segunda-feira, 26 de agosto de 2019

NOTAS SOBRE ERIC VOEGELIN



Um indivíduo lembrou-me hoje do porquê do meu afastamento das redes sociais. Em seus impropérios, acusou-me de algumas tolices, citando meu tratamento a Voegelin. Ele conseguiu atiçar minha ira, algo incomum nos últimos anos. 

Voegelin, do meu ponto de vista, tem algumas coisas que merecem ser levadas em consideração, mas jamais em sua totalidade. Considero-o não apenas como não sendo cristão, mas como um disfarçado anti-cristão. Seu tratamento calunioso à Reforma é de uma ignorância ímpia.

Eis alguns de meus escritos a este respeito:

- Voegelin zombava de Lutero como alguém despreparado para lidar com os problemas políticos nos quais se envolveu, como alguém envolvido em discussões metafísicas acima de sua capacidade e de ter destruído a ética e o intelectualismo. Tudo isto é falso. Na verdade, era Voegelin quem não tinha preparo para entender a Reforma, falando imprudentemente sobre ela. Voegelin despreza completamente 


(1) o papel da ética luterana em relação à Sola Fide, 
(2) a tradição agostiniana na qual Lutero estava inserido [Voegelin só pegava de Agostinho e Tomás o que era conveniente] e 
(3) as verdadeiras raízes do iluminismo e da crise de autoridade no Ocidente, que precedem Lutero e estão enraizadas na revolução epistemológica trazida pela introdução de Aristóteles.* 

Eric acusa o "anti-filosofismo" de Lutero de ser uma raiz do Iluminismo, mostrando definitivamente sua incompreensão da crítica luterana (erro em que não caem John Carroll e Kuehnelt-Leddihn em sua fase madura). Passa longe, ainda, de perceber a antítese absoluta entre a Reforma e o Iluminismo, algo que se torna visível a partir da obra de Herman Dooyeweerd. Nada é mais anti-Ilumimismo e anti-humanismo do que a Reforma Protestante. Pior de tudo, o tão badalado cientista político não pode ser considerado menos do que paranoico ao ler Lutero e Calvino e dizer que tudo ali é política, assim como qualquer marxista vê em tudo uma desculpa de discurso capitalista ou uma feminista que enxerga machismo nos artigos definidos da língua portuguesa. É impossível deixar de notar que Voegelin padecia dos defeitos que tanto criticava. [*NOTA: De acordo com a introdução do Vol. I da História das Ideias Políticas publicado pela É Realizações, Eric Voegelin parece ter voltado atrás em algumas considerações.]

*Estes pontos estão, inclusive, publicados no site oficial dos seguidores de Voegelin, em inglês. Confira pessoalmente.


- Voegelin também destila seu veneno repetindo os mitos que retratam Calvino como o "malvadão", "o ditador"... Ahã.


"Alister E. MacGrath, em sua pesquisa sobre as lendas e estereótipos sobre Calvino, argumenta que desde o tempo do retorno de Calvino a Genebra, aconteceu apenas uma execução por motivos religiosos (o caso infame de Michael Servetus), e que Calvino pediu aos oficiais da cidade que decapitassem em vez de queimar a vítima, pois o primeiro meio de execução era mais piedoso. Calvino, lamentavelmente, não prevaleceu nesse exemplo.
Além disso, a autoridade de Calvino em Genebra era apenas indireta, tomando forma de um conselheiro moral, na melhor das hipóteses. Ele não foi nunca um membro governante do concelho (na época da execução de Servetus, o concelho era até mesmo contrário à influência de Calvino), e de fato, não poderia ser membro no corpo governante mais alto, pois apenas cidadãos de Genebra (os nascidos em Genebra como cidadãos) é que podiam fazê-lo. [Nota minha: Calvino era natural da França e era CONVIDADO pela cidade. 
Segundo o julgamento de McGrath, 'a imagem de Calvino como o 'ditador de Genebra' não tem nenhuma relação com os fatos conhecidos da história [...] O concelho não tinha nenhuma intenção de renunciar em favor de alguém aos direitos e privilégios arduamente obtidos, muito menos a um de seus empregados - um estrangeiro sem direito de voto, a quem podiam mandar embora e expelir da cidade segundo lhes parecesse [...] Que a autoridade de Calvino em matérias cívicas era puramente pessoal e moral no caráter era demonstrado pela dificuldade que seus sucessores enfrentaram depois de sua morte.' (Alister McGrath, A Life of John Calvin: A Study in the Shaping of Western Culture)"


Tirei esta citação do livro "História das Ideias Políticas - Renascença e Reforma", Eric Voegelin, pela ed. É Realizações. O editor publicou-a para desmentir o quadro tenebroso pintado por Voegelin.

Além das informações acima, sabemos que o rigorismo em Genebra foi instalado antes de Calvino chegar, por Farel. O convite feito a Calvino tinha justamente a esperança de que ele fosse capaz de estabelecer ordem na cidade. Muitos dos conselhos de Calvino não eram escutados até pelas lideranças religiosas. Ele, por exemplo, não queria abolir o feriado do natal, quando alguns queriam. Ele intercedeu e conseguiu garantir a liberdade pras igrejas locais fazerem seu próprio calendário festivo. Dissertei muito mais sobre tal questão em outro lugar, respondendo ao texto de um seguidor de Voegelin aqui no Brasil.


A crítica que Lutero faz à razão não é, como Voegelin diz, um apelo ao irracionalismo. Ora, verdadeiramente anti-intelectual foi Francisco de Assis, que, como admite o próprio Eric, foi um dos responsáveis pela desintegração do Sacro Império. Lutero estava, a partir de uma visão metafísica cristã, criticando o conceito de 'razão' que o cristianismo assumiu no fim do escolasticismo, que pressupõe na verdade um pé na metafísica grega, como mostra Van Til em "A Survey of Christian Epistemology". Lutero havia se chocado com o estado do cristianismo quando visitou Roma anos antes da publicação das 95 Teses. Lutero está decretando, ali, a superioridade de Deus contra a razão humana autônoma, que é, despida da pompa com a qual é louvada, a sofisticação da epistemologia da serpente no Éden, herdada por nós em nossa natureza pecaminosa. Interpretar o mundo "sem Deus" foi o instrumento básico da Queda. Até o não-cristão John Carroll, um sociólogo, entendeu isso. Carroll enxerga a Reforma Protestante, como muitos dos nossos teólogos, como a força mais radicalmente anti-humanista que o Ocidente viu nos últimos séculos. Vejam também o livro recentemente publicado pela Editora Monergismo, "A Batalha Central da Reforma", de Jean-Marc Berthoud. O verdadeiro nominalista era Erasmo de Roterdã.


- Eric Voegelin é um pós-moderno, influenciado pela neo-ortodoxia de Barth e Bultmann. A crítica dele contra Calvino se torna mais clara em "História das Ideias Políticas", onde desdenha da sistematização feita por Calvino nas Institutas, já que, nas palavras de Voegelin, parafraseadamente, "tal empreitada é impossível." Diz ele, a Escritura é "paradoxal". Ora, de onde vem isto? Karl Barth. Isso é teologia pós-moderna, às portas do irracionalismo. Parece muito claro que Voegelin quer achar defeitos em Calvino, mas não consegue: admite a capacidade de "interpretação inescrupulosa" de Calvino. Admite que Calvino respondeu à problemática da justificação pela fé. No máximo, diz que Calvino não deu uma resposta convincente sobre o pedobatismo. Depois, tenta uma correção desastrada da doutrina da predestinação, ignorando cinicamente que Tomás e Agostinho também defendiam-na.

Em "Nova Ciência", Voegelin utiliza-se de um DETRATOR dos puritanos para atacá-los, além de exagerar sua interpretação até mesmo do marxismo. Esta última acusação foi feita por Hans Kelsen (autor com quem não tenho muita afinidade), que foi seu professor.

Eis uma citação de Kelsen.


"De acordo com a Nova Ciência da Política, não é só a natureza da modernidade que deve ser interpretada como gnosticismo; mas também a Reforma, com a qual a era moderna [supostamente] começa, deve ser "entendida como a invasão bem sucedida das instituições do Ocidente por movimentos Gnósticos." Como a Nova Ciência da Política justifica esta revolucionária re-interpretação da Reforma? Voegelin declara: "O evento é tão vasto em dimensões que nenhuma pesquisa mesmo de suas características gerais pode ser abordada nessa leitura." Consequentemente ele restringe sua tarefa a uma análise de "Certos aspectos do impacto Puritano na ordem pública da Inglaterra." Estes aspectos são ideologias religiosas produzidas dentro da esquerda do movimento Puritano com o propósito de legitimar a Revolução Inglesa do séc. XVI. Voegelin admite que "O Puritanismo como um todo não pode ser identificado com a esquerda.", mas ele justifica sua seleção de materiais pela afirmação de que ele não intenta "fazer uma avaliação histórica do Puritanismo", que ele está preocupado apenas "com a estrutura de ideias e experiências Gnósticas"; e esta estrutura pode ser encontrada no material que ele escolheu. Mas mesmo se ele tivesse demonstrado o caráter gnóstico da ideologia religiosa do Puritanismo de esquerda - o que ele não fez - sua incrível interpretação da Reforma, da qual o movimento Puritano era apenas um dos muitos componentes e não o mais decisivo, como a erupção revolucionária de movimentos gnósticos permaneceria completamente infundada. A interpretação do Puritanismo feita por Voegelin não é uma análise do movimento em si, mas da famosa descrição que Hooker fez deste movimento. A partir dessa descrição, Voegelin reúne o fato de que os Puritanos em sua crítica às condições da ordem social existente insistiram em ter uma "causa", e que o termo "causa" era de uso recente e provavelmente inventado pelos Puritanos. Ter uma "causa" em ordem de começar um movimento é interpretado por Voegelin como uma "formidável arma dos revolucionários Gnósticos". Como este "ter uma causa" manifesta-se? "Em ordem de avançar rumo à 'causa', o homem que tem esta vontade, 'ouvindo a multidão', suporta em severo criticismo dos males sociais e em particular da condução das classes altas... O próximo passo será a concentração de vontade popular no governo estabelecido. Esta tarefa pode ser psicologicamente realizada atribuindo-se toda a culpa e corrupção, como ela existe no mundo por causa da fragilidade humana, à ação ou inação do governo. ... Depois de tal preparação, o tempo estará na estação correta para a recomendação de uma nova forma de governo como o "remédio soberano de todos os males". É absolutamente impossível descobrir o que há de Gnóstico em ter uma causa desta forma, que é o modo de qualquer movimento político direcionado contra o governo estabelecido e especialmente de um movimento revolucionário. Não é especificamente Puritano, e não é sequer místico. 
Outro sintoma de que o caráter Gnóstico do movimento Puritano é que ele "confia em uma literatura como fonte", a saber, a Sagrada Escritura, ... [Mas] Esta é a atitude de todo movimento político ideológico que é desenhado pela Teologia Cristã, sem qualquer implicação gnóstica ou mística. 
O "passo decisivo na consolidação da atitude Gnóstica" é, de acordo com Voegelin, descrita por Hooker quando ele acusa os Puritanos de "persuadir homens crédulos e super-capacitados de tais erros agradáveis, de que isso é uma iluminação especial do Espírito Santo, por onde eles discernem aquelas coisas na Palavra, que outros leitores não discernem [Nota: Lembremos que Voegelin não acredita na infalibilidade da Escritura e também duvida da possibilidade de extrair-se qualquer sistematização coerente dEla, visto que ele entende-a como contendo afirmações paradoxais inconciliáveis - ou seja, um incrédulo]." Novamente não há nada de Gnóstico no objetivo de um líder religioso em fazer seus seguidores acreditarem que ele é iluminado por uma autoridade transcendente [exatamente como sempre houve na Igreja e existe na autoridade do Magistério e do Papa 'infalível']. A "iluminação especial do Espírito Santo" na qual os Puritanos interpretam a Escritura para basear sua autoridade não tem nada a ver com a experiência mística de união com Deus [do Gnosticismo]. Apenas se Voegelin pudesse provar que tal experiência mística moveu uma parte essencial do movimento Puritano, sua interpretação deste movimento como Gnóstico no sentido místico seria justificável. Mas tal prova é impossível pela simples razão de que nenhum movimento social pode ter tal caráter místico, já que a experiência mística - como apontada - em sua própria natureza um caráter anti-social ou pelo menos a-social. Um verdadeiro místico está longe de interessar-se em uma crítica ou reforma da sociedade, que era a preocupação usual do Puritanismo. 
[...] 
Reconhecer o Deus que vem cavalgando sobre as montanhas na dialética Marxista é um dos exageros metafísicos que conduzem uma não muito afortunada parte na interpretação de Voegelin do fenômeno social. Mas mesmo se a dialética Marxista fosse idêntica à do Deus dos Puritanos e a Revolução Russa apenas uma repetição da Revolução Inglesa, embora tenha tido um resultado formal num parlamentarismo liberal enquanto aquela tenha dado em uma ditadura totalitária, não seria a menor razão pra falar de ambos como de revoluções gnósticas e para designar a ditadura do proletariado como um conceito de "Gnosticismo Tardio". Quão arbitrariamente Voegelin usa o termo "Gnóstico" torna-se evidente em suas afirmações a respeito de "guerras gnósticas". Ele diz: "A Revolução dos Gnósticos tem por objetivo o monopólio da representação existencial. Os Santos podem prever que o universalismo de seu clamor não será aceito sem luta por um mundo de escuridão, mas que ela produzirá uma aliança universal do mundo contra eles." É óbvio que isto aplica-se somente à Revolução Russa, não à Revolução Inglesa, até porque apenas aquela e não esta - a despeito de sua ideologia apocalíptica - engajou-se numa revolução mundial, i.e., no estabelecimento revolucionário de uma nova organização social composta pelo todo da humanidade. A diferença fundamental entre as duas revoluções é obscurecida ao rotular-se ambas como Gnósticas. Apenas sobre a base de uma suposição injustificada é que a Rev. Russa é uma revolução "gnóstica", que é dizer na base de uma terminologia infundada, que Voegelin pode falar da divisão em dois mundos como do "misticismo Gnóstico de dois mundos." A divisão de dois mundos é resultado da Revolução Russa, mas não foi de forma alguma o resultado da revolução "gnóstica" Puritana."  
("A New Science of Politics? Hans Kelsen's Reply to Eric Voegelin's New Science of Politics," pág. 93-99.)


Para ser sincero, eu nem sei se Voegelin acredita nas doutrinas cristãs como verdades objetivas. Sua filosofia da história é definitivamente uma filosofia da história humanista e relativista: a história é marcada, não pela providência divina rumo a um fim determinado, mas por "saltos do ser". A condição existencial do homem é marcada por esses saltos, através dos quais o homem alcança a consciência existencial "correta". 


O legado de Voegelin é usado e abusado conforme a conveniência. Voegelin é muito suspeito ao fazer uma crítica à transubstanciação, que ele julgou como uma "desnaturação" do símbolo da ceia. Ele critica impiedosamente todos que defenderam essa doutrina, mas quando chega a vez de Tomás, em "História das Ideias Políticas", ele diz apenas que "talvez devêssemos encontrar o erro ATÉ no mestre Tomás". Super imparcial. (risos)

Voegelin também é contraditório ao falar de Francisco de Assis. Para atacar a Reforma, ele é impiedoso. Chama Lutero e os outros de anti-intelectuais, mesmo que não o fossem. Mas quando trata-se de Francisco de Assis, verdadeiro anti-intelectual, Voegelin parece adoçar sua crítica com a atitude dos devotos eunucos. Resta alguma honestidade onde ele mostra, com bastante relevância, que o movimento revolucionário em seu tom comunista surge entre franciscanos radicais, e que São Francisco foi "o símbolo da revolução".

quarta-feira, 17 de julho de 2019

NAVEGANTES NO MAR BRAVIO

"E, demais disto, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne." Eclesiastes 12:12

Confesso sentir certo desconforto ao usar o termo "vida intelectual". Sinto uma aura pertinente de soberba e elitismo envolvendo-o. Talvez eu devesse substituí-lo por "vida de estudos" ou "dedicação às letras". Ou talvez esta aura seja necessária para que este hábito receba a honra que lhe é devida. Ser "doutor na lei", por exemplo, tem posição especial na hierarquia de valores. A dedicação às letras também. Deus criou-nos para desbravar a criação como bons zeladores.

O que quero dizer é que a "vida intelectual" tem ônus e bônus. No começo, principalmente, ela traz angústia, raiva, desorientação e, principalmente, ansiedade. Temos ansiedade para achar as respostas que queremos. Temos ansiedade para entender o que certo termo significa ou entender determinada discussão que julgamos importante. É preciso ter em mente que a vida intelectual não lida com respostas matemáticas. Nem sempre podemos encontrar certezas absolutas para determinadas questões, porque, afinal, somos limitados. Não podemos ver a história como Deus a vê. Não temos acesso a todas as informações, nem a todas as opiniões. Lidamos com probabilidades, tendências e com os poderes da lógica e da retórica. Comumente, lidamos com a má-fé do coração humano. Escritores também são pecadores. Assim como leitores também são pecadores. E ideias têm consequências.

Sentimo-nos como navegantes em um mar bravio, levados por fortes ventos para onde não queremos ir; correndo o risco de tombar por uma alta onda. Se não tivermos uma bússola, instrumento básico de navegação, na menos ruim das hipóteses, nos perderemos. Se não tivermos um norte e o céu estiver nublado, não teremos estrelas para nos guiar. E o norte intelectual do cristão é Deus, Sua Revelação e sua tradição teológica (se esta for sadia). Se um estudioso cristão não estiver bem firmado nestes três pilares, ele se perderá. Ou até afogará a própria alma no mar de opiniões.

É preciso ter paciência e resiliência para ler os argumentos que ameaçam nossas crenças mais santas e continuar com os pés firmes no mundo real. Algumas palavras são capazes de rasgar nosso coração como punhaladas. E como dói! É difícil terminar alguns parágrafos. Desviamos o olhar daquele livro que nos desagrada durante alguns dias. Mas depois de respirar, terminamos aquele capítulo amargo, ainda sem solução. Saímos para jantar com a família, ouvimos música e trocamos piadas com os amigos. Quando temos a solidez teológica, podemos seguir com alguma serenidade em meio ao mar revoltoso, sabendo que o barco aguenta. Tendo confiança de que o Deus que comanda os ventos, como naquela noite com os apóstolos, nos guiará para as respostas de que precisamos, para Sua própria Glória. Há uma premissa que eu não abandono: "já deixei minha alma perdida por muitos anos, sei que Deus está certo e que Sua Palavra é verdadeira, que o ser humano é vil e suas opiniões tantas vezes serviram-me palavras envenenadas; só preciso encontrar a resposta." 

Dooyeweerd orava a Deus por sua filosofia, Thomas Reid labutou durante vinte anos para responder David Hume. E quando este momento chega, nossa alma se regojiza e finalmente entendemos o porquê desta paixão ter-nos guiado até lá. Isto é, se Deus nos der a Graça para tanto. Mas a Graça de Deus para o conhecimento humano nunca será infinita neste mundo. A onisciência, Deus guarda-a para si. Quando um horizonte é alcançado, outro passa a existir. E sei que chega a hora em que dizemos: meu Deus me trouxe até aqui, apenas. Outros desbravadores terão que alcançar aquele outro mar. E há mesmo aqueles mares que Deus nos proíbe de investigar. Há certas coisas que nunca entenderemos completamente; por enquanto, "vemos como por espelho".

É por isso que a primeira obrigação intelectual de um cristão é para com a sua própria fé - conselho que eu mesmo preciso escutar um pouco mais. Sábio, na Bíblia, é aquele que conhece a Lei de Deus. E é agradável a Deus que o homem goze o fruto de seu trabalho.

V.B.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A ICAR e o intervencionismo estatal



A ICAR e o intervencionismo estatal.

[O presente artigo deve muito ao trabalho de John Robbins.]
O meio conservador brasileiro possui uma grande porcentagem de católicos romanos. Esses católicos têm lutado contra o socialismo e também contra o intervencionismo estatal e apoiado o sistema de livre mercado. Mas será que eles conhecem a Doutrina Social de sua Igreja? Será que eles conhecem o real posicionamento da Igreja Católica Apostólica Romana e como ela participou da construção do intervencionismo estatal no século XX?  
 


Eles não esquecem de lembrar comumente, cheios de orgulho, que o papa João Paulo II combateu o comunismo especialmente na Polônia e na URSS [Nota: sem a política conservadora e o nacionalismo americano, que é essencialmente protestante, nada disso seria possível]. Isso é um fato. Mas não sabem eles que o catolicismo também condena o capitalismo?  

Querem alguns deles também jogar toda a culpa dos posicionamentos errados assumidos pela Igreja no século XX na infiltração de agentes inimigos em seu meio. Mas esta é a verdade? Mostraremos que não. 
 


“O destino universal dos bens”. Esta é a expressão de João Paulo II (o mesmo que combateu o comunismo) em sua encíclica “A Preocupação Social”. 
 



“Está nisto uma das razões por que a doutrina social da Igreja adopta uma atitude crítica, quer em relação ao capitalismo liberalista, quer em relação ao colectivismo marxista.”[1]


“É necessário recordar mais uma vez o princípio típico da doutrina social cristã: os bens deste mundo são originariamente destinados a todos.  O direito à propriedade privada é válido e necessário, mas não anula o valor de tal princípio. Sobre a propriedade, de facto, grava ‘uma hipoteca social’, quer dizer, nela é reconhecida, como qualidade intrínseca, uma função social, fundada e justificada precisamente pelo princípio da destinação universal dos bens. Nem se há de descurar, neste empenhamento pelos pobres, aquela forma especial de pobreza que é a privação dos direitos fundamentais da pessoa, em particular, do direito à liberdade religiosa e, ainda, do direito à iniciativa econômica.” 
 [1]


Alguns católicos romanos mais teimosos e menos instruídos podem alegar que esse posicionamento do Papa João Paulo II está errado, mas que a Igreja antes não era assim. Tal objeção seria simplesmente ridícula. Eis o que diz  a bula “Alegria e Esperança”, da Constituição do Vaticano II: 




“Aquele, porém, que se encontra em extrema necessidade, tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita. Sendo tão numerosos os que no mundo padecem fome, o sagrado Concílio insiste com todos, indivíduos e autoridades, para que, recordados daquela palavra dos Padres - 'alimenta o que padece fome, porque, se o não alimentaste, mataste-o’ - repartam realmente e distribuam os seus bens, procurando sobretudo prover esses indivíduos e povos daqueles auxílios que lhes permitam ajudar-se e desenvolver-se a si mesmos.” [2]

João XXIII, em “Mãe e Mestra”, na sessão “Iniciativa pessoal e intervenção dos poderes públicos em matéria econômica”, escreveu: 



“Mas nele, pelas razões já aduzidas pelos nossos predecessores, devem intervir também os poderes públicos com o fim de promoverem devidamente o acréscimo de produção para o progresso social e em beneficio de todos os cidadãos.” [3]

Incrível, não? Os católicos acreditam que existem situações onde o roubo é lícito e por isso defendem que as forças públicas intervenham em matéria econômica.  
 
Agora, comparemos o que o papa João Paulo II disse com o que afirmou Lyndon Johnson, que assumiu a presidência nos EUA após a morte de Kennedy (e começou a criar programas de assistencialismo estatal que geraram verdadeiros monstros econômicos criticados por Ronald Reagan, queridinho até pelos conservadores católicos romanos) no contexto de seu projeto “Great Society”: 
 



“Direitos Humanos são mais importantes que a propriedade privada… Nós precisamos tirar de quem tem para dar a quem não tem.” 


Ironicamente, os conservadores católicos romanos no Brasil condenam o intervencionismo estatal que é defendido pela Igreja de Roma por uma dedução lógica de sua cosmovisão. 
 
Mas será possível estabelecer, a partir dessas citações, alguma relação real entre a Igreja Católica Romana e a execução de políticas econômicas intervencionistas  em países desenvolvidos?  
 
Sim. E os próprios papas respondem a essa pergunta. 
 


RERUM NOVARUM E O CINISMO DA SÉ ROMANA. 

Tantas vezes citada pelo cômico e famoso padre Paulo Ricardo, a bula Rerum Novarum (que significa “Inovações”) foi a voz da autoridade moral necessária para resolver a interferência efetiva de todos os governos do século XX. Na Encíclica Quadragesimo Anno (Comemorando o 40º aniversário da Rerum Novarum), Pio XI escreveu: 


“Não é pois de admirar, que muitos sábios quer eclesiásticos quer leigos se aplicassem diligentemente, seguindo a orientação dada pela Igreja, a desenvolver a ciência social e econômica, conforme as exigências do nosso tempo, levados sobretudo do desejo de tornar a doutrina inalterada e inalterável da Igreja mais eficaz para remediar as necessidades modernas. Foi assim que à luz e sob o impulso da encíclica de Leão XIII nasceu uma verdadeira ciência social católica, cultivada e enriquecida continuamente pela indefessa aplicação d'aqueles varões escolhidos, que chamamos ‘cooperadores da Igreja’. (…) A doutrina ensinada na encíclica  “Rerum novarum”  impôs-se insensivelmente à atenção d'aqueles mesmos que, separados da unidade católica, não reconhecem a autoridade da Igreja ; e assim os princípios de sociologia católica entraram pouco a pouco no patrimônio de toda a sociedade humana ; e as verdades eternas, tão altamente proclamadas pela santa memória do Nosso Predecessor, vemo-las frequentemente citadas e defendidas não só em jornais e livros mesmo católicos, mas até nos parlamentos e tribunais.” 
 
[4]

Percebem como eles orgulham-se de enfiar sua doutrina distorcida nas mentes protestantes? “Aqueles separados da unidade católica”, que com suor e sangue desenvolveram estruturas políticas capazes de produzir oportunidade e mercado propício para a melhoria na qualidade de vida de seus cidadãos agora deixaram-se infestar pelas ideias daquela que, repreendendo a cosmovisão cristã reformada (evangélica), sustentaram países econômica e politicamente anêmicos. A primeira causa da diferença entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, entre os EUA e a América Latina, é uma só: a diferença entre a visão de mundo evangélica e a visão de mundo católico-romana.

Com a força da Inquisição na luta contra a “heresia luterana”, a Contrarreforma instalou-se nos países da América Espanhola e criou sociedades estruturalmente desiguais e esse foi o terreno fértil pro avanço do Iluminismo. Finalmente, o catolicismo só sobreviveu na Europa e nos países latinos através da defesa militar e da  instalação de ditaduras, ao contrário dos países protestantes, que conservaram-se muito melhor, atrasando as garras Revolução em cerca de 200 anos. Os princípios reformados, especialmente calvinistas, reestruturaram a sociedade de uma perspectiva genuinamente cristã, criando sociedades menos suscetíveis às ideias revolucionárias. A Reforma Protestante foi, portanto, uma antítese ao humanismo como visão de mundo. Nietzsche chegou a dizer: 
 



“Se Lutero tivesse sido queimado, como Hus, o início do Iluminismo talvez teria ocorrido um pouco antes, e mais esplendidamente do que podemos imaginar agora.” [5]   

O próprio Olavo de Carvalho reconhece esse caráter contrarrevolucionário da Reforma Protestante: 


“A Reforma Luterana, sobrevindo no rastro dessa avalanche, foi no fim das contas o contra-movimento que deteu a revolução e permitiu que o cristianismo sobrevivesse em algumas áreas onde ele ameaçava reduzir-se, com quatro séculos de antecedência, em uma espécie de teologia da libertação, com padres enfurecidos pregando a revolução permanente e matança geral dos ricos.” [6]. 
 


O professor também reconhece o desenvolvimento raquítico dos países católicos: 


“O Papado, assustado com a rebelião protestante, atormentado de suspeitas contra tudo e contra todos, e ao mesmo tempo fortalecido pela súbita ascensão das monarquias católicas que as navegações haviam enriquecido, fechou-se numa hierarquia rígida e numa reivindicação de poder absoluto, eliminando o que restava do pluralismo medieval e sufocando a iniciativa de auto-organização da sociedade. (…) Em contrapartida, o autoritarismo papal e monárquico criou sociedades anêmicas, desfibradas, intimidadas e corrompidas pela subserviência à burocracia onipotente.” [7]  
 


Vemos então com quão grande cinismo os papas têm tratado o problema da desigualdade entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, como se a igreja de Roma não fosse corresponsável por essa desigualdade. 
 
[Nota: Quanto às incoerências do Olavo a respeito da Reforma, elas são fruto, em primeiro lugar de uma visão idealizada do catolicismo produzido por sua Eclesiologia sofística e também pela ausência do pensamento reformado entre os estudos do professor. A refutação aos comentários do professor a esse respeito serão tratados em um local apropriado, pois não é esse o nosso foco.]  
 
Mas além da confissão orgulhosa dos próprios católicos a respeito de sua interferência nas diretrizes econômicas dos países desenvolvidos, podemos averiguar algumas associações vergonhosas, como o acordo entre a Santa Sé e Mussolini. 
 


A ICAR E O FASCISMO. 

Quando o rei Vitor Emanuell II invadiu Roma em 1870, sepultava-se o poder secular do papa. A Igreja Romana perdia até mesmo os Estados Pontifícios, conseguidos mediante a doação do rei Pepino, o Breve, em 756. (Inclusive, os historiadores entendem que foi nesse período que começou a circular o documento falso chamado “Falsa Doação de Constantino” [8] que a Igreja Católica usou durante toda a Idade Média para manter seu poder sobre os reis no Império e conseguir propriedades; os Estados Papais foram conseguidos e sustentados em cima desses documentos falsos). O papa negava-se a aceitar a situação que nasceu no processo de unificação da Itália e assim começava a conhecida “Questão Romana”. 

Décadas depois, embora tenha negado as primeiras propostas do governo italiano, em 1929 a Santa Sé assinou o Tratado de Latrão, pelo qual oficializou a existência do Estado do Vaticano, além de receber gordas indenizações (750 milhões de liras em dinheiro e 1 bilhão em títulos) e uma renda anual de 4 milhões e meio de dólares. Em troca, o Vaticano reconheceria a legitimidade do governo italiano. Segundo o historiador John Pollard, esse dinheiro foi fundamental para que o Vaticano se consolidasse financeiramente, tendo investido em ações e propriedades, que são chamados de “Patrimônio Mundial da Santa Sé”. Mas, a despeito dos muitos interesses envolvidos no Pacto Lateranense, podemos ver um pouco mais nessa aliança. 
 


No dia 15 de fevereiro de 1929, o jornal da Igreja Católica chamado “Osservatore Romano” publicou um discurso do papa Pio XI que dizia: “Devemos dizer que fomos também da outra parte nobremente acompanhados. Um homem era necessário como aquele que a Providência colocou em nosso caminho: um homem que não partilhasse da escola liberal […] é então com grande satisfação que cremos com isso ter dado a Deus à Itália e a Itália a Deus.” 
 
Ora, esse discurso deixa claro que existia uma concordância entre a visão da Sé Romana e do fascismo no que diz respeito à economia. Ainda que posteriormente e com justiça a Igreja de Roma tenha se pronunciado contra os crimes do fascismo, e tenha tentado evitar os abusos do governo italiano, eles têm uma história em comum e pontos de concordância e a benção papal foi importante para a consolidação inicial de Mussolini. 
 [9]

Devemos perguntar-nos: qual é a origem do posicionamento católico a esse respeito? Não há incoerência nas afirmações citadas anteriormente com a teologia católica oficial. Ela na verdade é coerente com o ensino oficial, e a origem da Doutrina Social da igreja romana firmou-se em Tomás de Aquino. 
 


TOMÁS DE AQUINO E ROBIN HOOD. 


Henry William Spiegel escreveu:


“Tomás de Aquino não escreveu nenhum tratado econômico, mas seu pensamento, baseado em Aristóteles, é fundamental para a compreensão do pensamento econômico da Igreja Católica Romana.”[8]

Busquemos então a raiz da Doutrina Social romanista.


“A comunhão de bens é pertencente à lei natural; não que a lei natural dite que todas as coisas sejam possuídas em comunhão e que nada possa ser propriedade individual (privada), mas porque a divisão dos bens não se dá de acordo com a lei natural, mas é oriunda do acordo humano, que pertence à lei positiva (…) Portanto, a posse de bens é não contrária à lei natural, mas adicionada a ela pela razão humana.” [10] 
 


Com essa citação vemos a compreensão tomista da propriedade e dos bens. Vejamos, a seguir, algum bem controverso: 
 


 
“A necessidade torna todas as coisas comuns. E, portanto parece não cometer pecado quem se apodera da coisa de outrem levado pela necessidade, que lhe tornou essa coisa comum.“ 
[10] 



“É legal para um homem socorrer sua própria necessidade por meio de propriedade alheia, tomando-a tanto abertamente quanto secretamente. Isso não é, tecnicamente falando, roubo ou furto, tomar secretamente e fazer uso de propriedade alheia em razão da extrema necessidade. Porque aquilo que o homem toma para preservar a própria vida torna-se sua própria propriedade em razão da necessidade… E no caso da necessidade de um homem, o seu próximo pode tomar a propriedade de um terceiro no intuito de socorrer a necessidade de seu próximo”. 
 [10] 


Uau, Robin Hood! O conceito de necessidade não foi bem definido, já que os papas defendem que o acesso a bens manufaturados produzidos nos países desenvolvidos deveriam ser distribuídos aos países subdesenvolvidos; e isso é bem mais do que apenas um caso de fome imediata. Relembremos as palavras do Concílio Vaticano II: 
 



“Aquele, porém, que se encontra em extrema necessidade, tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita. Sendo tão numerosos os que no mundo padecem fome, o sagrado Concílio insiste com todos, indivíduos e autoridades, para que, recordados daquela palavra dos Padres - 'alimenta o que padece fome, porque, se o não alimentaste, mataste-o’ - repartam realmente e distribuam os seus bens, procurando sobretudo prover esses indivíduos e povos daqueles auxílios que lhes permitam ajudar-se e desenvolver-se a si mesmos.” 
 



Há, portanto, total coerência no posicionamento da igreja romana sobre o intervencionismo estatal.  
 


Mas Tomás de Aquino está certo? 
 

CRÍTICAS A TOMÁS DE AQUINO 
 


Em primeiro lugar, é questionável todo o posicionamento de Tomás de Aquino em relação à propriedade. Tomás de Aquino baseia sua opinião nas especulações a respeito da suposta “lei natural”. Mas a Bíblia mostra que Deus reconhece indefectivelmente a propriedade. A Lei de Deus é clara: não roubarás nem cobiçarás os pertences do teu próximo. Deus não abre exceções. Está implícito que Deus reconhece a propriedade privada como sendo real, legítima, e não há qualquer alusão a uma mera convenção positiva feita por acordo dos homens. As especulações tomistas nesse sentido demonstram o erro básico de Tomás de Aquino: o método. Tomás de Aquino, buscando apoiar no caso específico as leis meramente na razão e na ontologia, negligencia os pressupostos revelados. 

É claro que, em relação à propriedade privada, a Lei Mosaica, ao mesmo tempo em que a reconhece, impõe-lhe limites. Ela preceitua, por exemplo, que os grandes donos de terra deveriam reservar uma área periférica de suas propriedades para que os pobres pudessem cultivar seus próprios alimentos. Mas existe uma grande diferença entre limitar a propriedade privada e roubá-la, como Aquino defende. O próprio Agostinho de Hipona, por exemplo, discorda da legalidade do roubo para auxiliar um necessitado.  
 


Curiosamente, Aquino diz simplesmente: “A necessidade torna todas as coisas comuns”. É uma afirmação ridícula. Calvino tavlez dissesse que o erro de Aquino aconteceu porque o mesmo não exercitava-se nas Escrituras. Vejamos um provérbio numa tradução dos próprios católicos romanos: 
 


"Não se despreza o ladrão quando furta para satisfazer os apetites, quando tem fome; se for preso, restituirá sete vezes mais e restituirá todos os bens de sua casa.”(Provérbios 6:30-31; Bíblia Ave Maria) 

Está claro que o ladrão não é justificável quando rouba pra saciar sua fome, como Aquino erroneamente defende. O ladrão não é “desprezado”. Como assevera ainda meu amigo Leonardo Bruno Galdino em seu blog [11], o contexto mostra que o autor do provérbio compara tal furto com as consequências do adultério, que, na tradução católica, condena o adúltero a despeito de qualquer situação que lhe seja imposta. 

A influência de Aquino não se fez negativa apenas por causa disso. Seguindo a tradição do moralismo medieval, Aquino considerava qualquer acúmulo de riquezas como avareza, ou seja, pecado. Especificamente esse julgamento de Aquino foi criticado pelo cardeal Caetano [12], um dos pioneiros na ciência econômica e pós-escolástico estudioso do próprio Aquino. Caetano considerava a condenação de Tomás exagerada. A condenação que Aquino também sustentou contra a usura foi uma das principais razões para o atraso dos países católicos em relação ao desenvolvimento do capitalismo e, portanto, do atraso econômico desses países, que mantiveram-se ainda dependentes do colonialismo. Nos países protestantes, a interpretação de João Calvino sobre a usura (contra a interpretação católica) abriu espaço para o desenvolvimento do livre mercado em alguns países do norte da Europa. 

Portanto, a base que sustenta o posicionamento do intervencionismo estatal do catolicismo romano é falsa. A Bíblia não dá direito a tocar na propriedade privada de outrem, ainda que condene quem não pratique caridade. Deus considera a vontade do proprietário e o condena pela falta de caridade, mas não legitima o intervencionismo estatal ou o roubo. Quando os católicos conservadores brasileiros defendem o liberalismo na economia e combatem o intervencionismo estatal, estão claramente indo contra o ensinamento do Magistério que advogam!

É inegável, pois, como diz John Robbins, a participação da ICAR, e seus “homens escolhidos, chamados de ‘auxiliares da Igreja’ [referência a uma expressão usada na 'Quadragésimo Ano’], que têm sido importantes para o fim do sistema de livres empresas do século XIX e substituído pelo sistema de interferência estatal no século XX.” [13]

FONTES:

[1] http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html 
 


[2] http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html 
 


[3] http://w2.vatican.va/content/john-xxiii/pt/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_15051961_mater.html 


[4] http://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19310515_quadragesimo-anno.html 
 

[5] Nietzsches Werke, Lipzig, 1889-1904, I, ii, pp. 224-225

[6] Olavo de Carvalho, “A Autoridade Religiosa do Mal”.

[7] Olavo de Carvalho, “Cultura e desenvolvimento econômico”

[8] http://conhecereis-a-verdade.blogspot.com.br/2012/10/a-doacao-de-constantino-e-outras.html e http://www.historiadomundo.com.br/idade-antiga/a-doacao-de-constantino.htm

[9] http://www.osservatoreromano.va/pt/news/e-pio-xi-escreveu-a-mussolini-os-judeus-doaram-nos

[10] Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, Q. 66, art. 7º; http://www.permanencia.org.br/drupal/node/5108 

[11] http://lbgaldino.tumblr.com/

[12] http://www.ubirataniorio.org/index.php/occasional/217-esc2

[13] John W. Robbins, Ecclesiastical Megalomania. 

terça-feira, 10 de julho de 2018

A Besta que Emerge do Mar

A BESTA QUE EMERGE DO MAR.

Nascemos em um século onde o estado moderno já existia e, no máximo, vemos seu agigantamento para áreas antes entendidas como "privadas". Isso tem sido suficiente para dar calafrios nos mais sóbrios. Somos, pela condição de nosso nascimento, incapazes de conceber uma organização social sem esta instituição difícil de ser definida. Mas nem sempre foi assim.

No passado, o estado como conhecemos não existia - e ninguém se preocupava com isso. As relações pessoais eram definidas pela família ou por um senhor, pela comunidade local ou pela associação religiosa. Quem não podia sobreviver nestes termos, tornava-se um servo ou escravo. E os valores daqueles tempos eram definidos em termos destas relações. Quem não era guardado dentro de alguma destas esferas estava perdido. Os sacrifícios pessoais eram feitos em nome da família, do senhor, da comunidade ou da religião. O poder organizador dessas sociedades também era menor; era difícil juntar uma grande quantidade de pessoas para trabalhar por um longo período. Não era possível para um governante, ainda que ele se considerasse soberano, estabelecer um controle forte sobre um longo território (as publicações papais, por exemplo, podiam levar muitos meses para atingir seu destino). Havia um senso de obrigação entre as pessoas que se conheciam pessoalmente - mas esse senso de obrigação esvaía-se com a distância. Era impossível fazer grandes organizações para utilizar uma grande quantidade de recursos naturais e humanos.

O desenvolvimento do estado moderno muda tudo isso. Hoje, alguém pode viver relativamente "bem" e com segurança sem ter família, senhor, religião ou mesmo comunidade porque o estado moderno vem superar tudo o que lhe precedeu. Desde a infância ouvimos nos telejornais que pessoas em regiões precárias sem documento de identidade, por exemplo, "não existem". Quem não é conhecido pelo estado "não existe". Esta pessoa é abandonada pela "graça" do estado moderno, sem acesso às suas maravilhosas provisões; sem direitos, sem segurança, sem a possibilidade de desenvolver uma carreira, muito menos o tão amado concurso público do brasileiro. Lamentamos a situação de tal indivíduo como um grande "atraso", merecedor da nossa mais alta piedade. O estado tornou-se tão essencial que na medida em que a civilização moderna alcança uma área considerada "atrasada", seus habitantes formam alguma instituição para lidar com o estado, criam um próprio estado ou refugiam-se em outro já existente. Ninguém consegue fugir do estado.

O estado moderno conseguiu uma organização complexa. Ele surgiu para suprir algumas necessidades e foi tão bem sucedido que voltar-se contra ele tem sido visto como voltar-se contra o humanitarismo. O estado cuida do bebê que nasce em suas maternidades até o idosos sustentado pela previdência. O estado se preocupa com a sua saúde e quer saber a quantidade de sal e açúcar que você consome. Ele se preocupa com a educação dos seus filhos e quer decidir o que eles devem ou não aprender. Quer saber quantas horas de descanso você tem semanalmente e qual é o seu contrato com seu empregador. Quer saber tudo o que você compra e deixa de comprar e oferece prêmios pelas suas notas fiscais. 

Com o avanço da tecnologia, ele tem conseguido o que antes nunca fora possível. Uma ordem pode ser cumprida em poucos minutos a longas distâncias. Nos EUA, eles lêem seus emails para sua segurança. Na China, com câmeras, eles conseguem identificação de todos os cidadãos. Com a preocupação caridosa de algumas empresas de telefonia e internet, ele pode saber onde você esteve ontem à noite. Agora, em nome da caridade, ele está redefinindo e controlando tudo o que existia antes dele: família, relações de trabalho, comunidade e religião. Ele está definindo o que é ou não é a vida (aborto), quem merece ou não viver, que tipo de propagandas você pode ou não ver na TV e muito mais. Ele quer agora redefinir o que é a natureza humana.

No momento em que pude vislumbrar todas estas coisas em conjunto, eu não pude parar de pensar na imagem de uma besta apocalíptica.

Biblicamente, a função das autoridades civis é muito limitada: punir o mal. O ministério da justiça. As autoridades civis existem por causa da Queda, do Pecado Original. É ímpio paganismo que Aristóteles se intrometa na visão cristã de estado, como vemos de Tomás de Aquino a Russell  Kirk. Deus não deu aos magistrados as funções que a conveniência humana (às vezes travestida de "necessidade da razão natural") encontrou nos últimos séculos. Para todos os efeitos, o estado moderno vem fornecer uma "providência" comparada àquela de Deus. E na verdade, para o estatista, o estado serve para proteger os homens da ira de Deus. A torre de Babel foi construída para alcançar os céus e para que, com ela, o ser humano nunca mais fosse morto por um novo dilúvio. A liberdade para o estatista se resume basicamente à liberdade sexual; ou melhor, liberdade contra a moralidade cristã em todas as áreas da vida. Ele preocupa-se com o "bem comum". Em "aperfeiçoar o ser humano". Paganismo, enfiado no cristianismo.

Lembremos que Deus não se agradou do pedido israelita por um rei. Deus diz ao profeta que Israel rejeitou Seu próprio reinado e listou uma série de consequências ruins daquele pedido. (1 Samuel 8:7-22) Deus não se agrada mais do estado moderno, que usurpa sua soberania, do que da monarquia. O estado moderno é muito pior. Antes, Israel tinha uma autoridade tribal, basicamente familiar com uma estrutura religiosa e juízes. Sejamos francos: o povo hebreu era mais livre do que nós somos. O Senhor diz ainda que, uma vez clamando por causa do alto custo do reinado, Ele não escutaria as orações de seu povo. A monarquia trazia consigo um castigo divino. Além das consequências que Deus listou, aquele pedido inaugurou um tempo de grande turbulência e instabilidade até a vinda de Cristo. Mas a Palavra de Deus também diz que, naquele tempo, havia anarquia. Ou seja, o povo não governava-se a si mesmo.

Para R. J. Rushdoony, a liberdade política só é possível para um povo que pratica o auto-governo cristão. Os puritanos praticavam. Saibamos que a Constituição Americana é única no mundo: ela impõe mais limitações ao governo civil do que deveres. Como afirmou o presidente americano John Adams, aquela Constituição só funciona com "um povo moral e religioso." Um povo que obedece a Deus pode ser livre de um governo autoritário. As alternativas humanistas resumem-se à anarquia e ao totalitarismo - mas a anarquia nunca perdura, as pessoas requerem proteção. O abandono da fé cristã conduz ao estado autoritário, ao estado-babá. Abandonamos o Deus predestinador para eleger o estado como predestinador. Deixamos Cristo por César, Paulo por Aristóteles, Calvino por Rousseau. Apenas a fidelidade da igreja pode construir liberdade política.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

SEPARAÇÃO ENTRE LEIS E RELIGIÃO

Para Rushdoony, a separação entre leis e religião levou à destruição das duas. A religião fugiu do mundo e entregou-se a uma ética pietista, ao mundo espiritual, sem qualquer influência na vida "prática". As leis perderam qualquer conexão com a moralidade, tornando-se mera "construção", "tradição vazia", resquícios de um passado injustificado e finalmente a “vontade da maioria” ou de um estado soberano, pelos quais o aborto, a zoofilia (legalizada na Alemanha) e quaisquer outras práticas podem ser admitidas. A recente legalização do aborto na Irlanda por mera votação mostra a natureza do problema. Se Deus não é o soberano sobre as leis, a maioria pode decidir amanhã que roubar não é mais crime. E, de fato, o socialismo é isto.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

DEUS, SIGNIFICADO E OS ASPECTOS DA REALIDADE

Desprezar a autoridade de Deus e sua Palavra sobre algum aspecto da realidade é condenar esse aspecto à ausência de significado e finalmente deixá-lo ser ocupado com algo criado pela imaginação humana. É Deus quem dá significado e propósito a tudo o que é criado. Rejeitar uma autoridade cristã nas ciências, no mundo acadêmico ou na esfera jurídica é apartar Deus da verdade e da realidade, pois aquelas são áreas que lidam com a prática. O resultado será o relativismo ou alguma outra forma de distorção. Negar a lei de Deus (ou, para usar o termo neocalvinista mais abrangente, "negar a Palavra-Lei") e as implicações dela para a vida pública é negar a infalibilidade em última instância. A igreja resume-se à tarefa da "salvação pessoal".

[Sobre Dooyeweerd e Van Til.]

domingo, 13 de maio de 2018

A TEOLOGIA DOS REVOLUCIONÁRIOS

A teologia é inescapável. Conceitos como soberania, liberdade e absoluto são inescapáveis. Mesmo que alguns defendam completamente a divisão entre religião e política, eles apenas substituem os atributos transcendentes de Deus para elementos da própria Criação, seja o próprio homem, seja a natureza. Como Paulo explicou em Romanos 1, o homem nega a divindade de Deus e adora a criatura em seu lugar. O que temos não é política sem teologia, mas políticas baseadas em teologias diferentes, que disfarçam a si mesmas.

Quando Deus foi expulso do mundo moderno, Hegel enxergou a única possível encarnação da divindade no estado. Para Rousseau, a encarnação estava na 'vontade geral'. Com Marx, a encarnação da divindade passou para o ativismo revolucionário. No fim das contas, a ditadura do proletariado seria infalível. A única transcendência possível é o futuro. "Seremos julgados pelos homens do futuro", eles diziam desde os tempos do terrorismo romântico na Rússia. Assim como os cristãos creem no decreto de Deus e na ação de sua Graça para o estabelecimento de seu Reino, o esquerdista vê sua práxis religiosa no ativismo revolucionário a fim de trazer a encarnação da divindade no Reino do Humanismo. Por isso, como Rushdoony explicou, as discussões que ocorreram entre os membros da ex-URSS em torno da possibilidade de Stalin ter (ou não) cometido erros não eram meras discussões políticas, mas discussões teológicas. A ditadura do proletariado não poderia falhar. Com atenção, Albert Camus relacionou corretamente o niilismo e o terrorismo de estado. Rejeitar a autoridade de Deus sobre a política e a história, incluindo a pressuposição de seu decreto infalível, conduz inevitavelmente ao presente estado de coisas.