores que eu leio e indico, aqui eu dou minha resposta. Mas tenha certeza de uma coisa: verdadeiros intelectuais são outros, nos quais me apoio. Sou só um aprendiz.

AGENDA DE ESQUERDA: FORÇANDO DILEMAS

Uma das artimanhas da Nova Esquerda nas questões LGBT é forçar dilemas. Como assim? 

Exemplo: "Existem muitas crianças órfãs, que nunca terão pais nem oportunidade de estudar em melhores escolas. Você prefere que elas fiquem assim do que sejam adotadas por dois homens?"

O objetivo é jogar a ética cristã que ensina o auxílio ao necessitado contra a própria moral cristã sobre o casamento e a família. É uma luta entre uma "graça" barata e a "lei". Entre "ordem" e "liberdade". É um problema que a maioria das pessoas têm dificuldade para resolver na própria cabeça. O esquerdismo força uma "graça" barata, força uma "liberdade" abstrata, contra qualquer princípio de lei e ordem. É antinomia. Apela a um sentimentalismo moderno. Pastores que enfrentam esse conflito particular (entre lei e graça) já têm sérios problemas, para começar. 

REFLEXÕES SOBRE RUSSELL KIRK E CONSERVADORISMO

"Democracia dos mortos" é mais um jeito de retirar Deus da base da ordem civil. Russell Kirk ["A Política da Prudência"] fala, ecoando Burke, sobre o Pacto entre Deus e os homens, mas em nenhum momento o temor do Senhor é tomado como algo relevante para a política e não há uma visão ortodoxa deste Pacto; a coincidência de interesses entre cristianismo e conservadorismo é fruto do apelo conservador ao consenso cristão do passado. Kirk nega, mas parece plausível que o conservadorismo, qualquer que seja sua definição, tem raízes no ceticismo de Hume - que é precisamente a opinião defendida pelo Pondé. O empirismo é a base do conservadorismo? Meus olhos saltaram ao ler o americano dizer que "é improvável que tenhamos novas descobertas no campo moral", criticando o rompimento da tradição por parte da esquerda. Hã?! Moral se descobre pela experiência de alguma forma? Quero crer que ele não quis dizer isso e que eu interpretei equivocadamente. Se for este o caso, corrijam-me, por favor. (Mas não digam que a resposta está clara na obra, porque não está.)

O conservadorismo, afirma o autor, tem princípios; não dogmas (?). A Escritura, nas palavras do próprio Kirk, não é muito além de um relato de um conjunto de meras "experiências espirituais"[SIC].

Entre os conservadores, para ele, temos desde pagãos romanos até unitaristas ingleses e americanos. De capa a capa, a autoridade de Deus é negligenciada. A razão humana continua juíza. Kirk denuncia (corretamente) os pontos em comum entre libertarianismo e esquerdismo apenas para, no momento seguinte, trair-se a si mesmo defendendo um ponto de contato entre sua visão de estado e a visão de estado da esquerda, ambas como reflexo tardio da visão de Aristóteles, recauchutada por Tomás de Aquino. A única alternativa genuína para ambos é a visão cristã reformada *madura* de estado (porque nós também erramos neste ponto no passado). Parece óbvio que tudo aquilo que poderia trazer Cristo para o debate é substituído por uma visão anti-bíblica de lei natural. A substituição da religião pela lei natural foi um dos primeiros passos de imanência e de desvalorização da religião para a vida pública e para a secularização. Para um grupo que se diz avesso ao secularismo, uma menção "conservadora" ao cristianismo não passa de uma emoção esteticamente refinada, mas sem muita autoridade real. 


Ao mesmo tempo, é evidente que há uma visão distintamente diferente entre a noção de Pecado Original na tradição agostiniano-reformada e a visão conservadora. Em "A Política da Prudência", Russell Kirk diz que os seres humanos são sempre imperfeitos, e que, ao contrário da visão esquerdista, podem ser bons ou maus. Parece contraproducente tentar extrair grandes conclusões desta única frase, mas, como observa John Robbins (famoso clarkeano, mas com quem eu também não tenho muita concordância), o conservadorismo é epistemologicamente diferente do pensamento reformado, donde podemos desenvolver severas críticas à relação entre a antropologia de Kirk e a antropologia reformada, certamente superior - como admitiu a contragosto Erik von Kuehnelt-Leddihn, um católico romano. É necessário, para o seguidor de R.K., pressupor uma metafísica diferente da metafísica calvinista, e esta é a fonte do intelectualismo do conservadorismo. E uma diferença entre intelectualismo e intelectualidade faz-se necessária. O cristianismo requer erudição como parte do mandato cultural de Deus, mas não é intelectualista.

A despeito da contribuição teórica de diversos protestantes, os atuais autores conservadores dão à razão humana (autônoma) um papel importante, parecendo ser uma atualização do tomismo. A diferença, porém, é a manutenção irracionalista de uma vaga transcendência, uma característica moderna, aliada ao perspectivismo histórico: não é a razão humana individual, mas aquela que olha para a pretensa sabedoria dos ancestrais. É a razão coletiva, a razão experimental. Não obstante, a suposta sabedoria dos ancestrais também precisa ser reconhecida através de um fator que não é evidente em si mesmo, que incluiria definições de bem e mal, que não podem ser extraídas da experiência, mesmo que seja a experiência de centenas de gerações durante milhares de anos. É neste contexto também que Robbins acusa o conservadorismo de "falácia naturalista". Ele chega à conclusão, semelhante à de muitos outros, de que o conservadorismo não responde às pequenas perguntas, como "qual é a punição justa para o tipo de crime x", e é muito pouco provável que ele consiga responder às grandes perguntas. 

O conservadorismo, como admite o próprio Russell Kirk, talvez não passe de um simples conjunto de sentimentos. Há princípios conservadores, compartilhados pelos diversos grupos que podem ser englobados dentro do termo, mas não há uma "teoria" ou "dogma" conservador. O conservadorismo é sempre relativo. E alguém é conservador em relação a quê? Alguns autores conservadores parecem marchar rumo ao relativismo e ao historicismo. O próprio Edmund Burke não aprovara a evangelização da Índia, porque o hinduísmo tinha um papel importante na ordem pública. Seria a manutenção da ordem mais importante do que a condenação de centenas de milhões de pessoas? Está claro, ainda, que o conservadorismo baseia-se em um misto de tradição-convenção-experiência-razão, ao invés da autoridade de Deus, o que nos leva a considerar o conservadorismo, em seu viés político, como uma forma de idolatria

Destarte, é claro que há muitas coisas boas para se aprender com autores conservadores. Me interessei por alguns daqueles livros e autores citados por Kirk. Mas devemos nos perguntar até onde o conservadorismo representa de fato o cristianismo. É vital que esta pergunta tenha uma resposta clara e verdadeira. Na verdade, dependendo do contexto, o conservadorismo pode voltar-se contra o Cristianismo.

O Cristianismo foi conservador dentro do Império Romano, questionando a base mais fundamental do Império, a divindade do Imperador? Teriam sido os apóstolos conservadores quando a estrutura social judaica, com fariseus, escribas e Sinédrio foram questionados? Conservadorismo e Cristianismo não se confundem. E se Deus e sua Palavra não estiverem sobre o Conservadorismo há apostasia.


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Em "The Promises and Perils of Christian Politics", Russell Kirk afirma que a dogmática cristã é destinada a ordenar tão somente a alma, mas não a ordem civil. No máximo, afirma o autor, o cristianismo trabalha mentes e corações para o corpo político. Com o suporte de uma breve seleção de caricaturas de movimentos políticos sectários na história do cristianismo, o famoso conservador tenta alertar seus leitores dos desvarios oriundos das tentativas de aplicar o cristianismo à ordem civil. E o faz iniciando sua crítica com um ataque frontal ao escrito de um presbiteriano que afirmou simplesmente que o Cristianismo era fonte de renovo do mundo, o que incluiria a política. Citando o "Conselho Mundial de Igrejas", um órgão sabidamente infiltrado por comunistas, como denunciado pela CIA, Kirk chega à conclusão de que o cristianismo na política conduz à teologia da libertação e à justificação de outras figuras supostamente libertadoras dos pobres e oprimidos, como Mao e Pol-Pot. Ele despreza que a teologia da libertação tem uma série de pressupostos e interpretações equivocadas do cristianismo? 

A separação entre igreja e estado, à qual Kirk se refere no artigo, não implica que o cristianismo perde a sua função totalizante. (Sim, o cristianismo é totalizante, engula.) Quando Cristo disse que devemos "dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus", Ele não quis dizer que Cesar não deve nada a Deus. Russell está certo ao dizer que a Igreja não é um instrumento para administração da justiça secular, da diplomacia ou da guerra. Não obstante, como argumenta Rushdoony, a noção de justiça pressupõe uma moral e a moral é derivada da religião. 

Se devemos, como os seguidores de Kirk, interpretar a diferença entre a Cidade dos Homens e a Cidade de Deus, de Agostinho de Hipona, como uma exclusão do cristianismo da vida pública, precisamos concordar, com Rushdoony, que o conservadorismo de Russell Kirk é simplesmente mais um neoplatonismo, onde Cristo é reduzido apenas a um salvador espiritual. Foi precisamente esse tipo de fé que enfraqueceu o cristianismo em todo o mundo. E é talvez o irmão gêmeo do liberalismo. Tanto o liberalismo quanto o conservadorismo tratam o cristianismo de forma "neutra" até determinado ponto. E tratar o cristianismo de forma neutra, amputando-o da cosmovisão e influência que ele requer, é uma forma discreta de anti-cristianismo.

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O conservadorismo de Russell Kirk é também uma forma de humanismo cristão. Não é uma acusação; ele mesmo dizia que o humanismo cristão "enriqueceu o cristianismo". Kirk exaltava o humanismo cristão renascentista, de Erasmo de Roterdã e Pico della Mirandola, contra o humanismo secular. Foi exatamente este humanismo cristão que Erik von Kuehnelt-Leddihn viu corretamente como uma mudança séria na Idade Média, com terríveis implicações na modernidade em "The Western Dilemma", i.e., "a síntese entre Cristianismo e Antiguidade, pela qual o conceito medieval de mundo como um círculo com Deus como seu centro foi substituído pelo conceito de uma elipse com dois pontos focais - Deus e o homem." Foi no conflito entre Erasmo e Lutero que John Carroll viu o marco da batalha entre as duas forças antagônicas no Ocidente, o cristianismo e o humanismo. Foi em Pico della Mirandola que Carroll enxergou o início de um processo que culminou na Vontade de Poder de Nietzsche. O humanismo cristão não é uma solução paliativa; é um Cavalo de Troia.

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Parte da devoção religiosa à democracia do século XX se deve ao desejo que o "Rei Demos", para citar positivamente Russell Kirk, de receber elogios. As massas querem ser elogiadas sobre a superioridade da democracia porque querem iludir-se de que governam melhor do que reis ou aristocratas. Não obstante, o pecado original afeta tanto os reis quanto o "povo". É um belo insight.

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Crítica de Rushdoony a Russel Kirk (mas que vale um pouco para Edmund Burke):

"A alternativa à continuidade, costume e convenção não é o contrato social, mas o Cristianismo. E se os costumes, convenções e continuidade forem maus? 
Se Russel Kirk fosse radicalmente honesto com sua própria posição, ele teria que admitir que o Liberalismo tem costume, convenção e continuidade nesse lado do mundo moderno e nos Estados Unidos. Por que ele não é liberal? 
O fato é que Kirk não lida com o coração da questão. Os dez livros que ele lista são de importância moderada. Eles não são livros excelentes e eles não são livros pelos quais alguém que lê possa vir a lidar com as questões do nosso tempo. Pelo menos um dos livros seria uma má influência.
Incidentalmente, quase como um pensamento secundário ele cita o Cristianismo. Ele deixa claro, certamente, que qualquer um que determine sua posição em termos da Bíblia não é seu cup of tea. O tipo de Conservadorismo que Kirk representa é impotente. Ele não pode lidar com as questões do dia porque ele quer continuidade com o passado. Ele quer enfatizar costume e convenção, não fé. E este é o coração da questão. Paulo diz que o que não é de fé, é pecado. E qualquer Conservadotismo que constrói sobre o costume e a convenção, sobre a tradição, sobre a continuidade, é pecado. É tão ruim quanto o liberalismo, porque não é de Deus. Não tem como premissa a justiça fundamental. 
O que o Conservadorismo esposaria na Índia, na África? O que seria em relação ao canibalismo em algumas partes da África? E sobre a China (comunista)? ..."