quarta-feira, 17 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO FRANCESA E A CONTRARREVOLUÇÃO CONSERVADORA AMERICANA
por R. J. Rushdoony.

Há alguns anos, Drucker desafiou como "falaciosa" a crença de que as origens da Revolução Americana deveriam ser encontradas no Iluminismo, e negou também que a Revolução Americana era uma precursora da Francesa. Em vez disso, ele afirmou,


"A Revolução Americana foi baseada em princípios completamente contrários àqueles do Iluminismo e da Revolução Francesa. Em intenção e em efeito, ela foi um bem-sucedido contramovimento contra o despotismo racionalista do Iluminismo que proveu a fundação política da Revolução Francesa. Embora a Revolução Francesa tenha acontecido posteriormente, ela foi politicamente e filosoficamente antecipada pela Revolução Americana. Os conservadores de 1776 lutaram e venceram o espírito da Revolução Francesa de forma que o desenvolvimento Americano realmente representa um estágio mais avançado na história do que o Etats Generaux, o Terror, e Napoleão. Longe de ser uma revolta contra a antiga tirania e contra o feudalismo, a Revolução Americana foi uma revolução conservadora em nome da liberdade contra a nova tirania do racionalismo liberalista do Despotismo Iluminado. 
... A Liberdade do mundo Ocidental durante o século XIX e até os dias de hoje foi baseada sobre ideias, princípios, e instituições da contrarrevolução conservadora Americana de 1776. 

A Revolução Americana trouxe vitória e poder a um grupo que havia sido quase completamente derrotado na Europa e que estava aparentemente em rápida decomposição: os anti-centralistas, os conservadores anti-totalitários com sua hostilidade ao governo absoluto e centralizado e sua desconfiança contra qualquer governante que alegasse perfeição." [1]

O sucesso da Revolução Americana, acrescenta Drucker, derrotou o Iluminismo na Inglaterra e permitiu que o pensamento de Burke ganhasse ascendência lá. [2] A caracterização feita por Ducker da revolta Americana como uma "contrarrevolução conservadora" é talvez a melhor descrição simples da causa. As tentativas de Beard, Jameson, Parrignton, e outros, de ler a índole própria da Revolução Americana não podem sustentar-se. O julgamento brusco de Malin com referência a Parrignton está claramente em ordem:


"O exemplo mais notável dessa combinada degradação da ciência-literatura social da história Americana foi o Main Currents of American Thought de Parrignton. Ele pertence à mesma classe do Mein Kempf de Hitler ao basear a história ao nível da propaganda viciada em prol de um programa social sendo imposto sobre uma nação." [3]

As diferenças entre as duas revoluções eram notadas por muitas outras pessoas além de Burke. Nestas condições, Friedrich Gentz (1764-1832), conselheiro de Metternich e secretário do Congresso de Viena, em 1810, chamou atenção para as quatro diferenças essenciais. Primeiro, a Revolução Americana estava baseada sobre princípios legais e tradições firmemente estabelecidas, enquanto a Revolução Francesa moveu-se por premissas obviamente ilegais e desprovidas de princípios. Segundo, a Revolução Americana era "defensiva", uma batalha dos Americanos para preservar suas liberdades e continuar seu desenvolvimento legítimo, enquanto a Francesa era "do começo ao fim, no sentido mais alto da palavra, uma revolução ofensiva." Terceiro, a Revolução Americana teve um objetivo fixo, definido, limitado, e particularista, enquanto a Francesa não tinha nenhum, mas antes moveu-se em termos de "vontade arbitrária, e de uma anarquia sem limites." Quarto, a Revolução Americana, em decorrência de sua natureza legalizada e limitada, encontrou-se com resistência limitada, enquanto a Francesa poderia apenas "forçar o caminho através de violência e crimes." [4]

O morador da Nova Inglaterra, Thomas Paine (que mudou seu nome para Robert Treat Paine para prevenir confusão com o inglês que escreveu o Rights of Man), em "Adam and Liberty" (1798), escrito quando a guerra com a França parecia iminente, viu a diferença como entre "verme pestilenta da Anarquia" e as "leis" Americanas e sua longa tradição, que ele comparou ao "carvalho imperial; cujas raízes, como nossas liberdades, foram nutridas por eras."


"Enquanto a França banha seus enormes membros reclinada no sangue,  
E ameaça a base da sociedade com ampla dissolução;  
Que paz seja como a pomba, que voltou depois da inundação,  
E encontre uma arca de residência em nossa suave constituição.


Este é o fogo do sílex, cada americano aquece. 
Deixe os vencedores arrogantes de Roma acautelarem-se da colisão,  
Deixe-os trazer todos os vassalos da Europa armados,  
Nós somos um mundo por nós mesmos, e desprezamos uma divisão."

A Revolução Francesa representou o resultado violento de três forças maiores. Primeiro, as ideias do Iluminismo encontraram sua maior expressão e aplicação em uma moda radical e cuidadosa na Revolução Francesa. Ela foi vista como a oportunidade que o homem tinha para reordenar a história e reconstruir os homens nos termos da luz dessa filosofia. Segundo, ela foi o tanto o triunfo quanto a esperança banhada de sangue de várias sociedades iluministas, secretas e subversivas, dedicadas à mesma fé que filósofos Iluministas, mas com estratégias de organização acrescentadas. [6] Terceiro, ela representou a culminação também de uma tradição estatista na França. A legislação social extensiva diante do desemprego, fome, inundação, fogo, epidemias de origem animal, e praga, e também os hospitais estabelecidos, asilos, riqueza familiar, assistência educacional, pensões, e coisas do tipo, caracterizaram a França monárquica. Caridade privada e responsabilidade pessoal foram firmemente substituídas por legislação para bem-estar. A Revolução então apresentou-se como o estado paternalista total, em cumprimento do que a monarquia havia começado.


"Desde os primeiros dias da Revolução, a assistência foi declarada como uma obrigação nacional, um débito que o estado possuía para com seus cidadãos. Em palavras, os Revolucionários provavelmente foram além do Antigo Regime, mas em obras eles meramente seguiram a política que havia sido há muito estabelecida sob o Antigo Regime." [7]

Na Inglaterra, entretanto, aqueles problemas foram firmemente enfrentados nos séculos XVI e XVII com imensos derramamentos de riqueza privada e caridade, de forma que os objetivos educacionais, caridosos e reformadores foram alcançados através da sociedade antes de o ser através de agências estatais. O resultado foi "uma quieta, mas verdadeira revolução." [8] A tradição Americana representa uma continuação da "revolução" Inglesa, e o desenvolvimento extensivo de associações, caridades, fundações, universidades, escolas, e o movimento missionário mundial são aspectos desse progresso. 

As três maiores expressões da filosofia do Iluminismo foram, primeiro, a Revolução Francesa; segundo, Darwin e sua mitologia da evolução; e, terceiro, a Revolução Russa e suas teorias Marxistas. Um número de premissas e pressuposições governa essa fé desenvolvida, e um desentendimento deles é básico para uma compreensão da história contemporânea. 

Primeiro, essa filosofia implica uma rejeição do passado e da história. "A Revolução Francesa, que sentiu a necessidade de um novo Ano Um e de um novo calendário, era uma revolução contra a história." [9] De acordo com essa fé, o tempo de Deus precisa ser suplantado pelo tempo do homem, e o governo total e a lei de Deus, pelo governo total e pela lei do homem. Esta filosofia sustenta que o conceito de mente limpa como um quadro negro é básica para a verdadeira educação, de forma que aquela educação não seria desenvolvimento, mas condicionamento. Esse conceito, aplicado à história, vê a revolução como um quadro negro limpo histórico: o passado é exterminado, no intuito de que a história possa começar fresca. Com a Francesa, um novo calendário marcou uma nova era no tempo. A culminância desse novo tempo, a era revolucionária, será, para o Marxismo e para a Internacional Comunista, o fim da história. Quer seja justificada em nome da Razão (antes de Darwin) ou da ciência (depois de Darwin), a filosofia do Iluminismo é anti-histórica. Burke opôs-se à Revolução Francesa por causa de sua natureza anticristã e anti-histórica, mas apoiou a Revolução Americana porque ela era o verdadeiro cumprimento de um Cristianismo e da história. A concepção de mente como um quadro negro limpo tem raízes antigas, mas ela veio a si no Iluminismo.

Segundo, como um corolário do primeiro, há uma rejeição das instituições e dos costumes herdados do passado que são considerados tanto não racionais quanto não científicos. Como um resultado, há uma hostilidade à religião, ao casamento, e à família em termos de fé, uma hostilidade a tudo, inclusive, exceto o estado. Tudo é então consumido em dois componentes, o homem e o estado, e o homem é a criatura do estado e não há transcendência em relação a ele.

Terceiro, o mal não está na natureza humana, que é tanto boa quanto pelo menos neutra, mas no ambiente. O homem é por isso maleável. O estado, pela reordenação do ambiente, será capaz de criar uma humanidade perfeita. "Pela mudança das instituições humanas, o ser humano em sei mesmo nascerá novamente." [10] A Redenção é, então, ato político, não fé religiosa, e o estatismo é feito necessário para o homem. Horace Mann sustentou que as escolas do estado eliminariam o crime, as favelas, as prisões, e todas as mazelas humanas; socialistas sustentam que as ações do estado alcançariam o mesmo propósito através de legislação político-econômica; os campeões de economia de bem-estar ou intervencionismo acreditam que projetos habitacionais acabarão com as favelas, pobreza e delinquência. Em cada forma dessa fé, o empirismo prevalece: medições externas e impressões governarão a mente e a natureza do homem, que é essencialmente passiva. Mesmo o racionalismo criativo de Kant é empírico nesse ponto: ele ergue-se sobre a prioridade da experiência empírica que conduz então para uma resposta criativa. Contra tudo isso, a Constituição dos Estados Unidos não foi escrita em termos de qualquer fé na bondade essencial do homem, um artigo da nova fé, mas em termos de freios e contrapesos, uma desconfiança no homem.

Quarto, os novos gerentes da sociedade devem ser cientistas, educadores, e políticos, os novos filósofos-reis, homens que agem em termos de ciência e educação "científica", teoria política, e economia. Esses, quer sejam chamados de planejadores, gerentes, servos civis, ou a ditadura do proletariado, são assumidos como habilitados para instituir controle eficaz e alterar a natureza humana através da ação estatal apropriada. Esta elite, agindo em termos de razão e ciência, pode refazer o homem e a sociedade. Ela é vista, não como um poder elitista, mas como objetiva e altruísta, e uma expressão da razão científica.

Quinto, é defendido por esses filósofos que o homem e a sociedade são basicamente seculares, não-teísta ou ateísta, antes de religioso. O Cristianismo, portanto, é algo, no máximo, periférico, antes de ser algo essencial para o homem, sociedade, e governo civil. A sociedade moderna é então não religiosa ou irreligiosa por princípio. 

Sexto, a supremacia da ciência é afirmada. Comte viu três estágios de pensamento; primeiro, o teológico ou fictício; segundo, o metafísico e abstrato; e terceiro, o pensamento científico ou positivo. A formulação de Comte afiou uma fé longamente desenvolvida. Mais importante, Comte, defendendo que o pensamento científico não está preocupado com as causas, ou significado, como meios para os resultados desejados, promoveu com isso o triunfo da metodologia sobre o significado. A partir disso, a metodologia é mais importante do que o conteúdo na educação científica. Há também, desde então, ausência extensiva de conteúdo de cientistas para com o significado de sua atividade; ciência é metodologia. Daí, novamente, o estabelecimento da democracia é visto como a cura de tudo para todas as culturas, desde que a metodologia refará o homem. A democracia é então aplicada aos estados Asiáticos, Africanos e Latino-americanos sem qualquer reserva para com suas condições históricas e culturais, porque é assumido que a forma ou método é criador de objetivos válidos. Este conceito governa as Nações Unidas e o Departamento de Estado dos EUA, bem como as atividades da Internacional Comunista. A metodologia é criadora e tem prioridade. A metodologia então impõe uma concepção radicalmente diferente de vida sobre o homem. A metodologia é tanto funcional como econômica. Ela está preocupada com a diminuição das distâncias entre dois pontos. Ela quer eliminar o que não parece ser essencial de uma perspectiva científica. A família e a propriedade privada são tanto não econômicas quanto não-funcionais neste sentido e precisam ser eliminadas. Bebês de proveta, ou hereditariedade controlada, devem ser então propostos como mais eficientes. Inclusive, tem sido sugerido que homens devem ser inabilitados desde o nascimento, com ataques, pela agência central de controle. Planejamento e controle total são conclusões inescapáveis dessa prioridade de metodologia. Então, também, é simplismo. Bark chamou atenção para uma das falhas centrais de Roma, a confusão entre "simplicidade e força, como se uma não pudesse existir sem a outra" [11] Essa fome romana por simplicidade foi superada no ideal científico de simplicidade em hipótese e método, um axioma religioso em essência. Este triunfo da metodologia foi erosivo para tudo, exceto o o poder do estado científico para controlar, refazer e governar absolutamente os homens.

A supremacia da ciência também significou a reinterpretação da vida em termos de categorias científicas. Isto aparece, como nós vimos, na aplicação do conceito matemático de igualdade aos homens. O termo "igualdade" refere-se a uma abstração, e, mais do que isso, a uma abstração de uma variedade particular, abstração quantitativa. Para aplicar esse termo, como a teoria política científica faz, para a variedade, a concretude e a riqueza da situação humana são ao mesmo tempo fazer uma radical injustiça e introduzir irrealismo e injustiça dentro da ordem política. Pode um homem ser igual a outro homem, a uma mulher, ou uma árvore igual a uma nuvem? A doutrina Bíblica não é igualdade (ou desigualdade), mas vocação, o que pressupõe a necessidade e valor das diferenças. Cada um tem seu lugar necessário e honra e dignidade em termos de vocação e de sua execução disso. A ideia de "uma ciência do homem" pressupõe a validade de abstrações e generalizações em conhecer e descrever o homem. A fé Bíblica define o homem em termos de imagem de Deus. O homem tem sua cabeça federal, seja em Adão ou em Cristo, mas, em qualquer caso, ele tem uma vasta variedade de diferentes e indescritíveis potencialidades de vocação que negam abstração. Há unidade tanto em Adão quanto em Cristo, mas nenhuma possível redução da Adão ou Cristo. A ciência do homem é então metodologia científica. A ideia moderna de democracia é baseada em parte na ciência como abstração ou redução.

Sétimo, devido ao fato dessa filosofia buscar refazer o homem, ela é hostil à ideia de punição. A punição assume duas coisas: primeiro, responsabilidade da parte dos criminosos, e, segundo, a limitação da autoridade do governo civil sobre um homem para um ato de crime específico e evidente e para uma específica, limitada e evidente punição disso. A ideia de crime como uma doença mental nega a limitação e coloca o homem totalmente nas mãos do estado. Como Lewis notou, a punição é


"... sempre finita: você poderia fazer tanto quanto ao criminoso e nada mais. Tratamento medicamentoso, por outro lado, não precisa ter limite fixado; ele poderia seguir até ter efetuado a cura, e aqueles que estavam ministrando isso poderiam decidir quando aquilo seria. E se a cura fosse compassiva e desejável, quanto mais a prevenção? Cedo, alguém que já tivesse caído alguma vez nas mãos da polícia em tudo seria colocada sobre... controle... no fim, todos os cidadãos." [12]

Oitavo, a Revolução Francesa era o começo da democracia em serviço militar, i.e., recrutamento moderno. Tal recrutamento começou como e é cada vez mais uma ferramenta política servindo a duas funções. Primeiro, ela habilita um estado para controlar a população mais efetivamente, bem como para ter uma oportunidade de doutrinação. Segundo, seu propósito é enfraquecer e quebrar tanto quanto possível o poder militar no estado. Em um exército profissional, o relacionamento entre oficiais e homens é próximo, e o oficial tanto conhece suas tropas quanto é hábil para julgar suas mentes, sua moral, e sua potencialidade. Ele está então em uma posição, quando o governo é fraco, de derrubar o governo, porque ele age em termos de uma presunção em seus homens. Um exército recrutado é um exército de estrangeiros, geralmente em vantagem com seus oficiais, incomparável a um exército profissional em força, mas mais seguro para o estado por causa dessas coisas. Recrutamento no estado moderno é então um instrumento pelo qual a liberdade dos cidadãos e dos militares é limitada e enfraquecida como um instrumento de controle.

Nono, nessa filosofia desenvolvida e em desenvolvimento, a política estrangeira predomina sobre a política interna. [13] As esperanças messiânicas da Revolução Francesa imediatamente envolvem-na em uma guerra contínua contra as nações. A Revolução Russa é não menos dedicada a essa fé messiânica, e os Estados Unidos, que em anos recentes sofreu uma segunda revolução, é igualmente seguro desse papel de salvador do mundo. O intervencionismo é tanto político quanto econômico, e intervencionismo econômico em casa anda historicamente de mãos dadas com a intervenção em negócios de poderes estrangeiros. Nada está mais claro, em uma leitura do Antigo Testamento, do que a hostilidade da fé Bíblica a essa prioridade de negócios estrangeiros e seu concomitante, o intervencionismo. A hostilidade de George Washington ao intervencionismo não precisa ser recontada, e a Doutrina Monroe era uma asseveração da imunidade da América contra o intervencionismo.

Décimo, a humanidade é o verdadeiro deus do Iluminismo e do pensamento da Revolução Francesa. Em todas as fés religiosas, um dos requerimentos inevitáveis do pensamento lógico assevera-se a si mesmo em uma demanda pela unidade da cabeça. Por isso, desde que a humanidade é deus, não pode existir divisão nessa cabeça, a humanidade. A raça humana precisa portanto ser forçada à unidade. Desde que a filosofia Iluminista é monística, isso significa uma intolerância das diferenças como essencial. Diferenças nacionais e culturais, em vez de serem dadas por Deus e possuidoras de riqueza e dignidade para serem respeitadas, devem ser obliteradas. O objetivo não é comunhão, mas uniformidade. Novamente, desde que a humanidade é deus, a matança de qualquer homem seja por crimes ou em contextos de guerra é uma ofensa. (A única matança permitida é possivelmente a execução "carinhosa" de George Bernard Shaw contra os inimigos do socialismo.) O pacifismo humanista é o resultado, e um mundo pró-unificação, as Nações Unidas, e a fé da paz-a-qualquer-preço. A cabeça precisa ser unificada. Essa fé encontra expressão na publicação 7277 do Departamento de Estado dos EUA, "Liberdade Contra a Guerra", de setembro de 1961. [14] Esta fé foi expressa no meio da guerra por Churchill e F. D. Roosevelt no Ponto 8 da Carta do Atlântico, e foi atribuído aos seus governos: "Eles acreditam que todas as nações do mundo, por razões tanto espirituais quanto realistas, precisam abandonar o uso da força." Mas a Escritura não considera o uso legítimo de força como um mal, mas antes como uma necessidade e um bem para ser usado para prevenir a ascensão e o triunfo do mal. A fé de Roosevelt requereu uma intervenção messiânica com uso da força ao mesmo tempo em que requereu a condenação de toda força! Por causa dessa coincidência entre pacifismo e intervencionismo messiânico, esta filosofia criou guerra mesmo onde os homens mais falaram sobre paz mundial. A própria ideia de Nações Unidas requer guerra, na medida em que ela insiste em coisas irreconciliáveis e contraditórias. Primeiro, ela insiste em unir o mundo e nivelar as diferenças. Qualquer pessoa com um mínimo senso de integridade precisa inevitavelmente resistir a esse nivelamento. Segundo, ela procurar criar um superestado que precisa coagir cada vez mais todos os estados, governos civis e indivíduos para a linha com seu sonho de poder messiânico. Terceiro, ela procura controlar a história e congelá-la em um molde particular nos termos do pensamento Iluminista. Inevitavelmente, esta fé é anti-Cristã, e um conflito com o Cristianismo é requisito para o seu ser.

Décimo primeiro, o Iluminismo, a Revolução Francesa, e os proponentes da ciência moderna vêem a natureza como eterna, infinita e abundante. Desde então, nesta tradição, como exemplificado hoje no Marxismo e nos estados de bem-estar social, o problema econômico é primeiramente e essencialmente de distribuição, não de produção. Acreditar em uma natureza criada é firmar-se em uma economia de escassez, a uma consciência das limitações da natureza e da necessidade de trabalho cuidadoso, i.e., produção, para desenvolver os meios limitados da natureza. A imensidão intocada não é, então, a terra da abundância, mas antes o reino da abundância é a civilização livre e desenvolvida, onde o trabalho e o capital do homem conduziram à produtividade e à medida de abundância cultivada.

Décimo segundo, como nós vimos, a Revolução Francesa destruiu as reminiscências de feudalismo e federalismo na França e reduziu todo o governo civil nas mãos do poder central e seus departamentos, enquanto a Revolução Americana foi um triunfo do localismo contra o centralismo, e da lei sobre a maioria.

Décimo terceiro, esta filosofia, por sua negação do Cristianismo, agiu rapidamente para a conclusão de que a realidade é basicamente impessoal. Daí, o conhecimento precisa ser abstrato e impessoal para ser verdadeiro, e a sociedade e o homem precisam ser similarmente impessoais. O ódio de Dewey contra a pessoalidade pressupõe sua visão da realidade. [15]

Décimo quarto, a escola do estado é a "igreja" estabelecida e mediadora da salvação para o homem, e crianças devem ser nutridas primeiramente para e pelo estado. [16]

Décimo quinto, como foi indicado, esta filosofia é hostil à posse da propriedade privada. Tal propriedade como permitida para a posse privada está sob o consentimento do estado e dos planejadores estatais. Não está implícito aqui apenas a prioridade do estado aos cidadãos, mas também o ódio contra a pessoalidade em termos de uma concepção impessoal da realidade última. Mais do que isso, o controle social do homem, engenharia humana, cria guaridas de imunidade para controlar os ofensivos. Jeremy Behtham, um inglês liberal e totalitário, queria um modelo de prisão em que "um homem seria capaz de ver os menores movimentos de mil prisioneiros o tempo inteiro, e de controlar suas ações a cada minuto." [17] Este é cada vez mais o sonho da razão para todos os homens.

Estas questões foram apontadas muito cedo por Burke em seu Thoughts on French Affairs, de dezembro de 1791. De acordo com Burke, a Reforma efetuou uma revolução na Europa através da introdução de questões supra-nacionais e transcendentais em cada localidade, e com isso a Europa tornou-se um sistema de ordens civis cristãs. a Revolução Francesa introduziu o majoritarismo e a soberania total. Entre esta Revolução e a Europa Cristã, nenhuma paz é possível. Em suas quatro "Cartas sobre uma Paz Regicida" alguns poucos anos depois, ele declarou que, o que quer que a paz estratégica possa ser em qualquer tempo, o Jacobinismo era uma guerra civil contra a Europa e contra a comunidade Cristã, e estava determinada a uma incessante guerra contra o Cristianismo, e sua "total extirpação." Tanto a Revolução Francesa quanto sua filosofia precisam ser destruídos, ou o Cristianismo na Europa deixará de existir, porque, "em um mundo, com uma república nada independente pode coexistir." [18]

O tempo não fez aquele conflito mais reconciliável. Ele tem, contudo, visto o enfraquecimento da Revolução Americana, que Burke viu como tão importante para a causa da liberdade. Historiadores estão inclinados a ver a Revolução Americana em termos de Iluminismo, e a ação política hoje está extensivamente influenciada pelos pressupostos dos conceitos revolucionários Franceses. Mas, desde o Manifesto Comunista, o Marxismo e a Internacional Comunista expressam melhor o Iluminismo e a Revolução Francesa do que os Estados Unidos, e a competição entre os dois trabalhará para a vantagem do sistema mais consistente.

A situação confusa, com seus conflitos pressuposicionais, dificilmente chegou ao seu ápice. Inclusive, existem aqueles que falaram da Revolução Francesa como Cristã ou Puritana por natureza! Então, Brinton vê os valores da Revolução Francesa como "majoritariamente do Cristianismo tradicional, e especialmente do Cristianismo Protestante, virtudes," e, mais especificamente, como "Puritana." [19] Mas sua definição de Puritanismo é precisamente o moralismo contra o qual a Reforma e o Puritanismo travaram guerra, e que John Cotton, em Apocalipse 13, viu como a marca da besta. Falhar em entender o que o Cristianismo é conduzirá logicamente à falha no entendimento dessa antítese.

(Artigo extraído de "This Independent Republic", de Rushdoony. Págs. 123-133)

1. Peter F. Drucker, The Future od Industrial Man (New York: John Day, 1942), 219, 222f. Marxistas também com uma ênfase diferente, visam o aspecto contra-revolucionário, mas viram-no como uma conspiração de alguns homens contra a Revolução Americana e seus soldados. De acordo com um Americano, "Que a Constituição e o Governo dos Estados Unidos foram estabelecidos não através de Revolução, mas através de Contra-Revolução, poderia ser visto pelo tipo de governo que foi estabelecido sob Washignton e Adams," Albert Weisbord, The Conquest of Power, Liberalism Anarchism, Syndicalism, Socialism, Fascism and Communism, vol. 1 (New York: Covici Friede, 1937), 75. Contra isso, o todo da hsitória colonial Americana, culminando na rebelião e os Estados Unidos, é claramente uma contra-revolução conservadora contra a direção da história Inglesa e Europeia. E, como Clinton Rossiter observou, "A Constituição foi o triunfo do Conservadorismo, mas não por reação," Conservatism in America, The Thankless Persuasion, second edition revised (New York: Vintage, 1962), 104.
2. Ibid., 224. Carl Bridenbaugh, em contraste, tenta ver a Revolução como um produto do Iluminismo em Cities in Revolt, Urban Life in America, 1773-1776 (New York: Alfred A. Knopf, 1955), 425.
3. James C. Marlin, On The Nature of History, Essays about Historu and Dissidence (Ann Arbor, Mich.: J.W. Edwards, 1954), 30f.
4. Friedrich Gentz, translated by John Quincy Adams, "The French and American Revolutions Compared," in S. T. Possony, Three Revolutions (Chicago: Regnery, 1959).
5. Albert Bushnell Hart, American History Told by Contemporaris, vol. III (New YorkL Macmillan, 1897), 319-321. Contra isso, um dos mais conservadores da colônica da Nova Inglaterra era, curiosamente, favorável à visão da Revolução Francesa como uma explosão para o despotismo; veja Edmund S. Morgan, The Gentle Puritan, A Life of Ezra Stiles, 1727-1795 (New Haven, Ct.: Yale University Press, 1962), 455-461. Em 4 de setembro de 1823, Jefferson escreveu para Adams em favor da revolução mundial, vendo seus resultados como "dignos rios de sangue e anos de desolação," The Adams-Jefferson Letters, The Complete Correspondence Between Thomas Jefferson and Abigail and John Adams, vol. II, (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1959), 596.
6. See Una Birch, Secret Societies and the French Revolution (London: John Lane, 1911), 3-63; and Nesta H. Webster, The French Revolucion, A Study in Democracy (London: Constable, 1921).
7. Shelby T. MacCloy, Government Assistance in Eighteenth-Century France (Durham, N.C.: Duke University Press, 1946), 276.
8. W. K. Jordan, Philantropy in England, 1480-1660, A Study of the Changing Pattern of English Social Aspirations (London: George, Allen and Unwin, 1959), 240.
9. Pieter Geyl, Use and Abuse of History (New Haven, Ct.: Yale University, Press, 1955), 22. A consequência é uma estudada ausência de raízes fomentada pela educação. Por causa dessa ausência de raízes, "Os estratos educados da sociedade sào mais ingênuos do que os menos educados. Os mais entusiasmados defensores do Marxismo, Nazismo, e Fascismo eram intelectuais, não os pobres," Ludwig von Mises, Bureaucracy (New Haven, Ct.: Yale University Press, 1946), 108.
10. Louis I. Bredvold, The Brave New World of the Enlightenment (Ann Arbor, Mich.: The University of Michigan Press, 1961), 112. Para uma perspectiva tcheca sobre essa expectativa, veja Jan Michalko em "The Church in a Socialist Society," Dialogue 2, no. 3 (Summer 1963), 224-231. Michalko acredita que a igreja deve não apenas coexistir mas também cooperar com o socialismo enquanto manté um "diálogo."
11. William Carroll Bark, Origins of the Medieval World (Garden City, N.Y.: Doubleday Anchor Books, 1960), 144.
12. C. S. Lewis, The Hideous Strength, A Modern Fairy-Tale for Grown-Ups (New York: Collier Books, 1962), 69.
13. See James W. Wiggins and Helmut Schoeck, eds., Foreign Aid Reexamined (Washignton D.C.: Public Affairs Press, 1958); J. Fred Rippy, Globe and Hemisphere (Chicago: Regnery, 1958).
14. Reprinted, with introductory comments by Dr. Robert Morris, in No Army, No Navy, No Air Force (New York: Bookmailer, 1962). Um ponto de vista com alguma similaridade é defendido em The Liberal Papers, James Roosevelt, editor (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1962). Nesses papeis, o armamento é visto como o grande problema e a paz como o objetivo, uma paz que é apenas a abolição da guerra, não uma ordem justa com uma paz Divina. Além disso, desprovidos de absolutos, os autores falham em ver diferenças irreconciliáveis entre homens e nações, mas apenas relativos que podem ser levados como ajuda ao inimigo. See M. Stanton Evans, with Allan H. Ryskind and William Schulz, The Fringe on Top (New York: American Features, 1962), 204-207.
15. See Rushdoony, The Messianic Character of American Education (Nutley, N.J.: The Craig Press, 1963).
16. Ibid.; see also Rushdoony, Intellectual Schizophrenia: Culture, Crisis, and Education (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1961).
17. Drucker, 230.
18. Ross J. S. Hoffman and Paul Levack, eds., Burke's Politics, Selected Writtings and Speeches of Edmund Burke, on Reform Revolution, and War (New York: Alfred A. Knopf, 1949), 473.
19. Clarence Crane Brinton, The Jacobins, An Essay on the New History (New York: Russel and Russel, 1961), 175. 180.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.

4 comentários:

  1. Parabéns por ter traduzido esse artigo excelente!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Parabéns pelo projeto. Excelente tradução. Meus cumprimentos.

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