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terça-feira, 8 de junho de 2021

APOLOGÉTICA CLÁSSICA x APOLOGÉTICA VANTILIANA


 
[Nota: Este texto é uma adaptação livre da argumentação de James H. Anderson, com acréscimos e ênfases meus.]

Vantilianos entendem que há uma diferença fundamental entre (1) conhecer a existência de Deus e (2) demonstrar a existência de Deus. A demonstração da existência de Deus (2) é a preocupação dos apologetas. É aqui que a diferença entre a apologética vantiliana e a apologética clássica se torna mais clara.

Tomistas, conforme veem os vantilianos, tendem a opor (1) e (2) em alguma medida. Para aqueles, uma coisa é a prioridade ontológica de Deus e outra é a prioridade sensorial no conhecimento. Parafrasearei aqui uma ilustração do Dr. Howe, tomista, porque ela é muito boa.

- Imagine o mapa do Brasil e o caminho que leva à cidade fictícia de São Bernardo das Canetas. A cidade de São Bernardo precisa existir antes que exista um mapa que mostre o caminho àquela cidade, e para encontrá-la, nós precisamos antes de um mapa. 

Deus existe antes do conhecimento que o ser humano pode ter de Deus. A forma como conhecemos a existência de Deus não tem nada a ver com a prioridade ontológica de Deus, porque Ele criou o mundo. Destarte, a nossa epistemologia, o caminho pelo qual nós acabamos conhecendo a Deus não quer dizer nada sobre a prioridade metafísica de Deus. 

O tomista portanto entende que, para conhecer a existência de Deus, nós não podemos "começar" com Deus em si. Nós devemos começar pelos sentidos e pela razão. Pequena confusão ocorre em decorrência da equivocidade dos termos. O que um sistema de pensamento chama de racional pode ser diferente do que outro sistema de pensamento chama pelo mesmo nome. Clark, por exemplo, diria que Tomás tem uma pitada de empirismo, o que chocaria um tomista. Contudo, ele não quer dizer que Tomás é um empirista no sentido moderno. Clark reconhecia duas fontes na epistemologia tomista [v. "Três Tipos de Filosofia Religiosa"]. É talvez seguro dizer que no tomismo o conhecimento começa pelos sentidos [v. Etienne Gilson]. Essa é a razão própria do argumento do Motor Imóvel. Começando pelos sentidos, sem qualquer referência à Revelação especial de Deus, seria possível concluir a existência d'Ele. Em suma, Deus é anterior ontologicamente, mas posterior epistemologicamente. Deus existe antes do nosso conhecimento de Deus, mas Deus não existe no começo do nosso conhecimento. Da mesma forma como na figura do Dr. Howe, São Bernardo das Canetas só é descoberta no fim da estrada que trilhamos seguindo o mapa.

Essa é a base para a acusação de argumento circular de tomistas contra pressuposicionalistas, que estes (ao menos nos EUA) já debateram até os limites da paciência. Alguns tomistas, como Geisler e Sproul (segundo uma fonte secundária à qual recorri), disseram então que vantilianos confundem a "ordem do ser" (metafísica) com a "ordem do conhecimento"(epistemologia). Quando fazem isso, porém, eles já estão dentro de um esquema basicamente tomista. A apologética clássica busca apelar à "razão natural", à razão (neutra) que não precisa recorrer à Bíblia, aquela que todo ser humano supostamente possui e na qual pode haver um suposto diálogo "racional", para conduzir o não-cristão ao Deus cristão. Essa "razão natural", eles entendem, é o ponto comum entre todos os seres humanos, e seus argumentos são supostamente o que Paulo queria dizer em Romanos 1. Ou seja, para os tomistas, Deus não pode ser conhecido "diretamente", mas apenas "indiretamente", por seus efeitos - com exceção do conhecimento advindo da Revelação.

Para alguém educado no tomismo, essa questão não é motivo de controvérsia. 

Mas voltemos à distinção entre (1) e (2). Uma coisa é conhecer a existência de Deus e outra é demonstrá-la. E nesse ponto, mesmo indivíduos simpáticos a Van Til podem cair no erro de confundir a premissa de um argumento com a pressuposição de um argumento. 

Um argumento genuinamente vantiliano não é: (a) O Deus da Bíblia é o Deus verdadeiro; (b) (segunda premissa); portanto (c) o Deus da Bíblia é o Deus verdadeiro. 

A apologética pressuposicionalista é antes de mais nada uma crítica transcendental (que transcende, vai além do que é imanente, do que alcançamos pela experiência e pelos sentidos). A apologética vantiliana não confunde a ontologia e epistemologia exatamente porque depende precisamente da diferenciação das duas. Van Til apresenta um argumento basicamente epistemológico para chegar à conclusão metafísica em forma de argumento transcendental. Ele busca mostrar que o Deus Triúno é uma condição sem a qual o conhecimento é impossível. Ele busca levar o não-cristão aos fundamentos do conhecimento humano. Dados os efeitos do pecado, a Palavra de Deus é tomada como necessária para o correto entendimento da metafísica, e somente o Deus Triúno fornece a precondição sólida para que o conhecimento humano exista. De forma que um pressuposicionalista poderia dizer a grosso modo: (a) você experimenta o bem e o mal em sua vida, apesar dos efeitos da Queda; (b) isso não aconteceria caso o Deus cristão não existisse; portanto, (c) Deus existe. Ou: (a) se Deus não existisse, você não saberia que Bolsonaro é presidente do Brasil; (b) você sabe que Bolsonaro é presidente do Brasil; portanto, (c) Deus existe.

Então, em certo sentido, Van Til também começa pela razão e pelos sentidos. Ele assume que existe conhecimento humano, que ele é possível; e só é possível por causa do Deus Trino. Onde está então a diferença? Na autoridade

Voltando à analogia do mapa do Dr. Howe, o que um vantiliano argumentaria? Ele concorda que Pindaíba precisa existir antes do mapa que leva a essa cidade fictícia. Ele apenas pergunta: quem fez o mapa? Como é possível que um mapa exista? Ora, alguém fez esse mapa. É preciso que um profissional tenha feito as medições e o reconhecimento da área para que depois pudesse fazer o mapa. O vantiliano dirá: "o mapa não tem autoridade em si mesmo"! "Ora, e quem disse que você está lendo o mapa corretamente"? 

É necessário entender as siglas do autor do mapa. Você precisa entender todos os signos. Por isso, você só pode ler o mapa corretamente caso você conheça algo que o autor do mapa escreveu. 

A apologética pressuposicional, portanto, não nega a diferença entre metafísica e epistemologia, mas, pelo contrário, reforça a sua interdependência. Se você é um americano e não sabe a medida do quilômetro (americanos usam "milhas"), pode ser que você não coloque gasolina suficiente no carro, ou que você entre na curva errada.

Trocando em miúdos: se imaginarmos que nossa cidade fictícia é Deus , o mapa seria os sentidos e a razão humana e as pressuposições do autor do mapa (sistema métrico) são a Revelação Especial de Deus, ou melhor, as pressuposições genuinamente cristãs derivadas dessa Revelação.

Cornelius rejeita a apologética tradicional porque, em última instância, ela é inconsistente em seu propósito, entendendo que um cristão não pode usar uma epistemologia não-cristã esperando ter resultado cristão consistente. Em algum lugar, mesmo que não pareça, a coisa vai dar errado. E para Van Til é impossível que não dê, em virtude dos fundamentos. Para ele, ainda, utilizar a epistemologia correta, por razão do reconhecimento da autoridade última, é também um problema ético. Quem tem mais autoridade para ler o mapa? Quem conhece os signos do autor do mapa ou quem não conhece?

Compreenda-se, pois, que tomistas e vantilianos discordam sobre a interpretação de Romanos 1 e 2.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

VANTILIANISMO X TOMISMO

Sei que parte dos leitores deste blog não me acompanham nas redes sociais. Decidi compartilhá-lo por aqui, então, para que mais pessoas possam ter acesso.

Resumo da primeira parte do debate:
1. Sproul apresenta as preocupações dos tomistas em relação à necessidade de uma lei natural. Elas "parecem" importantes, mas porque Sproul parece ter paupérrima compreensão da crítica epistemológica do vantilianismo.
2. Um expectador pressuposicionalista faz uma pergunta absolutamente compreensível para um vantiliano sério. A pergunta foi tão boa que pareceu mais um golpe na jugular.
3. Sproul sequer entende a pergunta.
4. Bahnsen precisa explicar a pergunta feita pelo expectador pra Sproul. E eu duvido que Sproul tenha compreendido a explicação além da superfície.
5. Sproul, em um debate com um pressuposicionalista, ataca a neo-ortodoxia para se justificar diante da pergunta.
Esperando o resto do debate pra decidir se eu devo rir ou chorar.



segunda-feira, 1 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO CIVIL - PARTE 4
por R. J. Rushdoony.

Com o Iluminismo, a confiança na razão começou a tomar o lugar da fé Cristã e da Revelação. Primeiro, à Revelação era dado um lugar no esquema de coisas como necessária para as coisas pertencentes a Deus que estavam além da razão. Com o passar do tempo, o reino limitado do Cristianismo e da verdade revelada retrocederam, e a razão clamou por jurisdição total.

Esse desenvolvimento tem raízes na filosofia grega. Tanto para Platão quanto para Aristóteles, o pensamento teórico pertencia ao reino eterno das ideias, de forma e ser. "O deus aristotélico era puro pensamento teórico, o equivalente da forma pura. Sua contraparte absoluta era o princípio da matéria, caracterizada pelo movimento sem forma e eterno ou vir-a-ser." [1] 

A influência de tal pensamento tem sido muito forte nos séculos Cristãos e deformado a igreja em boa parte de sua história. Se alguém assume que o reino das ideias é o reino divino, então à medida em que o homem torna-se mais racional em todos os seus caminhos, ele aproxima-se do reino abstrato e definitivo do ser. Ele pode então tornar-se um filósofo-rei que traz a razão e o estado juntos para estabelecer a verdadeira justiça. Desde o Renascimento, e novamente com o Iluminismo, o ideal de filósofo-rei era comum entre pensadores humanistas e legisladores. Acreditava-se que o reino da razão e da liberdade, então aquela tensão dialética seria necessariamente contra a natureza, e a lei da razão como liberdade. Foi nesses termos que Karl Marx viu a esperança da humanidade em uma transição do reino da necessidade para o reino da liberdade, i.e., para o reino criado pelos líderes intelectuais dos trabalhadores.

Dooyeweerd descreveu adequadamente as implicações disso em Immanuel Kant (1724-1804): 


"Como Rousseau, Kant deu prioridade religiosa ao motivo religioso da liberdade do ideal de personalidade moderno. A liberdade, de acordo com Kant, não pode ser comprovada cientificamente. Para ele, a ciência está sempre vinculada à experiência sensorial, à 'realidade natural' como entendida no contexto limitado das próprias concepções de Kant. Liberdade e autonomia da personalidade não residem na natureza sensorial. São ideias práticas da 'razão' de uma pessoa; a realidade suprassensorial continua a ser uma questão de ." [2]

Como Dooyeweerd deixou claro, isso não era menos do que religião, não menos do que , do que o Cristianismo, enquanto radicalmente oposto a ele.

À medida em que essa fé na Razão desenvolveu-se, algumas nuances vieram à luz. Era uma fé muito harmonizada ao pensamento evolucionário grego, à visão do universo material, nas palavras de Dooyeweerd, como "movimento sem forma e eterno do vir-a-ser." [3] É a Razão que dá forma e direção a esse vir-a-ser, como Hegel viu. Consequentemente, Hegel formulou a doutrina da evolução cultural onde o estado torna-se a expressão central da Razão, Geist, ou Espírito, quando ele realiza essas ideias em forma material. Para Hegel, de acordo com Bussel, "A evolução é da Razão inconsciente para a Razão auto-compreensível, pela lei ou fórmula dos três estágios." (Esses três estágios, como Auguste Comte formulou-os em detalhes posteriormente, são a teológica ou fictícia; a metafísica ou abstrata; e a científica ou positiva). [4]

Esse é um desenvolvimento lógico. Se o estado Prussiano de Hegel era a expressão da Razão, inclusive, sua encarnação nos dias de Hegel, então a realizada Razão do estado era uma Razão inconsciente nas eras anteriores a Hegel e ao estado Prussiano. Tal perspectiva muda muito da sabedoria e Razão da mente consciente para a mente inconsciente. Nas palavras de Bussel, "Que nós possamos não repetir com significado exagerado: 'A coruja de Minerva toma seu vôo apenas quando os tons da noite estão se ajuntando.'" [5]

Quando Bussel escreveu, o trabalho de Sigmund Freud ainda não havia ganhado o prestígio internacional que lhe foi subsequente. Isso estava, entretanto, claramente na linha de pensamento grego de Kant e Hegel. Para a supremacia da Razão, Freud substituiu a supremacia da Razão inconsciente. Mas isso não foi tudo. Sem usar a palavra infalibilidade, Freud viu o inconsciente como infalível.

No reino civil, tal pensamento fundamentou a irracionalidade do estado moderno; o estado ainda era a encarnação da Razão, mas ele era agora um desenvolvimento da Razão científica, uma sociedade em planejamento em vez de uma ordem planejada. Desde que o futuro requereu uma modelagem em termos evolutivos, desenvolvendo a natureza das coisas, este futuro era uma parte do desconhecido, um aspecto do inconsicente social e científico.

Em resumo, nós podemos então dizer que a Revolução Civil tornou-se o triunfo do inconsciente. A justiça não governa mais o verdadeiro estado moderno mas, antes, o desenvolvimento da política social. Por isso tais considerações racionais como afirmações equilibradas são rejeitadas. A realidade presente deve dar caminho para a realidade futura, a Razão lógica para a Razão inconsciente. Uma parte dessa inclinação é a demanda por líderes políticos carismáticos que podem, como Hitler e Roosevelt, apelar à Razão inconsciente dos homens.

Em todo esse tipo de pensamento, o estado é soberano, e é a voz da Razão, ainda que a Razão esteja inconsciente e evoluindo. Como um resultado, o estado mdoerno está tornando-se cada vez mais a expressão da não-razão. Os caminhos do estado moderno estão cada vez mais ultrapassados!

A Revolução Civil desenvolveu-se então para um grande dilema. Ela vê o estado como soberano, e como Razão, mas aquela Razão agora é inconsciente. Nós somos deixados com uma soberania inconsciente e assustadora.

Na fé Bíblica, nas palavras de Elazar,


"Nenhum estado - uma criação humana - pode ser soberano. Classicamente, apenas Deus é soberano e Ele confia o exercício de seus poderes soberanos mediados pela Torah - como constituição para as pessoas como um todo." [6]

Esse desenvolvimento da Revolução Civil, e sua descristianização do Ocidente, tem sido ocasionado pela retração da igreja tanto quanto pelaa ofensiva humanista. D. V. Segre citou o professor Nathan Rotenstreich, do Departamento de Filosofia na Hebrew University, dizendo em 1959 que,


"Para ele, o fato de que isso (o Sionismo) ganhou um lugar no curso ordinário do dia-a-dia dos eventos históricos, significa que nesse momento - não especificado -, duas ou três gerações atrás, o fato da história 'deixou de ser história Cristã no sentido específico do termo e tornou-se a história política das nações e dos blocos políticos.'" [7]

O problema, contudo, é mais profundo do que duas ou três gerações atrás. Os homens solicitaram a solução para todos os tipos de problemas fora da religião, por exemplo, o problema da "insanidade" foi rastreado para a inatividade ou hiperatividade mental e a partir disso os frenologistas argumentaram contra a inatividade e hiperatividade mental. Em outras palavras, a questão não era moral, mas fisiológica. Escritores eruditos e populares também santificaram tal pensamento. Nas palavras muito esclarecedoras de Cooter, 


"A moralidade não era mais providência exclusiva da teologia; as leis da fisiologia estavam agora para compartilhar a administração e com uma indisputabilidade ainda maior. Convenientemente e copiosamente, o Reverendo John Barlow incorporou essa defesa de moralidade em Man's Power over Himself to Prevent or Control Insanity (1843). Citando de Conolly que "aqueles que mais exercitam as faculdades de suas mentes são menos sujeitos à insanidade," ele adicionou que "um cérebro fortalecido pelo exercício racional... tem pouca probabilidade de ser atacado por doença... e então a maior parte do mal é removido." [8]

A igreja estava disposta a recuar ao reino "espiritual", ou, para ser mais preciso, para a irrelevância. A autoridade foi manejada para as ciências e para o estado em uma área após a outra: 


"Em um tempo de confissão religiosa decadente e crescimento reverente para a ciência, físicos muito conscientemente ofereceram direção nas questões comportamentais que, como alguém explicou, 'o costume dos séculos erroneamente confiou exclusivamente à profissão de teologia.'" [9]


A igreja, contudo, não tem direito de desistir do que pertence a Deus. Ela tem um dever de reclamar cada área para Cristo. Por causa de seu retrocesso, agora, como sempre, "Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus: e se ele começa por nós, qual deverá ser o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?" (1 Pe 4:17).


(Artigo extraído de "Sovereignty", de Rushdoony. Págs. 277-281)

1. Herman Dooyeweerd, Roots of Western Culture (Toronto, Canada: Wedge Publishing Foundation, 1979), 34. [N.doT., no Brasil: Raízes da Cultura Ocidental, ed. Cultura Cristã, 49.]
2. Ibid., 171-72. [N.doT.: ibid., 194.]
3. Ibid., 34. [N.doT.: ibid., 49.]
4. F. W. Bussell, Christian Theology and Social Progress (London, England: Methuen, 1907), 119-20.
5. Ibid., 123.
6. Daniel J. Elazar, "Introduction," in Daniel J. Elazar, ed., Kinship and Consent: The Jewish Political Tradition and Its Contemporary Uses (Washignton, DC: University Press os America, 1983), 6.
7. D. V. Segre, "The Jewish Political Tradition as a Vehicle for Jewish Auto-Emancipation," in ibid., 295.
8. Robert Cooter, "Phrenology and British Alienists, ca. 1825-1845," in Andrew Scull, ed., Madhouses, Mad-Doctors, and Madmen: The Social History of Psychiatry in the Victorian Era (Philadelphia, PA: University of Pensylvania Press, 1981), 79.
9. Barbara Sicherman, "The Paradox of Prudence: Mental Health in the Gilded Age," in ibid., 218.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.

sexta-feira, 22 de maio de 2015


NEOPLATONISMO E O HOMEM MODERNO
por R. J. Rushdoony.

O Michael Wigglesworth do século XIX foi Karl Marx. Não é nosso propósito examinar de perto ou mais do que passageiramente a filosofia de Marx. Para Marx, a dialética era entre a natureza e a liberdade (ou espírito). O mundo material da natureza era um mundo perigoso e uma armadilha quando ele domina os homens como faz no capitalismo. A liberdade significa a captura e total controle do mundo material pela mente ou espírito de Hegel, que encarnaria a si mesmo na ditadura do proletariado e libertaria o homem das amarras do trabalho e da alienação. A amarra para Marx era o trabalho, estando atado ao mundo material. Para Marx, a liberdade significa isso, "A diminuição do trabalho diário é sua premissa fundamental." [1] A liberdade, então, era o triunfo do espírito através do controle do mundo material e pela libertação do homem para o mais longe do trabalho quanto possível. Na mesma passagem do livro O Capital, Marx escreveu que "O reino da liberdade não começa até que seja ultrapassado o ponto onde o labor sob a compulsão da necessidade e da unidade externa seja requerido". [2] Frederick Engels usou termos mais explicitamente neoplatônicos quando clamou pela "ascensão do homem do reino da necessidade para o reino da liberdade". Diferentemente do neoplatonismo anterior, em que o reino do espírito individual ascendeu do reino da necessidade, o mundo material, dentro do reino da liberdade, o mundo espiritual, a ascenção Marxista era social. Isidor Schneider, editor literário do New Masses, escreveu uma novela para demonstrar esta tese, e seu herói chegou à seguinte conclusão no fim do livro: 


"Ele escapou do mundo da necessidade; ele encontrou uma saída, um escape de sua classe, apenas pra descobrir que, do lado de fora, ele era um homem sem lar. Ele estava aprendendo que ninguém pode entrar no reino da liberdade sozinho. Ele retornaria à sua classe. Com ela, ele marcharia, tomando sua posição nas linhas avançadas, no irresistível movimento de massas da humanidade do reino da necessidade para o Reino da Liberdade." [3]


Básico para o neoplatonismo de Marx era sua teoria de valor. Para ele, como ele avaliava os produtos, definitivamente não eram as leis de mercado materialistas e sua oferta e demanda que governam o valor. Para Marx, "o valor de cada mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho empreendida e materializada nele; pelo tempo de trabalho necessário, sob determinadas condições sociais, para sua produção." [4] O valor então era retirado do domínio do mercado e determinado, em vez disso, pelo labor, e labor significa algo que estaria "materializado" em um produto. Em outras palavras, o valor era uma consequência de uma ideia tornando-se materializada pelo labor. As leis de mercado não devem governar, porque elas são o mundo grosseiro da realidade material como colocado contra o mundo puro da razão ou da mente. Como North observou,


"Marx requereu um paraíso econômico onde não haveria escassez, nem incerteza, e nenhum empreendedorismo capitalista. É apenas esse tipo de mundo que pode dispensar lucros. Marx queria o paraíso na terra, ou mais precisamente, ele queria um escape do tempo e das maldições que o tempo trouxe consigo. Sua visão de socialismo finalmente requereu um universo estático no qual não existiria nenhum tipo de mudança, ou pelo menos onde todas as mudanças possam ser acuradamente previstas e controladas. Devido ao fato do capitalismo ter falhado para encontrar essa requisição, ele rejeitou-o como a criação de uma humanidade alienada, um período temporário que chegaria ao fim com a Revolução. Ele castigou o capitalismo por ter se desviado da concepção utópica de mundo perfeito." [5]

A observação de North é um excelente sumário das implicações dos objetivos de um neoplatonismo socializado.

Em mais de um sentido, Marx assemelhava-se a Wigglesworth. Nalgum lugar em seu pensamento, Wigglesworth aparentemente caiu em problemas sexuais e talvez tenha contraído gonorreia. Marx seduziu, ou, melhor dizendo, estuprou a serva de sua esposa, uma mulher piedosa e de fé que guiou a imprudente família de Marx com senso comum e dignidade. Um filho nasceu. Como Payne comentou, 


"Para Marx, fora de seus sonhos de revolução e poder, o nascimento de um filho bastardo era uma tragédia completa, uma sombra pousando sobre os anos restantes de sua vida. Sua vida estava devotada à criação de uma lenda revolucionária de proporções heroicas; nessa lenda, o estupro de uma serva não poderia ter lugar. Ele portanto repudiou a criança, negou tanto quanto foi possível ter qualquer coisa a ver com isso, e não fez nenhuma tentativa de apoiar isso. Muitos anos depois ele encontrou seu filho, mas foi um encontro muito breve. O filho não sabia que estava vendo seu pai." [6]

Wigglesworth desprezou a carne, mas encontrou no sexo uma tentação contínua. Marx desprezou o materialismo capitalista, mas ele estava continuamente buscando bem-estar. Durante boa parte de sua vida, Marx teve uma renda alta sob seu controle, mas ele gastou muito dela em tolas especulações na bolsa de valores, tentando enriquecer facilmente. [7]

Ironicamente, Marx, como outros neoplatônicos dos últimos séculos, era atormentado por doenças físicas. Payne conta-nos que o corpo de Marx esteve por vinte anos de sua vida coberto com tumores ferventes e gangrenosos, "exalando o fedor que afastava as pessoas". [8] "Havia períodos de quintessência, e outros períodos quando seu corpo inteiro parecia quebrar-se em úlceras. como Job, ele protestou veementemente, acusando os fatos de reservarem uma maldição especial somente pra ele." O mundo material rejeitado estava cobrando seu preço pela rejeição de Marx.

A esperança neoplatônica foi feita um objetivo social de Marx, e os artistas rapidamente compartilharam-na. Um dos resultados foi um ódio característico do mundo da realidade material, e "um protesto contra a feiura do industrialismo." [10]

A arte, quando Cristã, enfatizou a Graça, não a natureza (realismo). A arte humanista do Renascimento, neoplatônica até as entranhas, começou enfatizando a natureza (realismo) e moveu-se até uma aderência escrava da ideia de natureza do neoclassicismo. A arte moderna rejeitou a graça, bem como a natureza, para afirmar o espírito neoplatônico, especialmente no anarquismo, no sentido individualista. O objetivo da arte moderna é expressar o mundo interno do espírito. 

A arte requer justificativa, como fazem todas as atividades humanas. Tendo perdido a justificativa cristã, a arte agarrou uma justificativa humanista. Desde então tem havido uma implacável busca por significado e justificativa, sempre infrutífera. O vazio foi preenchido pela prioridade dada, em uma era recente, à técnica, e agora à inovação. A ênfase clássica em linhas, em forma e estrutura, a adição Romântica de novos assuntos, motivos pastoris, animais humanizados, e assim por diante, estas coisas eram a principal linha de desenvolvimento na arte, e cada desenvolvimento revelou-se vazio por seus imitadores, e então abandonados por todos.

O ódio da classe média, as pessoas "materialistas" da sociedade, tornou-se a marca do Boêmio e do artista, além dos intelectuais. Mesmo Tockeville compartilhou esse sentimento, afirmando que uma ordem moralizada só poderia vir da aristocracia ou das classes baixas.[11] Como Cesar Grana pontua, para os escritores e pensadores do dia, "valores significativos eram por definição valores não-utilitários."[12] O mundo dos valores era visto por eles como o mundo da mente ou espírito e definitivamente não é associado com o mundo material e sua representante, a classe média.

Porque o mundo material e sua classe média foram rejeitados, a moralidade "materialista" da religião bíblica também teve de ser rejeitada, e essa foi uma necessidade intelectual para ser um Boêmio ou um marginal. Um jovem aspirante literário do século XIX na França comentou: "Eu daria todos os meus talentos para ser um degenerado. Que linda peça eu escreveria." [13]

No século XX, esse conceito de degenerado recebeu pleno desenvolvimento pelas mãos de Jean-Paul Sartre. O completo desenvolvimento para o homem foi interpretado como significando uma quebra radical com a moralidade burguesa e materialista. Os valores para Sartre são existenciais: eles vêm diretamente do espírito imaculado do homem, não-influenciado pela religião e pelo passado e desgovernado pelo mundo material da história. É o espírito do homem quando produz livremente a ideia que é valor e moralidade; então tudo o que o homem faz é um valor. O falso mundo burguês de valores materiais precisa ser destruído. Como Molnar pontuou,


"Visto superficialmente, o anti-burguês pertence à classe dos modernos heróis da literatura, moralmente livres e não-conformistas em atitudes... Mas o tema do herói moderno deve ser precisamente transformado antes que torne-se útil no mundo de Sartre; aqui o mundo burguês não é apenas deixado pra trás, ele torna-se o anti-mundo cuja substância e estrutura não pode apenas ser ignorada, mas precisa ser destruída na ordem de alcançar a total libertação metafísica." [14]

Essa alienação do mundo material é a postura moderna. Estar interessado em comércio e coisas materiais é evidência de anti-intelectualismo para os neoplatônicos. A "Natureza" como uma abstração é honrada, mas a natureza está divorciada da realidade material, do mundo da dura necessidade material, em favor da natureza como uma expressão do espírito.

Entre os beatniks e então os hippies, esse desprezo do materialismo e da carne tomou a forma clássica da negligência para com a vestimenta, cabelos despenteados, e corpos sujos, e uma sexualidade que tratou o sexo com desprezo. O sexo para muitos estava divorciado da moralidade, exceto a moralidade existencialista do espírito livre dando valor ao momento. O sexo significava "amor" nesse sentido fugaz e existencialista, não no sentido difícil, sentido material de trabalho e suporte, um dono de casa e seu trabalho, fidelidade, uma atenção às necessidades físicas, ou coisas desse tipo. Essas coisas eram vistas como estrangulações materialistas do espírito, do amor. A separação neoplatônica de corpo e espírito estava muito longe.

Na medicina, a falha em não reconhecer a natureza bíblica da mente e do corpo conduziu a uma crise. De acordo com Pedro Entralgo, um professor de história da medicina, a medicina Ocidental, a despeito do progresso científico, está em um grave e contínua impasse" porque ela "tem sido habilidosa pra considerar o mal humano apenas do ponto de vista do lado 'físico' do ser humano, se é que ela não alcançou o extremo da identificação da 'natureza' ou physis com 'corpo'. A tentativa de escapar dessa perspectiva - Paracelsus, Van Helmont, a medicina do Romantismo - foram tão inefetivas quanto extraviadas." [15]

O homem nunca deixou de ser material pelo desprezo ao corpo; isso comumente tem agravado seu materialismo porque tem negado uma expressão normal, como em Wigglesworth. Similarmente, o homem nunca deixou de ser espiritual quando ele negou o espírito; em vez disso, ele tem caído vítima de uma tirania falsa e fanática do espírito, como em Marx.

O neoplatonismo conduz a um desprezo pelo tempo e pela história. Cornelius Van Til chamou atenção para o paralelo entre o desenvolvimento desde Aristóteles e Plotino e desde Descartes a Kant. Tais filosofias devem negar a fé bíblica tanto quanto possível, e em particular a encarnação, porque "Nada único pode ser identificado com qualquer coisa histórica." O mundo histórico, o mundo de matéria, não pode ser o mundo da encarnação em qualquer sentido bíblico. Tanto nas filosofias antigas quanto nas modernas, isso é igualmente verdadeiro:


"No caso de cada uma dessas, o suposto homem autônomo primeiro assume que pelos poderes de sua lógica ele pode determinar o que pode ou não pode existir. No verdadeiro estilo de Parmênides, ele determina que não pode haver tal coisa como uma experiência realmente significativa. Não pode haver criação fora de nada. Não pode haver encarnação do Filho de Deus. Se ele é o Filho de Deus, então ele é um princípio eterno imutável.Se o filho de Deus torna-se igual a um homem com Jesus, então ele acidentalmente caiu de seu estado de divindade e precisa ser ele mesmo salvo pela absorção em si mesmo como um princípio eterno. 


Quando, portanto, os gnósticos amigavelmente procuravam relações com o Cristianismo e chamaram-se a si mesmos de Cristãos, isso era, em última instância, quer eles conhecessem completamente a si mesmos ou não, um esforço do homem natural de absorver o Reino de Deus dentro do reino de Satã."[16]

Onde quer que exista qualquer elemento neoplatônico, a Bíblia é desentendida e mal interpretada. O homem está amputado em sua capacidade de reconhecer a natureza da realidade e está cego às questões morais básicas de sua existência.

No pensamento não-cristão, o Neoplatonismo desumaniza a vida porque ele nega a individualidade em favor dos universais; e ele procura pôr fim à história e instituir uma ordem não-temporal, ou, desesperado com isso, ele nega os universais em favor dos particulares e exalta o momento como a única realidade.

O Neoplatonismo, pela sua falsa interpretação da natureza e da psicologia do homem, também tem trabalhado para desumanizar o homem. Nas ordens Marxistas, o objetivo é encarnar a razão científica na ordem política e despi-la de considerações materiais e passionais. Os líderes soviéticos, tais como Stalin e Molotov, adotaram esses novos nomes para indicar sua transcendência de sua antiga natureza: eles eram agora aço e martelo no serviço da pura razão da vontade geral da história.

A estudada ausência de raízes da educação moderna depois de Locke, a mente como uma tábua em branco, um conceito que é subliminar nas psicologias modernas, incluindo o Comportamentalismo (Behaviorism), é um desenvolvimento neoplatônico. O quadro-negro limpo da mente pode supostamente ser desenvolvido dentro de uma impassível, racional e científica mente que funciona como pura razão. O resultado líquido da fantasia neoplatônica é que ela produziu, com sua dialética, o moderno diabolismo. Na tentativa de transcender a humanidade, o homem neoplatônico precisou declarar guerra contra a humanidade. Nietzsche afirmou que o Cristianismo era uma fé que negava a vida, apenas para ele mesmo produzir a fé que mais negava a vida na história do Ocidente. O homem deveria ser destruído para abrir caminho para o Super-homem, uma ficção impassível e um monstro que negava a vida. Em "A Genealogia da Moral", Nietzsche afirmou que o ideal ascético era o "ódio do que é humano, e mais ainda do que é animal, e mais ainda do que é material." Com grande clareza, ele viu a questão, e, com palavras marcantes, resumiu o objetivo mortal do ideal ascético. Em vez de um desejo pela vida, isso era claramente um desejo pela morte, ou para o Nada:


"... este horror dos sentidos, da razão em si mesma, esse medo da felicidade e da beleza, este desejo de sair de toda ilusão, mudança, crescimento, morte, esperança e mesmo desejo - tudo isso significa - a vontade pelo Nada, uma vontade oposta à vida, um repúdio das condições mais fundamentais de vida, isso ainda é e continua sendo uma vontade! - e dizer no fim o que eu disse no começo - o homem desejará o Nada no lugar de não desejar coisa alguma." [17]

Mas o próprio Nietzsche veio a desejar a morte e o Nada como um bom neoplatônico. Ele negou o homem, e ele negou Deus, em favor do mito da razão, o Super-homem. Negando Deus, ele negou a igualdade nivelada dos homens diante de Deus, porque os homens estão diante de Deus, não em termos de suas obras, mas da graça e trabalho de Deus. Porque Nietzsche afirmou que Deus estava morto, a igualdade entre os homens estava falida. "Foi assim que Deus morreu: agora nós desejamos - que o Super-homem viva."[18] O homem deve ser superado. O sentimento de Nietzsche a respeito do "populacho - um amontoado: - aquilo desejou ser o senhor de todo o destino humano - Ó, nojo! Nojo! Nojo!" [19] Nietzsche derramou seu desprezo e ódio do homem em nome do Super-homem, uma ficção de sua imaginação neoplatônica. Ele cita ainda o "último pecado" ou tentação de Zarathustra, o campeão do Super-homem. É o "companheiro de sofrimento". Ele rejeita essa tentação: 


" 'Companheiro de sofrimento! Companheiro de sofrimento com o homem superior!' ele chorou, e seu semblante mudou desavergonhadamente "Bem! Aquilo - teve seu tempo! 


'Meu sofrimento e meu companheiro de sofrimento - o que importa sobre eles?! Então eu me esforço pela felicidade? Eu me esforço pelo meu trabalho!...'"[20]

Nietzsche terminou com "um repúdio das condições de vida mais fundamentais." Ele terminou com um repúdio do homem e de qualquer paixão pelo homem. O homem pra ele, como para todos os neoplatônicos, era o homem abstrato de suas imaginações, quer seja chamado de homem ou Super-homem. Em todo caso, o neoplatonismo está em guerra contra a realidade. Ele sonha em brincar de deus e recriar o homem, mas em seu sonho, o homem torna-se o monstro Frankenstein, uma impossibilidade em cujo nome o homem real deve ser sacrificado. Em sua forma mais moderada, ele ainda despersonaliza o homem, como testemunha Thomas More permitindo que suas filhas fossem examinadas nuas como gado por um pretendente antes que o homem fizesse sua escolha entre uma delas. Nisso, More foi fiel ao modelo que ele defendeu em sua Utopia.

Essa guerra contra a humanidade torna-se muito audível na vida, pensamento e ação do século XX. O objetivo da sexualidade de Henry Miller é em grande medida anti-sexual. Por sua própria decisão, o objetivo é ser "inumano", e o homem deve "arrancar suas entranhas" e tornar-se impassível:


"Lado a lado com a raça humana corre uma outra raça de seres, os inumanos, a raça de artistas que, resolutos por impulsos desconhecidos, tomam a masse sem vida da humanidade e pela febre e pelo fermento com que eles imbuem-os, transformam essa massa encharcada em pão e pão em vinho e o vinho em canção. Fora do amontoado de mortos e da covardia inerte, eles respiram uma música contagiante. Eu vejo esta outra raça de indivíduos despojando o universo, colocando tudo de baixo pra cima, seus pés sempre movendo-se em sangue e lágrimas, suas mãos sempre vazias, sempre agarrando avidamente por algo além, pelo deus fora de alcance: assassinando tudo o que podem no intuito de aquietar o monstro que atormenta suas partes vitais. Eu vejo que quando eles despenteiam seus cabelos o esforço para compreender, de capturar o irrealizável, eu vejo que quando eles berram como bestas enlouquecidas e rasgam e chifram, eu vejo que isso é certo, que não existe nenhum outro caminho a trilhar. Um homem que pertence a essa raça deve erguer-se no mais alto lugar com palavras incompreensíveis em suas bocas e rasgar suas próprias entranhas. Isso é certo e justo, porque nós precisamos! E tudo que cai rapidamente nesse espetáculo assustador, qualquer coisa menos estremecida, menos aterrorizante, menos louca, menos intoxicada, menos contagiante, não é arte. O resto é falsificação. O resto é humano. O resto pertence à vida e à ausência de vida.


Quando eu penso em Stavrogin, por exemplo, eu penso em algum monstro divino ocupando um alto lugar e arremessando suas entranhas rasgadas em nós. Em The Possessed, a terra treme: isso não é a catástrofe que sucede ao indivíduo imaginário, mas um cataclismo em que uma grande parte da humanidade é enterrada, exterminada pra sempre." [21]

Esse Super-homem neoplatônico deve mover-se sempre através de "sangue e lágrimas", atropelando a humanidade sob seus pés. Ele é um fracasso, diz Miller, se ele não é assassino e "contagiante"; ele é então "falsificação" e "humano", ele "pertence à vida e à ausência de vida", ao mundo passional do nascimento e morte em vez do mundo de pura razão, puro espírito, Geist, ou mente, pra usar os termos de Hegel. O objetivo é que "uma grande parte da humanidade" seja "enterrada, exterminada pra sempre."

Qualquer avaliação séria do século XX e suas guerras, seus campos de trabalhos forçados e campos de concentração, suas universidades e escolas, devem concluir que essa guerra está em progresso. Ela não cessará a menos que a filosofia que a fortalece seja desenraizada e o homem seja novamente colocado em seu lugar sob Deus e Sua soberana Palavra. Nas palavras de Van Til,


"O auto-testemunhado Cristo ainda alcançará vitória. Mas ele ganhará quando teólogos, filósofos e cientistas, e todos os que têm responsabilidade cultural, reassumirem o mandato dado a Adão de sujeitar a terra para o louvor de seu Criador e Redentor." [22]

O neoplatônico tem um ódio amargo da vida, porque ele nem é seu autor nem pode controlá-la; portanto, ele procura destruí-la, e poucos são honestos como Miller para expressar sua vocação para destruir e matar. Como a Sabedoria declarou há muito tempo, "Mas o que pecar contra mim violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte." (Pr 8:36)

Enquanto alguns neoplatônicos trabalham para a morte do homem, outros proclamam-no uma ilusão. Dewey, na forma moderna, viu a psicologia humana como ilusória, como desprovida de importância; Mark Baker Eddy viu apenas a mente universal como realmente existente. Tanto o indivíduo quanto a matéria, como são para a Ciência Cristã, uma ilusão. De qualquer forma, salvação para esses e outros é sempre uma questão individual, e a Palavra de Deus não dá nenhuma evidência de um decreto tão geral e total. Os neoplatônicos que odeiam a vida estão então fadados ao desapontamento; eles podem encontrar algum consolo em seus pequenos e privados cantos do inferno.

(Artigo extraído de "Flight from Humanity", de Rushdoony. Págs. 61-70)

1. Karl Marx, Capital (Chicago: Charles H. Kerr & Co., 1909), III, 955.
2. Ibid., 954.
3. Isidor Schneider, From the Kingdom of Necessity (New York: G. P. Putnam's Sons, 1935), 450.
4. Karl Marx, Capital, Encyclopedia Britannica, edition, pt. III, 2, 89-90.
5. Gary North, Marx's Religion of Revolution (Nutley, N. I.: the Craig Press, 1968), 170.
6. Robert Payne, Marx (New York: Simon and Schuster, 1968), 266.
7. Ibid., 353-54.
8. Ibid., 342.
9. Ibid., 343.
10. R. H. Wilenski, The Modernist Movement in Art (New York: Thomas Yoseloff, 1957), 95.
11. Cesar Grana, Bohemian Versus Bourgeois (New York: Basic Books, 1964), 104.
12. Ibid.
13. Ibid., 145.
14. Thomas Molnar, Sartre: Ideologue of Our Time (New York: Funk and Wagnalls, 1968), 10-11.
15. Pedro L. Entralgo, Mind and Body (New York: P. J. Kenedy and Sons, n.d.), 112.
16. Cornelius Van Til, Christianity in Conflict (Philadelphia: Westminster Theological Seminary Syllabus, 1962), pt. I, 47-48.
17. Friedrich Nietzche, "The Genealogy of Morals", in The Philosophy of Nietzsche (New York: Modern Library, n.d.), 178.
18. Nietzsche, "Thus Spake Zarathustra" in ibid., 286.
19. Ibid., 287.
20. Ibid., 325.
21. Henry Miller, Tropic of Cancer (New York: Grove Press, 1961), 254-55.
22. Van Til, op. cit., 169.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.