sábado, 10 de julho de 2021

BAHNSEN: KUYPER, WARFIELD E VAN TIL




O Vantilianismo deve ser compreendido, dentre outros aspectos, com a noção de que sua obra é também uma tentativa de resolver o problema por trás da rivalidade entre Amsterdã (Abraham Kuyper) e Princeton (Benjamin B. Warfield). Cornelius Van Til estava familiarizado com as controvérsias teológicas de seu tempo. Ele havia estudado as obras de Kuyper antes mesmo de ir ao Seminário na língua original e manteve contato com os teólogos de Princeton, estando consciente das desavenças entre as duas escolas.


Warfield criticava Kuyper pelo que parecia ser um desdém deste pela apologética, pela ênfase ao papel do Espírito Santo na conversão. Para Benjamin, o fato de a fé vir pela Regeneração não exclui a racionalidade da fé: nós cremos em Cristo porque é racional crer. A fé seria uma forma de convicção necessariamente embasada em evidências. As evidências têm uma participação na conversão da alma, e uma participação que não é pequena e nem defensiva. A apologética, que seria na verdade uma "organização sistemática de evidências", não seria apenas um escudo para que cristãos protejam-se da chateação do mundo, mas uma parte primária e conquistadora para a cristianização do mundo. O cristianismo apela para a razão de forma exclusiva, como a "religião apologética".


O que Kuyper enfatizava era que a conversão era também uma conversão na disposição da mente humana. O convertido tem uma mente diferente da mente do "homem natural", o que significa realmente que ambos produzem duas ciências distintas. Duas diferentes teorias de conhecimento: de um lado, a ciência do princípio natural, do homem não-regenerado vendo tudo de uma perspectiva "natural" (e caída); e do outro a ciência do princípio sobrenatural, do homem regenerado vendo tudo de uma perspectiva sobrenatural.


Em resposta a isso, Warfield diria que o problema não é tanto de "tipo" de ciência, mas de performance. Se para o teólogo de Amsterdã o homem não-regenerado é afetado em todo seu labor científico, para o teólogo de Princeton o não-cristão produz ciência imperfeita, mas ciência verdadeira, contribuindo para a consciência humana geral ao abstrair a ciência.


Para Kuyper, todo ser humano conduz seu pensamento em relação a um princípio último, uma pressuposição básica, que, no pensamento não-cristão, é um princípio natural, pelo qual todas as coisas são interpretadas em termos do homem natural, enquanto a totalidade do pensamento do cristão genuíno é baseado em Cristo como autoridade última, razão pela qual os cristãos têm uma teoria do conhecimento própria e uma cosmovisão distinta daquela do não-cristão. A perspectiva da primeira nega a perspectiva da segunda. A sabotagem do cristianismo nas universidades é a prova disso. Os cientistas e humanistas negam qualquer trabalho com pressuposições cristãs como não sendo científicos, objetivos. Se os cristãos não usam as pressuposições não-cristãs, se os trabalhos científicos não são feitos sob uma perspectiva especificamente "naturalista", eles sequer recebem o nome de "científicos". As universidades do mundo consideram impossível assumir como verdade as verdades do Evangelho. Mas se esse é o caso, como seria possível uma apologética se os compromissos intelectuais do cristão e do não-cristão são tão radicalmente antitéticos? Para Kuyper, não seria.


Tal era a controvérsia nos dias de Van Til e é incorreto concluir que esse holandês colocou-se ao lado de Kuyper contra Warfield ou que colocou-se ao lado do teólogo de Princeton contra o teólogo de Amsterdã. Para Greg Bahnsen, é somente quando alguém compreende com o que Cornelius concordava e com o que discordava de ambos que alguém pode vislumbrar a originalidade e grandiosidade do pensamento de Van Til. A abordagem do dr. Bahnsen procura esclarecer o método daquele holandês à luz do debate entre aqueles dois teólogos, tão importantes.


Para Cornelius Van Til, a conclusão que Kuyper tirou de seu insight inicial a respeito da diferença de "tipo" entre as ciências cristã e não-cristã, das diferentes cosmovisões, não combina com outras verdades bíblicas. O não-cristão tenta seguir o princípio naturalista de forma consistente, mas, segundo Van Til, tal empreitada é impossível na prática. O não-cristão não pode fugir do poder de persuasão da Revelação de Deus na Criação e da lei de Deus em si mesmo. É a Graça Comum que impede o não-cristão de obliterar o testemunho de Deus dentro e fora de si. O incrédulo conduz sua vida e seu raciocínio em termos da Revelação de Deus, mesmo que verbalmente negue-a e convença a si mesmo que ela não existe. Não apenas o apologista pode argumentar racionalmente contra a filosofia esposada pelo não-cristão (contingência), quanto pode-se esperar que não-cristão seja capaz de compreender a inadequação de sua interpretação da realidade através dos argumentos apologéticos. O Cristianismo, portanto, deve ser apresentado como Verdade objetiva e pública comprovada para todos. Não há apenas uma atitude anti-ética do não-cristão, mas uma falha intelectual injustificável. 


Van Til publicou textos onde negou explicitamente a conclusão de Kuyper, já que Warfield estava certo em defender o Cristianismo como objetivamente defensável e que o homem natural tem a habilidade de compreender intelectualmente, embora não espiritualmente, o desafio apresentado para ele. E é imperativo que esse desafio seja apresentado para o incrédulo - pois do contrário não haverá desafio nenhum -, que por seu princípio (descrente) ele destruirá toda e qualquer verdade e significado. Daí, pela ação do Espírito Santo ele será trazido para o princípio cristão que ele se esforça em destruir. A apologética deve desafiar o não-cristão a abandonar seu princípio último, sua autonomia epistemológica, porque esse é o caminho da destruição da racionalidade.


Mas, como dito, é incorreto entender, por isso, que Van Til se colocou ao lado de B.B. Warfield contra Abraham Kuyper. Para o teólogo de Princeton, a apologética lançaria a fundação na qual a teologia sistemática funciona. Esse sistema precisaria ser fincado na realidade, de forma que a Escritura não seria a pedra fundamental na qual o acadêmico cristão deve proceder. A inspiração das Escrituras seria a última convicção à qual o cristão chegaria depois de fundamentar-se na "reta razão". Antes de termos teologia sistemática, a "reta razão" autenticaria a veracidade das Escrituras, para, então, dentro das Escrituras, nós sistematizarmos os resultados de nossas pesquisas. Para Warfield, portanto, (1) essa perspectiva deve ser anterior ao compromisso com as Escrituras e (2) deve estar de acordo com a "reta razão", i.e., deve ser autônoma (sem referência à fé), como se a ciência fosse um campo comum de interpretação do cristão e do não-cristão. O apologista, por isso, deveria começar a partir do campo neutro da "reta razão", abstrata e comum ao cristão e ao não-cristão, onde Cristo não é a autoridade final, para ser conduzido finalmente às Escrituras e à teologia sistemática, onde Cristo seria a autoridade final. Para Warfield seria possível começar com uma filosofia em que Cristo não é a autoridade última para chegar à teologia onde Cristo é a autoridade última. 


Para Van Til, essa conclusão é esquizofrênica: se Cristo é a autoridade última, Ele não precisa ser autorizado pela autoridade última da "reta razão", que não O pressupõe como autoridade maior. Se a "reta razão" tem a prerrogativa de autorizar Cristo, então ela sempre será última, tomando o lugar de Cristo. Todo ensino cristão e bíblico teria que ser julgado pela "reta razão", precisaria satisfazer a "reta razão", o que nega flagrantemente a natureza da Palavra de Deus como fonte de ensino para o ser humano, em si. Você não pode começar com o princípio de que a razão humana (neutra e autônoma) é última para concluir com um princípio diferente em que Cristo é a autoridade última. A visão de razão neutra, autônoma e hábil para o conhecimento de Cristo como autoridade final ignora as afirmações bíblicas de que o ser humano abusa de seus próprios raciocínios, vãos, e que julga tudo o que vem do Espírito de Deus como loucura e tolice. O homem natural odeia o conhecimento de Deus. Para Greg Bahnsen, a conclusão de Benjamin conduz a uma teologia ruim, onde o homem é a autoridade final, e a uma apologética ruim, onde a abordagem do não-cristão não pode receber objeção.



A RESPOSTA DE VAN TIL







Cornelius Van Til aceita as duas proposições iniciais, de Kuyper e Warfield, e rejeita as conclusões que ambos fizeram, simultaneamente. Há duas ciências, mas é impossível negar a objetividade da Revelação de Deus. A ciência do incrédulo será sempre inconsistente e condenada ao irracionalismo e ao ceticismo. Negar a Revelação de Deus é irracional e o efeito dessa negação produz a ciência do homem natural não-regenerado, que é distinta da ciência do homem-regenerado, porque tem um princípio último diferente, que rouba o lugar de Cristo. A cosmovisão do não-cristão não é racional; o "homem natural" não possui uma "reta razão" como Warfield supõe, porque ele não é capaz de "reta razão" por não ter o princípio correto. O princípio apologético do teólogo de Princeton não está, aos olhos do holandês, em conformidade com sua própria teologia reformada. Van Til afirma que, felizmente, Warfield foi muitas vezes inconsistente, porque diversas vezes ele demonstrou que a ideia de autonomia conduz à destruição da experiência humana, apelando ao que Kuyper fazia, ou seja, apelando ao senso da divindade no ser humano, que está pronto para abrir-se para o princípio cristão, rejeitando finalmente a autonomia. Kuyper também teria sido inconsistente por negar aspectos da apologética que ele mesmo ocasionalmente usou. O teólogo de Amsterdã reforçava a relação entre a autonomia e a oposição à manifestação da Verdade de Deus, mas lembrava que nenhum homem é um "produto acabado", sendo possuidor de um senso da divindade, como um verdadeiro recipiente da Graça de Deus, pronto para receber a apresentação do princípio cristão.


Van Til reconhecia em Kuyper o insight de sua análise da ideia de autonomia em Warfield, a sua insistência de que o Cristianismo é o único sistema inteligível. Por ser indubitavelmente verdadeiro, o sistema cristão pode ser distinguido intelectualmente pelo homem porque foi distinguido para ele por Deus através da Palavra. E sem pressupor essa verdade, não há teologia, filosofia e ciência que possam encontrar significado na experiência humana.


Para Bansen, finalmente, se o doutor Cornelius Van Til não é "O" grande reformador da apologética, ele merece sem dúvida ser colocado entre os responsáveis por isso.

Nota:
Este texto é uma livre adaptação de uma aula de Greg Bahnsen. Parte de seu conteúdo pode ser visto também em seu livro póstumo "Pressupositionalist Apologetics Stated and Defended" e em "A Christian Theory of Knowledge", de Cornelius Van Til.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Nancy Pearcey: Cristianismo e a gênese da ciência.



Para Collin Russell, citado por Pearcey e Charles B. Thaxton (em "A Alma da Ciência"), o mito da hostilidade entre fé cristã e ciência é de criação relativamente recente. Foi na Inglaterra do final do séc. XIX que grupos se organizaram sob a liderança de Thomas H. Huxley com o propósito de acabar com a hegemonia cultural do Cristianismo, substituindo-o pelo naturalismo científico. Huxley sabia estar apenas substituindo uma religião por outra, pois era explícito seu desejo de criar uma "igreja científica".


"As obras mais venenosas vieram de John William Draper (1811-1882) e Andrew Dickson White (1832-1918) - obras estas consideradas pela maioria dos historiadores de hoje como sendo seriamente distorcidas por causa dos propósitos polêmicos dos dois autores."


O desprezo pelo mundo medieval, que tem importância capital nessa narrativa anti-cristã da história da ciência, começou a ser reabilitado pelo físico e filósofo francês Pierre Duhem, que concluiria em sua obra que as raízes da ciência moderna estavam no alicerce construído na Idade Média.


A NATUREZA DA NATUREZA


Em certo sentido, houve civilizações mais grandiosas do que a Cristandade medieval. O Egito e a Babilônia contruíram obras arquitetônicas memoráveis, por exemplo. A China rumava a consolidação de seu vasto império. E mesmo os árabes possuíam naquele momento uma civilização rival à cristã medieval em vários aspectos. 


Pearcey e os historiadores da ciência, então, perguntam-se qual teria sido a razão para que a ciência tivesse surgido na Europa Ocidental e não nessas outras culturas. 


O Ocidente está hoje tão arraigado de positivismo que trata como conhecimento certo que a ciência moderna seja o desenvolvimento "natural" de qualquer sociedade humana, quando não há absolutamente nenhuma evidência que corrobore essa tese. Antes, a singularidade da Cristandade forneceu uma soma de pressuspostos únicos que tornaram o labor científico possível e até incentivado.


"Toda investigação científica depende de certos pressupostos acerca do mundo - e a existência da ciência é impossível até que esses pressupostos estejam devidamente organizados. Conforme argumenta Foster, foi necessário que os pensadores ocidentais conferissem à natureza o caráter e os atributos que a tornaram um objeto possível do estudo científico antes da instituição da ciência em si. Como diz Whitehead, 'a fé na possibilidade da ciência' precedeu o desenvolvimento da teoria científica propriamente dita." 


Foi preciso que os cristãos, em suas reflexões filosóficas em diálogo com filósofos vindos do paganismo acerca da realidade criada por Deus, desenvolvessem conceitos distintivamente cristãos da realidade. Foi preciso que os cristãos medievais pensassem sobre qual é a "natureza da Natureza", em perspectiva de suas meditações sobre qual é a natureza de Deus e do ser humano.


1. A natureza é real. 


Enquanto hinduístas atribuem a realidade à ilusão de Maya e outros monistas atribuem a diversidade dos fenômenos à manifestações do Absoluto, o cristianismo tem a Criação como um objeto real que poderia ser estudada.


2. A Criação é Boa.


Em Gêneses 2, Deus olhou sua Criação e disse que era "boa". Uma parte considerável dos gregos, por outro lado, acreditavam que o mundo material era ligado "ao mal e à desordem". Mesmo o trabalho manual na Grécia era uma atividade relegada aos escravos. Para budistas, a vida é sofrimento, razão pela qual o budista não deveria perder tempo com os interesses dos cientistas, buscando atingir o Nirvana, abandonando o ciclo do sofrimento. A atitude do judaísmo e do cristianismo, por outro lado, é a de gerência da realidade criada, vendo a humanidade como mordoma da obra de Deus. E especialmente a Reforma Protestante desenvolveu conceitos de vocação (mesmo fora da esfera explicitamente religiosa) e ética de trabalho.


3. Deus e sua Criação não se confundem.


Diferentemente das crenças de religiões animistas e panteístas, o Deus cristão não se manifesta através nem se confunde com aquilo que Ele criou. Ele é absolutamente transcendente, mantendo sua singularidade mesmo quando decide revelar-se ao ser humano. Os cristãos podem reconhecer sua Existência nas coisas criadas através de seus efeitos, tão somente. Em algumas religiões pagãs, o sol, a lua, os planetas e outras coisas criadas são deuses em si. O cristianismo pôde revogar o 'status religioso' da natureza, "desdeificando-a", eliminando um empecilho na atitude em relação a ela. 


4. A Natureza e o Caráter do Criador.


Diferentemente dos pagãos, o Deus cristão possui algumas características que foram essenciais para que o ser humano pensasse a Criação como consequência de seu caráter.


Primeiro, como já dito, Deus é transcendente, não se confundindo com sua Obra. 


Segundo, esse Deus tem uma natureza e um caráter constante. Sendo eterno, Ele não muda de opinião e não tem contradições em si. Por isso ser verdade, o cristão entende a Criação como tendo unidade e coerência. Não há uma luta entre deuses rivais, como entre os deuses gregos e os titãs. O monoteísmo foi uma pressuposição essencial para o desenvolvimento da ciência. Foi a constância de Deus e de seu caráter que pôde-se desenvolver o conceito de "leis eternas" que extrapolavam o aspecto meramente moral, conferindo ordem ao universo mesmo diante de sua diversidade. Os cientistas cristãos buscavam a ordem unificada em fenômenos distintos.


"Os primeiros cientistas não argumentavam que o mundo era ordenado por leis e que, portanto, devia existir um Deus racional. Antes, sua argumentação era que havia um Deus e, portanto, a ordem do mundo devia ser determinada por leis."


Essa ordem na natureza, com todos os fenômenos naturais aparentemente caóticos e muitas vezes assustadores, foi algo revolucionário.


5. Uma Criação fixa e proporcional.


Não apenas a Criação é ordenada por leis, aos olhos cristãos, mas essas leis poderiam ser exprimidas matematicamente. O Deus bíblico criou o universo 'ex nihilo', tendo controle absoluto sobre ele. Para Platão, por outro lado, o criador seria um demiurgo que introduziu as Formas em unidades do mundo material e caótico; a existência tanto das formas quanto da matéria seria independente do demiurgo, estando, portanto, além de seu poder. Por causa da natureza da matéria do ponto de vista platônico, o caos resistiria à ordem e eternidade das formas, sendo, portanto, uma criação imperfeita.


6. Conhecimento humano.


Finalmente, a natureza da Natureza não serviria à ciência caso o ser humano não fosse capaz de apreendê-la. Ou seja, é necessário acreditar que a razão humana é capaz de atingir determinadas verdades sobre a realidade. Essa epistemologia e essa antropologia seriam possíveis por ser Deus um Ser Racional e por ter dado ao ser humano, sua Imagem, o atributo da racionalidade. Foi essa pressuposição que deu ao ser humano o impulso prático de investigação da realidade. Não apenas o mundo é ordenado e constante, mas nós, que somos Imago Dei, podemos conhecê-lo.

[Nota: Este texto é um resumo do primeiro capítulo de "A Alma da Ciência" de Nancy Pearcey e Charles B. Thaxton. Decidi omitir algumas reflexões sobre tomismo e scottismo para que não se torne de difícil compreensão.]

quinta-feira, 10 de junho de 2021

HERMAN DOOYEWEERD: HISTÓRIA DO PENSAMENTO OCIDENTAL




Na interpretação da história do pensamento de Herman Dooyeweerd, a história do Ocidente é marcada por quatro manifestações distintas. Primeiro, na Grécia, o motivo Forma-Matéria, o motivo bíblico Criação-Queda-Redenção, o motivo Escolástico Graça-Natureza e o motivo moderno Liberdade-Natureza.

Para Dooyeweerd, o motivo bíblico é diferente dos demais motivos por possuir uma unidade interna. No cristianismo, não se pode falar de Criação sem falar de Queda e sem falar também de Redenção. Van Til acrescentaria, sem conflito com Dooyeweerd nesse ponto específico, que o motivo bíblico também soluciona o problema dos motivos pagãos ao conciliar história e eternidade, sem confundi-los.

Os demais motivos, por outro lado, possuem um conflito interno inerente. Para o holandês, o motivo da filosofia grega nasceu do antigo conflito das duas religiões gregas: as antigas religiões da natureza e a "nova" religião cultural grega.

Os titãs, na mitologia grega, seriam uma representação idólatra das religiões que cultuavam forças inanimadas. A Mãe-Terra, Gaia, era mãe de todos os titãs. Mas a "natureza" era vista como um lugar hostil. Com o Pecado de Adão e Eva, a natureza tornou-se o lugar dos espinhos, das tempestades, do caos, das feras selvagens. Na mitologia, por isso, nasceram os deuses do Olimpo, que lutavam contra os titãs. Os deuses dessa nova religião cultural eram deuses da ordem, que continham os titãs, que dominavam a natureza e forneciam estabilidade e glória. Esse conflito inerente na mente primitiva dos gregos daria origem ao motivo dos filósofos gregos, forma-matéria, ou seja, uma luta entre coisas eternas e o caos, a mudança. Esse conflito está na raiz mesma do pensamento grego e é insolúvel. Trata-se de um conflito básico, que dá origem a todo o pensamento grego.

O motivo bíblico encontrou seu lugar, segundo o holandês, principalmente com Agostinho, mesmo que Dooyeweerd entenda que Agostinho não se livrou totalmente do motivo grego. Mas, em sua análise da história do pensamento, o holandês vê que a apostasia cultural cristã deu-se na Baixa Idade Média, quando a introdução de Aristóteles trouxe os motivos-básicos da religião grega para dentro da Cristandade.

É dito que Tomás de Aquino "sintetizou" o pensamento de Aristóteles e as Doutrinas Cristãs. Isso só foi possível porque assumiu-se que a filosofia de Aristóteles era em grande medida "religiosamente neutra". Aquino entendeu que a epistemologia aristotélica tinha a ver com aquilo que Paulo falou em Romanos 1 e 2. E talvez a maior contribuição de Dooyeweerd seja precisamente demonstrar a impossibilidade de existir neutralidade em qualquer pensamento humano. Isso se deve ao fato de o homem ser um ser religioso; a redução do ser humano a um ser racional, em si, se deve a pressupostos religiosos que ignoram premissas bíblicas. O ser humano é racional, mas é mais do que isso. Ele é religioso. Todo o seu pensamento racional é submetido a alguma forma religiosa, que lida com os aspectos religiosos do pensamento, tal como o Absoluto, a Soberania, a Infalibilidade, etc.

Com a introdução de Aristóteles, o motivo Graça-Natureza (que já existia em menor medida na Alta Idade Média) consolidou-se. Mas assim como no pensamento grego, esse motivo diz respeito a duas forças pré-teóricas que têm um conflito interno insolúvel. 

O conflito interno desses motivos duais não se revela em toda a sua força no início. Apenas com o desenrolar do pensamento teórico é que esse conflito vai se tornando mais e mais consciente. Aquilo que parece ter um equilíbrio vai mostrando cada vez mais e mais disparidade.

É por isso que Dooyeweerd tem uma visão de Guilherme de Occam que é distinta da visão dos tomistas. Para ele, Occam apenas revelou a incompatibilidade interna do motivo Graça-Natureza. E quando esse dualismo finalmente explodiu, ele deu origem a duas forças antitéticas: a Reforma Protestante, do lado da Graça; e a Modernidade, do lado da Natureza, agora com um novo dualismo interno, o motivo Liberdade-Natureza.

Esta é a razão pela qual eu procuro demonstrar (como o leitor pode averiguar em outras publicações deste blog), com amplitude de fontes, que a Reforma Protestante é a pior inimiga do Humanismo e é anti-moderna em essência, razão pela qual as interpretações da modernidade que apontam a Reforma como sua causa são falsas, embora haja vários aspectos a serem considerados.

[Nota: Herman Dooyeweerd afirma que o motivo escolástico medieval Graça-Natureza retornou ao mundo protestante rapidamente, no Escolasticismo Protestante.]

Groen van Prinsterer percebeu que a causa primeira da Revolução Francesa foi um "conceito ateísta de liberdade". Ao mesmo tempo, como reconhece "Leo Strauss", as revoluções modernas apelaram a visões de "natureza" para libertar-se dos "laços da religião". Sumarizando toda essa interpretação é que Francis Schaeffer pôde afirmar: "a Natureza engoliu a Graça". 

[Nota: precisamos destacar que o motivo "natureza" na modernidade é diferente do motivo "natureza" dos escolásticos, mesmo que sejam interligados.]

O motivo moderno, então, unindo o conceito ateísta de liberdade da personalidade humana identificado por Prinsterer e as revoluções baseadas em formas de lei natural (Strauss), estavam presentes na filosofia moderna desde René Descartes. Contudo, esse motivo não mostrou sua luta interna em toda a sua plenitude desde o início.

Como requer um período de amadurecimento, demorou algum tempo até que a Liberdade e a Natureza entrassem em conflito explícito.

Esse conflito já está maduro na nossa cultura desde o século XX. O motivo básico Liberdade amadureceu na forma do Existencialismo de Sartre. O Existencialismo nega toda e qualquer limitação para a liberdade, ao ponto de negar a existência de uma natureza humana. A ideologia de gênero é um efeito dessa liberdade absoluta buscada pela modernidade. Você é livre até mesmo para negar suas verdades biológicas. Percebam o conflito: liberdade versus biologia, i.e., liberdade versus natureza.

Ao mesmo tempo, a modernidade deu fruto a uma visão completamente contrária à existencialista. O behaviorismo, também chamado de "comportamentalismo", nega que exista "liberdade" no ser humano. Somos apenas máquinas biológicas agindo conforme as inclinações de nossas naturezas e de nossos genes. Esse aspecto embasa todas as formas de controle social e de engenharia social. Mas ele também pode revelar um argumento que impulsiona a liberdade que ela mesmo elimina.

Como Rushdoony explica, o Marquês de Sade não era apenas um romancista; era de certa forma um pensador. De Sade colocou os desejos humanos contra a moral cristã. Se nossa natureza tem certos desejos, eles são normais. A moral cristã, então, seria uma alienígena, uma imposição anti-natural. E o mesmo movimento homossexual que nega a natureza biológica utilizará esse argumento contra o Cristianismo. Eles mesmos dizem: homossexualidade é natural, existe até entre os animais (irracionais). Tanto a liberdade moderna choca-se com o Cristianismo quanto a "natureza" dos modernos choca-se com o cristianismo, mas, ainda, a liberdade moderna choca-se com a própria natureza moderna.

Essa contradição do pensamento moderno é inerente. Ela já existe na raiz mesma do pensamento moderno e só produzirá conflito. A diferença é que a pós-modernidade amadureceu o conflito.

terça-feira, 8 de junho de 2021

APOLOGÉTICA CLÁSSICA x APOLOGÉTICA VANTILIANA


 
[Nota: Este texto é uma adaptação livre da argumentação de James H. Anderson, com acréscimos e ênfases meus.]

Vantilianos entendem que há uma diferença fundamental entre (1) conhecer a existência de Deus e (2) demonstrar a existência de Deus. A demonstração da existência de Deus (2) é a preocupação dos apologetas. É aqui que a diferença entre a apologética vantiliana e a apologética clássica se torna mais clara.

Tomistas, conforme veem os vantilianos, tendem a opor (1) e (2) em alguma medida. Para aqueles, uma coisa é a prioridade ontológica de Deus e outra é a prioridade sensorial no conhecimento. Parafrasearei aqui uma ilustração do Dr. Howe, tomista, porque ela é muito boa.

- Imagine o mapa do Brasil e o caminho que leva à cidade fictícia de São Bernardo das Canetas. A cidade de São Bernardo precisa existir antes que exista um mapa que mostre o caminho àquela cidade, e para encontrá-la, nós precisamos antes de um mapa. 

Deus existe antes do conhecimento que o ser humano pode ter de Deus. A forma como conhecemos a existência de Deus não tem nada a ver com a prioridade ontológica de Deus, porque Ele criou o mundo. Destarte, a nossa epistemologia, o caminho pelo qual nós acabamos conhecendo a Deus não quer dizer nada sobre a prioridade metafísica de Deus. 

O tomista portanto entende que, para conhecer a existência de Deus, nós não podemos "começar" com Deus em si. Nós devemos começar pelos sentidos e pela razão. Pequena confusão ocorre em decorrência da equivocidade dos termos. O que um sistema de pensamento chama de racional pode ser diferente do que outro sistema de pensamento chama pelo mesmo nome. Clark, por exemplo, diria que Tomás tem uma pitada de empirismo, o que chocaria um tomista. Contudo, ele não quer dizer que Tomás é um empirista no sentido moderno. Clark reconhecia duas fontes na epistemologia tomista [v. "Três Tipos de Filosofia Religiosa"]. É talvez seguro dizer que no tomismo o conhecimento começa pelos sentidos [v. Etienne Gilson]. Essa é a razão própria do argumento do Motor Imóvel. Começando pelos sentidos, sem qualquer referência à Revelação especial de Deus, seria possível concluir a existência d'Ele. Em suma, Deus é anterior ontologicamente, mas posterior epistemologicamente. Deus existe antes do nosso conhecimento de Deus, mas Deus não existe no começo do nosso conhecimento. Da mesma forma como na figura do Dr. Howe, São Bernardo das Canetas só é descoberta no fim da estrada que trilhamos seguindo o mapa.

Essa é a base para a acusação de argumento circular de tomistas contra pressuposicionalistas, que estes (ao menos nos EUA) já debateram até os limites da paciência. Alguns tomistas, como Geisler e Sproul (segundo uma fonte secundária à qual recorri), disseram então que vantilianos confundem a "ordem do ser" (metafísica) com a "ordem do conhecimento"(epistemologia). Quando fazem isso, porém, eles já estão dentro de um esquema basicamente tomista. A apologética clássica busca apelar à "razão natural", à razão (neutra) que não precisa recorrer à Bíblia, aquela que todo ser humano supostamente possui e na qual pode haver um suposto diálogo "racional", para conduzir o não-cristão ao Deus cristão. Essa "razão natural", eles entendem, é o ponto comum entre todos os seres humanos, e seus argumentos são supostamente o que Paulo queria dizer em Romanos 1. Ou seja, para os tomistas, Deus não pode ser conhecido "diretamente", mas apenas "indiretamente", por seus efeitos - com exceção do conhecimento advindo da Revelação.

Para alguém educado no tomismo, essa questão não é motivo de controvérsia. 

Mas voltemos à distinção entre (1) e (2). Uma coisa é conhecer a existência de Deus e outra é demonstrá-la. E nesse ponto, mesmo indivíduos simpáticos a Van Til podem cair no erro de confundir a premissa de um argumento com a pressuposição de um argumento. 

Um argumento genuinamente vantiliano não é: (a) O Deus da Bíblia é o Deus verdadeiro; (b) (segunda premissa); portanto (c) o Deus da Bíblia é o Deus verdadeiro. 

A apologética pressuposicionalista é antes de mais nada uma crítica transcendental (que transcende, vai além do que é imanente, do que alcançamos pela experiência e pelos sentidos). A apologética vantiliana não confunde a ontologia e epistemologia exatamente porque depende precisamente da diferenciação das duas. Van Til apresenta um argumento basicamente epistemológico para chegar à conclusão metafísica em forma de argumento transcendental. Ele busca mostrar que o Deus Triúno é uma condição sem a qual o conhecimento é impossível. Ele busca levar o não-cristão aos fundamentos do conhecimento humano. Dados os efeitos do pecado, a Palavra de Deus é tomada como necessária para o correto entendimento da metafísica, e somente o Deus Triúno fornece a precondição sólida para que o conhecimento humano exista. De forma que um pressuposicionalista poderia dizer a grosso modo: (a) você experimenta o bem e o mal em sua vida, apesar dos efeitos da Queda; (b) isso não aconteceria caso o Deus cristão não existisse; portanto, (c) Deus existe. Ou: (a) se Deus não existisse, você não saberia que Bolsonaro é presidente do Brasil; (b) você sabe que Bolsonaro é presidente do Brasil; portanto, (c) Deus existe.

Então, em certo sentido, Van Til também começa pela razão e pelos sentidos. Ele assume que existe conhecimento humano, que ele é possível; e só é possível por causa do Deus Trino. Onde está então a diferença? Na autoridade. 

Voltando à analogia do mapa do Dr. Howe, o que um vantiliano argumentaria? Ele concorda que Pindaíba precisa existir antes do mapa que leva a essa cidade fictícia. Ele apenas pergunta: quem fez o mapa? Como é possível que um mapa exista? Ora, alguém fez esse mapa. É preciso que um profissional tenha feito as medições e o reconhecimento da área para que depois pudesse fazer o mapa. O vantiliano dirá: "o mapa não tem autoridade em si mesmo"! "Ora, e quem disse que você está lendo o mapa corretamente"? 

É necessário entender as siglas do autor do mapa. Você precisa entender todos os signos. Por isso, você só pode ler o mapa corretamente caso você conheça algo que o autor do mapa escreveu. 

A apologética pressuposicional, portanto, não nega a diferença entre metafísica e epistemologia, mas, pelo contrário, reforça a sua interdependência. Se você é um americano e não sabe a medida do quilômetro (americanos usam "milhas"), pode ser que você não coloque gasolina suficiente no carro, ou que você entre na curva errada.

Trocando em miúdos: se imaginarmos que nossa cidade fictícia é Deus , o mapa seria os sentidos e a razão humana e as pressuposições do autor do mapa (sistema métrico) são a Revelação Especial de Deus, ou melhor, as pressuposições genuinamente cristãs derivadas dessa Revelação.

Cornelius rejeita a apologética tradicional porque, em última instância, ela é inconsistente em seu propósito, entendendo que um cristão não pode usar uma epistemologia não-cristã esperando ter resultado cristão consistente. Em algum lugar, mesmo que não pareça, a coisa vai dar errado. E para Van Til é impossível que não dê, em virtude dos fundamentos. Para ele, ainda, utilizar a epistemologia correta, por razão do reconhecimento da autoridade última, é também um problema ético. Quem tem mais autoridade para ler o mapa? Quem conhece os signos do autor do mapa ou quem não conhece?

Compreenda-se, pois, que tomistas e vantilianos discordam sobre a interpretação de Romanos 1 e 2.

domingo, 16 de maio de 2021

Raízes históricas do pressuposicionalismo

 


Toda epistemologia, toda teoria do conhecimento, tem uma base metafísica, i.e., descansa sobre um conceito de ser. Mas também sobre uma fé pré-teórica, com respeito à autoridade última. Todo ser humano começa com um ato de fé e raciocina segundo essa fé. 

O descrente começa com uma fé que nega Deus. Descartes começou com a existência de si, para só depois tentar provar a existência de Deus. A existência de Deus seria ou não comprovável por sua epistemologia. O cristão, de outro lado, começa com a crença de que Deus é. 

Nos primeiros séculos é muito difícil encontrar autores que tenham desenvolvido um sistema epistemológico, mas há casos dignos de atenção e menção.

Vantilianos assumem que a epistemologia não-cristã entrou muito cedo na igreja, com os convertidos oriundos da Grécia e de Roma. Muito comumente eles traziam suas pressuposições consigo. Um exemplo é Justino Mártir (110 a 165d.C.), um teólogo que merece não apenas respeito, mas honra em diversos aspectos. 

Justino foi um dos primeiros apologetas, um defensor da fé, e um dos primeiros a tocar na questão da epistemologia. Para ele, por exemplo, ser cristão e ser racional eram praticamente sinônimos, razão pela qual ele colocava Sócrates e Heráclitos em altíssima estima, ao lado de Abraão, a quem chamava de "bárbaro". 

"E aqueles que viveram racionalmente são cristãos, mesmo que fossem ateístas; como entre os gregos, Sócrates e Heráclito, e homens como eles. E entre os bárbaros, Abraão, e Ananias, e Azarias, e Misael, e Elias, [...]" [1]
Não apenas Justino identificou injustificavelmente o ser cristão com a razão, mas ao chamar até mesmo o patriarca Abraão de "bárbaro", temos evidência de que aquele apologeta, no segundo século, ainda falava como um grego nesse quesito. 

A linha pressuposicionalista, por outro lado, afirma-se herdeira de Tertuliano e principalmente de Santo Agostinho. Cornelius Van Til escreveu especialmente sobre Agostinho. Sua visão sobre a Trindade como solução para o problema do Universal e dos Particulares foi um resultado de seus estudos sobre aquele Pai da Igreja. E Van Til defendia que Agostinho, em sua fase madura, abandonou os pontos mais essenciais de Platão.

Na Idade Média, temos Santo Anselmo. Em seu Proslogion, começa  confessando que sua razão não levou-o a lugar algum. concluindo em sua oração que ele "não procuro entender o Senhor para crer, mas eu creio para que possa entender."

Voltando à linha que pode ser traçada até Justino Mártir, na Idade Média surgiu, primeiro, Abelardo, e depois Santo Tomás de Aquino, trazendo Aristóteles para a Cristandade.

Em Anselmo e Aquino há o crescimento da polarização que começou séculos antes e é aqui, na Baixa Idade Média, que o ponto de ruptura entre as duas premissas se aproxima. Vantilianos entendem que Anselmo conduziu à Reforma e ao calvinismo, enquanto a tradição de Abelardo/Tomás de Aquino conduziu à Contra-Reforma, ao arminianismo e ao modernismo [que é colocado aqui como um resultado da crise interna dos motivos-básicos do Escolasticismo e pela semelhança epistemológica, embora reconheça-se algumas diferenças fundamentais].

A CONTROVÉRSIA EM TORNO DE CALVINO.

O extenso debate sobre Calvino entre as duas tradições é delicado. Vantilianos e calvinistas tomistas querem o reformador para si. Encontra-se em Calvino elementos que várias das correntes posteriormente desenvolvidas usam para provar que o reformador francês era pertencente a sua própria linha: simpáticos e antipáticos ao Escolasticismo, supralapsarianos e infralapsarianos, tomistas e pressuposicionalistas, etc. são alguns exemplos. 

Cada uma dessas correntes defende que nas obras do reformador de Genebra é possível encontrar elementos nos quais a autoridade do francês serve como endosso para a autoridade e historicidade de sua própria pressuposição. 

Um grande problema, porém, jaz em todas essas controvérsias: tais reclamações só podem ser sólidas diante de uma exegese da obra do próprio Calvino - algo nada fácil de se fazer. Sobre determinados temas, Calvino não dá opiniões exaustivas, razão pela qual parte da argumentação dos partidários em disputa necessita de uma dose de especulação. 

A controvérsia mais "atual" diz respeito ao posicionamento do reformador em relação ao Escolasticismo, que tem tudo a ver com o tema deste texto. Para os interessados nessas questões fora da academia, toda a questão parece carecer de um ponto de partida fundamental. A maioria dos comentadores ignora perguntas que deveriam ocupar as primeiras preocupações.

1. Afinal, o que é Escolasticismo?

2. Qual é a diferença, se existe, entre Escolasticismo Católico Romano e Escolasticismo Protestante?

Sem essas respostas, nenhuma conclusão sólida pode ser alcançada, pra começar.

A falta de comentários exaustivos de Calvino acaba abrindo espaço para o que vou chamar aqui de "imputação conceitual". Em vários lugares, o reformador fala de "lei natural", de "luz da razão natural" (ou "razão universal"), ou de "testemunho da natureza". Muitos estudiosos, portanto, rapidamente podem imputar suas próprias opiniões sobre Calvino a partir do uso dessa linguagem. "Se Calvino falou de luz natural da razão, ele está falando do que eu entendo por luz natural da razão".

Em virtude da falta de explicação detalhada, os calvinistas mais ligados ao tomismo têm, com justiça, a seu favor, a presunção de que devemos entender o posicionamento de Calvino segundo a opinião predominante em sua época, o que é bastante plausível. Se tomarmos esse aspecto em específico, sem uma exegese mais profunda, os vantilianos parecem em desvantagem. Tal tem sido a linha de argumentação de defensores da apologética clássica contra Van Til.

Alguns argumentam em meio a essa disputa que "Escolasticismo" deve ser entendido apenas como "método" teológico, sem compromissos teológicos e filosóficos específicos, como um conjunto de parâmetros para a discussão de tópicos doutrinários. Dentre estes, há aqueles que mostram, por exemplo, que Calvino utiliza a estrutura de disputas que se vê facilmente em Tomás de Aquino. Levanta-se também a utilização de terminologias distintamente escolásticas, às quais me referi dois parágrafos atrás. Dizem, ainda, que Calvino supostamente fez comentários de acordo com as "provas" tomistas para a existência de Deus, especialmente a noção genérica de que a existência de Deus pode ser conhecida a partir de seus efeitos, na relação de causa e efeito e nos momentos em que o reformador se refere ao "testemunho da natureza".

Em suma, tais estudiosos entendem que as opiniões vantilianas sobre esse tema não passam de mitos.

Não obstante, a compreensão dos argumentos pressuposicionalistas por parte de McGrath, Sproul, Fesko e outros é bastante questionável, do meu ponto de vista. Vantilianos argumentam basicamente que, apesar do uso desses termos tradicionais, Calvino tem um entendimento diverso daquele que antecedeu-o.

Mesmo vantilianos reconhecem que Calvino falou sobre um conhecimento "natural" de Deus, bem como de "lei natural". R. J. Rushdoony pessoalmente criticou Calvino e Lutero especificamente no tópico do jusnaturalismo. A dúvida, porém, é se Calvino entendia esses conceitos da mesma forma que os tomistas entendem. Lembremos que Calvino não teve a mesma educação teológica de Lutero. Quais foram os efeitos dessa educação diferenciada, se é que houve algum? E é esse o ponto onde vantilianos consideram-se sucessores de Calvino. Em geral, é motivo de dúvida se o próprio Van Til discordaria das muitas citações do reformador que são usadas contra sua própria obra.

Quando Van Til defende um rompimento de Calvino com o Escolasticismo, está se referindo, antes, a uma quebra em relação à tradição Escolástica influenciada por determinadas suposições filosóficas. Em certos textos, o filósofo holandês usa o termo "teologia escolástica", referindo-se mais especificamente a algo que inclui uma teologia específica, mais do que um simples método ou terminologia. Se há pontos de contato entre Calvino e o Escolasticismo enquanto método, não é algo com o que Van Til teria problemas.

Estava Calvino utilizando-se conscientemente de um método escolástico? Ele via a si mesmo nesse contexto? Em primeiro lugar, o estilo da escrita de Calvino era mais próximo do estilo dos humanistas de sua época do que do estilo escolástico.

Doutor Fesko, por exemplo, aponta um comentário do Salmo 19 de Calvino como evidência de que ele seguia a epistemologia tomista tendo as "provas" tomistas como exemplo. O texto do comentário, porém, diz apenas que a "criação os direciona aos atributos de Deus." Desculpem-me os tomistas, mas tal citação é muito inconclusiva. Vantilianos não negam que há uma revelação na natureza que conduz aos atributos de Deus; eles apenas interpretam tal revelação de forma diversa daquela dos tomistas. 

Nem mesmo há uma negação absoluta dos vantilianos em relação a uma "teologia natural" - o importante é que não seja a tomista ou moderna. Mas será que Calvino tinha em mente todo o aparato metafísico aristotélico de Tomás?

Ao contrário de Tomás, que no segundo tópico da Suma tratou da existência de Deus (onde inseriu as "cinco provas"), Calvino em nenhum momento se preocupou em dar respostas "racionalistas" para a existência de Deus, nem nas Institutas, nem, até onde meus estudos permitem, em lugar algum.

Vantilianos não negam que exista uma diferença entre o "conhecimento natural de Deus" e o "conhecimento fornecido pela Revelação Especial". Entretanto, quando os tomistas falam do "conhecimento natural de Deus", eles estão falando da teologia natural segundo a tradição tomista. Van Til, ao contrário do que afirmam alguns de seus acusadores, nunca disse que o não-cristão não pode aprender absolutamente nada de genuíno, nem que o cristão não pode aprender absolutamente nada do descrente. James H. Anderson cita um comentário do holandês a respeito de Calvino.

"'Então [Calvino] completa: "Não obstante, os esforços humanos não são sempre totalmente infrutíferos a ponto de não conduzirem a algum resultado, especialmente quando a atenção deles é direcionada a objetos inferiores [mundanos]. Nem, mesmo em relação a objetos superiores [divinos], embora eles sejam mais descuidados na sua investigação, eles deixam de fazer algum tímido progresso. Aqui, contudo, sua habilidade é mais limitada, e ele nunca está mais consciente de sua fraqueza do que quando tentam ir além da esfera da vida presente'.

Desta citação podemos ver que Calvino está querendo dizer que todas as interpretações do homem natural são em última instância igualmente insatisfatórias, que existe um sentido no qual ele tem algum conhecimento sobre tudo, sobre Deus e sobre o mundo, e que nesse sentido ele sabe mais sobre o mundo do que sobre Deus. Esta distinção não é apenas verdadeira, mas fundamental que se faça. Muitos descrentes têm sido grandes cientistas. Comumente descrentes têm um conhecimento melhor das coisas deste mundo do que cristãos têm.

(...)

A única distinção que realmente nos ajudará é aquela que Calvino desenvolveu, a saber, que de um ponto de vista último o homem natural não conhece nada 'verdadeiramente', mas de um ponto de vista relativo, ele sabe algo sobre todas as coisas."

Como Anderson enfatiza, o pensamento de Van Til tem muito mais nuances do que enxergam seus críticos. Van Til explica que, mesmo tendo algum conhecimento até mesmo sobre a divindade, em última instância, o conhecimento do descrente é inválido.

James H. Anderson tem estudado todos os livros escritos contra Van Til e encontra neles abundância de interpretações fracas e - mais importante - absolutamente nenhuma novidade. 

O vantilianismo não é sequer totalmente incompatível com diversos argumentos cosmológicos. Na verdade, em pelo menos uma ocasião[2],  Gordon Clark zombou de Van Til precisamente por essa razão.

Historicamente temos também de lidar com o Escolasticismo Protestante. Em termos de método, qual é a objeção feita pelos vantilianos? Muito pouca. As criticas vantilianas focam os aspectos pelos quais o Escolasticismo tornou-se paulatinamente racionalista.

Finalmente, a existência de pontos de contato entre Calvino e Tomás não deveria sequer ser motivo de surpresa. A verdade é que, como bem demonstrado no livro "Origens Intelectuais da Reforma Protestante", de McGrath, em muitos sentidos, a Reforma é uma herdeira, um fruto das discussões escolásticas. Nem em qualquer momento se duvida que há discordâncias importantes em determinados temas entre o filósofo católico romano e o reformador francês. 


Fica a questão: especificamente em Calvino, até onde existia Tomás em seu pensamento?

Entre os claros pontos de concordância e os claros pontos de discordância há um hiato de incertezas que só podem ser diminuídas com estudo diligente - algo que leitores "leigos" de facebook não podem fazer. 
A controvérsia a respeito de Calvino e Escolasticismo é um tema sério que não pode ser debatido sem um rigor apropriado, com exegese do próprio campeão francês. 

NOTAS:
[1] ver "First Apology", V. Citado por R. J. Rushdoony, em "Word of Flux", p. 37.

[2] ver "Em Defesa da Teologia", de Gordon Clark. Clark não cita Van Til nominalmente, mas é a ele que Clark se refere ironicamente quando diz esperar por argumentos cosmológicos que o holandês não forneceu. 

Vitor Marques

sábado, 3 de outubro de 2020

A IRONIA DO CONSERVADORISMO

A grande ironia que deveria surpreender e ruborizar os conservadores de youtube atuais é que as liberdades por eles defendidas são fruto da ação revolucionária de Cromwell e de seu exército de puritanos (liberdades estas que, para os conservadores, são desprovidas de sua fonte original e que servem como enfeite para as entranhas de um iluminismo anglo-saxão que é a verdadeira origem do conservadorismo). Os puritanos, mesmo sem terem grande consciência disso, queriam restabelecer a liberdade cristã na Inglaterra, destruída por Henrique VIII, e que nada mais era do que uma versão inglesa do antigo direito canônico. 

Eram os puritanos que apelavam para a história e tradições inglesas contra o absolutismo da Coroa. Mesmo a liberdade de imprensa, hoje defendida por conservadores, foi por eles defendida. Os monarquistas "conservadores" da época eram contrários a ela. As liberdades que os revolucionários americanos queriam defender, segundo Rushdoony, não eram nada além daquelas liberdades estabelecidas durante o regime cromwelliano. O "tradicionalismo" inglês nasceu com uma revolução de "biblicistas", como gostam de zombar os cegos arrogantes que pululam no país hoje graças ao Olavo e aos leitores de orelha do Voegelin.

Fora alguns insights e estudos importantes sobre o desenvolvimento histórico, eu tenho pouco apreço pelo conservadorismo. Conservadores que confundem conservadorismo com cristianismo, do meu ponto de vista, são crianças empolgadas. Se há algo bom no conservadorismo, é o alerta que ele faz contra a ruptura histórica abrupta e contra a esterilidade das leis no coração dos indivíduos. Leis não mudam pessoas; o Evangelho muda. 

Se há algo certo sobre o olavismo, além dos benefícios por ele obtidos contra o movimento revolucionário latino-americano e a renovação editorial no país, é a criação de uma geração de "cristãos" que tornaram-se cristãos sem precisar de Cristo; de católicos que nunca conheceram de fato o catolicismo romano. Gente que se arroga capaz de oferecer a solução para o mundo ocidental assistindo aos vídeos do True Outspeak. "Intelectuais" nandomouristas e terçalivristas que nada fazem além de papaguear máximas do Lênin da Virgínia.

Conservadores brasileiros da estirpe do Brasil Paralelo, então, são coroinhas românticos e bem intencionados que, no meio de algumas verdades importantes, não passam de propagandistas de um passado grandioso e farsesco deste império do bananal que chamamos de Brasil, o país mais cristão do mundo que nunca ouviu o Evangelho.

O ANTICRISTIANISMO ESSENCIAL DA MODERNIDADE E DO CONSERVADORISMO

A modernidade não se manisfesta apenas no anticristianismo explícito de sua revolta metafísica. Em outra de suas facetas, ela abre-se à transcendência, mas apenas de forma vaga. Deus pode até existir, mas é pouco o que podemos saber d'Ele. Só podemos saber d'Ele até onde permite nossa razão.

Esta abertura vaga ao transcendente é também um efeito de uma epistemologia moderna. O conhecimento é embasado na razão humana, simplesmente. Deus é uma "necessidade" e fonte de valor e beleza. Tal abertura vê-se de várias formas na cultura, desde estudos acadêmicos de religião comparada até livros espiritualistas de quinta categoria. No fim das contas, é negado aos cristãos o direito de defender as verdades cristãs como absolutas.

A Revelação bíblica é fundamental para o cristianismo. Negar a autoridade da Revelação, mesmo com a forma de um teísmo academicamente arrumadinho, é uma forma disfarçada de anticristianismo. Nega a autoridade da Palavra do Criador. Russell Kirk afirma que o conservadorismo não possui dogmas; e ridiculariza aqueles que chama de "biblicistas". Os biblicistas não são tão bons quanto os pensadores conservadores para os problemas da vida pública, da prática diária. O que Kirk entende por "pecado original" não é sequer tomista; é erasmiano. Ele explicitamente deseja limitar a influência do cristianismo na política, alegando que ela só pode produzir revoluções pobristas (influenciado pelo infame Voegelin).

O conservadorismo é um pensamento moderno. Edmund Burke estava alinhado com os iluministas de seu tempo. Conservadores parecem mais nominalistas do que gostariam de reconhecer. Alguns, quase que histericamente empiristas.  Conservadorismo não é necessariamente cristão em suas manifestações e não é cristão em sua essência. 

Fora isso, é útil para a compreensão do desenvolvimento histórico e vejo pontos de contato entre algumas meditações de T.S. Eliot e Herman Dooyeweerd. No caso de Scruton, a sensibilidade pela beleza é enriquecedora diante da sequidão da maior parte dos teólogos.


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