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terça-feira, 8 de junho de 2021

APOLOGÉTICA CLÁSSICA x APOLOGÉTICA VANTILIANA


 
[Nota: Este texto é uma adaptação livre da argumentação de James H. Anderson, com acréscimos e ênfases meus.]

Vantilianos entendem que há uma diferença fundamental entre (1) conhecer a existência de Deus e (2) demonstrar a existência de Deus. A demonstração da existência de Deus (2) é a preocupação dos apologetas. É aqui que a diferença entre a apologética vantiliana e a apologética clássica se torna mais clara.

Tomistas, conforme veem os vantilianos, tendem a opor (1) e (2) em alguma medida. Para aqueles, uma coisa é a prioridade ontológica de Deus e outra é a prioridade sensorial no conhecimento. Parafrasearei aqui uma ilustração do Dr. Howe, tomista, porque ela é muito boa.

- Imagine o mapa do Brasil e o caminho que leva à cidade fictícia de São Bernardo das Canetas. A cidade de São Bernardo precisa existir antes que exista um mapa que mostre o caminho àquela cidade, e para encontrá-la, nós precisamos antes de um mapa. 

Deus existe antes do conhecimento que o ser humano pode ter de Deus. A forma como conhecemos a existência de Deus não tem nada a ver com a prioridade ontológica de Deus, porque Ele criou o mundo. Destarte, a nossa epistemologia, o caminho pelo qual nós acabamos conhecendo a Deus não quer dizer nada sobre a prioridade metafísica de Deus. 

O tomista portanto entende que, para conhecer a existência de Deus, nós não podemos "começar" com Deus em si. Nós devemos começar pelos sentidos e pela razão. Pequena confusão ocorre em decorrência da equivocidade dos termos. O que um sistema de pensamento chama de racional pode ser diferente do que outro sistema de pensamento chama pelo mesmo nome. Clark, por exemplo, diria que Tomás tem uma pitada de empirismo, o que chocaria um tomista. Contudo, ele não quer dizer que Tomás é um empirista no sentido moderno. Clark reconhecia duas fontes na epistemologia tomista [v. "Três Tipos de Filosofia Religiosa"]. É talvez seguro dizer que no tomismo o conhecimento começa pelos sentidos [v. Etienne Gilson]. Essa é a razão própria do argumento do Motor Imóvel. Começando pelos sentidos, sem qualquer referência à Revelação especial de Deus, seria possível concluir a existência d'Ele. Em suma, Deus é anterior ontologicamente, mas posterior epistemologicamente. Deus existe antes do nosso conhecimento de Deus, mas Deus não existe no começo do nosso conhecimento. Da mesma forma como na figura do Dr. Howe, São Bernardo das Canetas só é descoberta no fim da estrada que trilhamos seguindo o mapa.

Essa é a base para a acusação de argumento circular de tomistas contra pressuposicionalistas, que estes (ao menos nos EUA) já debateram até os limites da paciência. Alguns tomistas, como Geisler e Sproul (segundo uma fonte secundária à qual recorri), disseram então que vantilianos confundem a "ordem do ser" (metafísica) com a "ordem do conhecimento"(epistemologia). Quando fazem isso, porém, eles já estão dentro de um esquema basicamente tomista. A apologética clássica busca apelar à "razão natural", à razão (neutra) que não precisa recorrer à Bíblia, aquela que todo ser humano supostamente possui e na qual pode haver um suposto diálogo "racional", para conduzir o não-cristão ao Deus cristão. Essa "razão natural", eles entendem, é o ponto comum entre todos os seres humanos, e seus argumentos são supostamente o que Paulo queria dizer em Romanos 1. Ou seja, para os tomistas, Deus não pode ser conhecido "diretamente", mas apenas "indiretamente", por seus efeitos - com exceção do conhecimento advindo da Revelação.

Para alguém educado no tomismo, essa questão não é motivo de controvérsia. 

Mas voltemos à distinção entre (1) e (2). Uma coisa é conhecer a existência de Deus e outra é demonstrá-la. E nesse ponto, mesmo indivíduos simpáticos a Van Til podem cair no erro de confundir a premissa de um argumento com a pressuposição de um argumento. 

Um argumento genuinamente vantiliano não é: (a) O Deus da Bíblia é o Deus verdadeiro; (b) (segunda premissa); portanto (c) o Deus da Bíblia é o Deus verdadeiro. 

A apologética pressuposicionalista é antes de mais nada uma crítica transcendental (que transcende, vai além do que é imanente, do que alcançamos pela experiência e pelos sentidos). A apologética vantiliana não confunde a ontologia e epistemologia exatamente porque depende precisamente da diferenciação das duas. Van Til apresenta um argumento basicamente epistemológico para chegar à conclusão metafísica em forma de argumento transcendental. Ele busca mostrar que o Deus Triúno é uma condição sem a qual o conhecimento é impossível. Ele busca levar o não-cristão aos fundamentos do conhecimento humano. Dados os efeitos do pecado, a Palavra de Deus é tomada como necessária para o correto entendimento da metafísica, e somente o Deus Triúno fornece a precondição sólida para que o conhecimento humano exista. De forma que um pressuposicionalista poderia dizer a grosso modo: (a) você experimenta o bem e o mal em sua vida, apesar dos efeitos da Queda; (b) isso não aconteceria caso o Deus cristão não existisse; portanto, (c) Deus existe. Ou: (a) se Deus não existisse, você não saberia que Bolsonaro é presidente do Brasil; (b) você sabe que Bolsonaro é presidente do Brasil; portanto, (c) Deus existe.

Então, em certo sentido, Van Til também começa pela razão e pelos sentidos. Ele assume que existe conhecimento humano, que ele é possível; e só é possível por causa do Deus Trino. Onde está então a diferença? Na autoridade

Voltando à analogia do mapa do Dr. Howe, o que um vantiliano argumentaria? Ele concorda que Pindaíba precisa existir antes do mapa que leva a essa cidade fictícia. Ele apenas pergunta: quem fez o mapa? Como é possível que um mapa exista? Ora, alguém fez esse mapa. É preciso que um profissional tenha feito as medições e o reconhecimento da área para que depois pudesse fazer o mapa. O vantiliano dirá: "o mapa não tem autoridade em si mesmo"! "Ora, e quem disse que você está lendo o mapa corretamente"? 

É necessário entender as siglas do autor do mapa. Você precisa entender todos os signos. Por isso, você só pode ler o mapa corretamente caso você conheça algo que o autor do mapa escreveu. 

A apologética pressuposicional, portanto, não nega a diferença entre metafísica e epistemologia, mas, pelo contrário, reforça a sua interdependência. Se você é um americano e não sabe a medida do quilômetro (americanos usam "milhas"), pode ser que você não coloque gasolina suficiente no carro, ou que você entre na curva errada.

Trocando em miúdos: se imaginarmos que nossa cidade fictícia é Deus , o mapa seria os sentidos e a razão humana e as pressuposições do autor do mapa (sistema métrico) são a Revelação Especial de Deus, ou melhor, as pressuposições genuinamente cristãs derivadas dessa Revelação.

Cornelius rejeita a apologética tradicional porque, em última instância, ela é inconsistente em seu propósito, entendendo que um cristão não pode usar uma epistemologia não-cristã esperando ter resultado cristão consistente. Em algum lugar, mesmo que não pareça, a coisa vai dar errado. E para Van Til é impossível que não dê, em virtude dos fundamentos. Para ele, ainda, utilizar a epistemologia correta, por razão do reconhecimento da autoridade última, é também um problema ético. Quem tem mais autoridade para ler o mapa? Quem conhece os signos do autor do mapa ou quem não conhece?

Compreenda-se, pois, que tomistas e vantilianos discordam sobre a interpretação de Romanos 1 e 2.

domingo, 16 de maio de 2021

Raízes históricas do pressuposicionalismo

 


Toda epistemologia, toda teoria do conhecimento, tem uma base metafísica, i.e., descansa sobre um conceito de ser. Mas também sobre uma fé pré-teórica, com respeito à autoridade última. Todo ser humano começa com um ato de fé e raciocina segundo essa fé. 

O descrente começa com uma fé que nega Deus. Descartes começou com a existência de si, para só depois tentar provar a existência de Deus. A existência de Deus seria ou não comprovável por sua epistemologia. O cristão, de outro lado, começa com a crença de que Deus é. 

Nos primeiros séculos é muito difícil encontrar autores que tenham desenvolvido um sistema epistemológico, mas há casos dignos de atenção e menção.

Vantilianos assumem que a epistemologia não-cristã entrou muito cedo na igreja, com os convertidos oriundos da Grécia e de Roma. Muito comumente eles traziam suas pressuposições consigo. Um exemplo é Justino Mártir (110 a 165d.C.), um teólogo que merece não apenas respeito, mas honra em diversos aspectos. 

Justino foi um dos primeiros apologetas, um defensor da fé, e um dos primeiros a tocar na questão da epistemologia. Para ele, por exemplo, ser cristão e ser racional eram praticamente sinônimos, razão pela qual ele colocava Sócrates e Heráclitos em altíssima estima, ao lado de Abraão, a quem chamava de "bárbaro". 

"E aqueles que viveram racionalmente são cristãos, mesmo que fossem ateístas; como entre os gregos, Sócrates e Heráclito, e homens como eles. E entre os bárbaros, Abraão, e Ananias, e Azarias, e Misael, e Elias, [...]" [1]
Não apenas Justino identificou injustificavelmente o ser cristão com a razão, mas ao chamar até mesmo o patriarca Abraão de "bárbaro", temos evidência de que aquele apologeta, no segundo século, ainda falava como um grego nesse quesito. 

A linha pressuposicionalista, por outro lado, afirma-se herdeira de Tertuliano e principalmente de Santo Agostinho. Cornelius Van Til escreveu especialmente sobre Agostinho. Sua visão sobre a Trindade como solução para o problema do Universal e dos Particulares foi um resultado de seus estudos sobre aquele Pai da Igreja. E Van Til defendia que Agostinho, em sua fase madura, abandonou os pontos mais essenciais de Platão.

Na Idade Média, temos Santo Anselmo. Em seu Proslogion, começa  confessando que sua razão não levou-o a lugar algum. concluindo em sua oração que ele "não procuro entender o Senhor para crer, mas eu creio para que possa entender."

Voltando à linha que pode ser traçada até Justino Mártir, na Idade Média surgiu, primeiro, Abelardo, e depois Santo Tomás de Aquino, trazendo Aristóteles para a Cristandade.

Em Anselmo e Aquino há o crescimento da polarização que começou séculos antes e é aqui, na Baixa Idade Média, que o ponto de ruptura entre as duas premissas se aproxima. Vantilianos entendem que Anselmo conduziu à Reforma e ao calvinismo, enquanto a tradição de Abelardo/Tomás de Aquino conduziu à Contra-Reforma, ao arminianismo e ao modernismo [que é colocado aqui como um resultado da crise interna dos motivos-básicos do Escolasticismo e pela semelhança epistemológica, embora reconheça-se algumas diferenças fundamentais].

A CONTROVÉRSIA EM TORNO DE CALVINO.

O extenso debate sobre Calvino entre as duas tradições é delicado. Vantilianos e calvinistas tomistas querem o reformador para si. Encontra-se em Calvino elementos que várias das correntes posteriormente desenvolvidas usam para provar que o reformador francês era pertencente a sua própria linha: simpáticos e antipáticos ao Escolasticismo, supralapsarianos e infralapsarianos, tomistas e pressuposicionalistas, etc. são alguns exemplos. 

Cada uma dessas correntes defende que nas obras do reformador de Genebra é possível encontrar elementos nos quais a autoridade do francês serve como endosso para a autoridade e historicidade de sua própria pressuposição. 

Um grande problema, porém, jaz em todas essas controvérsias: tais reclamações só podem ser sólidas diante de uma exegese da obra do próprio Calvino - algo nada fácil de se fazer. Sobre determinados temas, Calvino não dá opiniões exaustivas, razão pela qual parte da argumentação dos partidários em disputa necessita de uma dose de especulação. 

A controvérsia mais "atual" diz respeito ao posicionamento do reformador em relação ao Escolasticismo, que tem tudo a ver com o tema deste texto. Para os interessados nessas questões fora da academia, toda a questão parece carecer de um ponto de partida fundamental. A maioria dos comentadores ignora perguntas que deveriam ocupar as primeiras preocupações.

1. Afinal, o que é Escolasticismo?

2. Qual é a diferença, se existe, entre Escolasticismo Católico Romano e Escolasticismo Protestante?

Sem essas respostas, nenhuma conclusão sólida pode ser alcançada, pra começar.

A falta de comentários exaustivos de Calvino acaba abrindo espaço para o que vou chamar aqui de "imputação conceitual". Em vários lugares, o reformador fala de "lei natural", de "luz da razão natural" (ou "razão universal"), ou de "testemunho da natureza". Muitos estudiosos, portanto, rapidamente podem imputar suas próprias opiniões sobre Calvino a partir do uso dessa linguagem. "Se Calvino falou de luz natural da razão, ele está falando do que eu entendo por luz natural da razão".

Em virtude da falta de explicação detalhada, os calvinistas mais ligados ao tomismo têm, com justiça, a seu favor, a presunção de que devemos entender o posicionamento de Calvino segundo a opinião predominante em sua época, o que é bastante plausível. Se tomarmos esse aspecto em específico, sem uma exegese mais profunda, os vantilianos parecem em desvantagem. Tal tem sido a linha de argumentação de defensores da apologética clássica contra Van Til.

Alguns argumentam em meio a essa disputa que "Escolasticismo" deve ser entendido apenas como "método" teológico, sem compromissos teológicos e filosóficos específicos, como um conjunto de parâmetros para a discussão de tópicos doutrinários. Dentre estes, há aqueles que mostram, por exemplo, que Calvino utiliza a estrutura de disputas que se vê facilmente em Tomás de Aquino. Levanta-se também a utilização de terminologias distintamente escolásticas, às quais me referi dois parágrafos atrás. Dizem, ainda, que Calvino supostamente fez comentários de acordo com as "provas" tomistas para a existência de Deus, especialmente a noção genérica de que a existência de Deus pode ser conhecida a partir de seus efeitos, na relação de causa e efeito e nos momentos em que o reformador se refere ao "testemunho da natureza".

Em suma, tais estudiosos entendem que as opiniões vantilianas sobre esse tema não passam de mitos.

Não obstante, a compreensão dos argumentos pressuposicionalistas por parte de McGrath, Sproul, Fesko e outros é bastante questionável, do meu ponto de vista. Vantilianos argumentam basicamente que, apesar do uso desses termos tradicionais, Calvino tem um entendimento diverso daquele que antecedeu-o.

Mesmo vantilianos reconhecem que Calvino falou sobre um conhecimento "natural" de Deus, bem como de "lei natural". R. J. Rushdoony pessoalmente criticou Calvino e Lutero especificamente no tópico do jusnaturalismo. A dúvida, porém, é se Calvino entendia esses conceitos da mesma forma que os tomistas entendem. Lembremos que Calvino não teve a mesma educação teológica de Lutero. Quais foram os efeitos dessa educação diferenciada, se é que houve algum? E é esse o ponto onde vantilianos consideram-se sucessores de Calvino. Em geral, é motivo de dúvida se o próprio Van Til discordaria das muitas citações do reformador que são usadas contra sua própria obra.

Quando Van Til defende um rompimento de Calvino com o Escolasticismo, está se referindo, antes, a uma quebra em relação à tradição Escolástica influenciada por determinadas suposições filosóficas. Em certos textos, o filósofo holandês usa o termo "teologia escolástica", referindo-se mais especificamente a algo que inclui uma teologia específica, mais do que um simples método ou terminologia. Se há pontos de contato entre Calvino e o Escolasticismo enquanto método, não é algo com o que Van Til teria problemas.

Estava Calvino utilizando-se conscientemente de um método escolástico? Ele via a si mesmo nesse contexto? Em primeiro lugar, o estilo da escrita de Calvino era mais próximo do estilo dos humanistas de sua época do que do estilo escolástico.

Doutor Fesko, por exemplo, aponta um comentário do Salmo 19 de Calvino como evidência de que ele seguia a epistemologia tomista tendo as "provas" tomistas como exemplo. O texto do comentário, porém, diz apenas que a "criação os direciona aos atributos de Deus." Desculpem-me os tomistas, mas tal citação é muito inconclusiva. Vantilianos não negam que há uma revelação na natureza que conduz aos atributos de Deus; eles apenas interpretam tal revelação de forma diversa daquela dos tomistas. 

Nem mesmo há uma negação absoluta dos vantilianos em relação a uma "teologia natural" - o importante é que não seja a tomista ou moderna. Mas será que Calvino tinha em mente todo o aparato metafísico aristotélico de Tomás?

Ao contrário de Tomás, que no segundo tópico da Suma tratou da existência de Deus (onde inseriu as "cinco provas"), Calvino em nenhum momento se preocupou em dar respostas "racionalistas" para a existência de Deus, nem nas Institutas, nem, até onde meus estudos permitem, em lugar algum.

Vantilianos não negam que exista uma diferença entre o "conhecimento natural de Deus" e o "conhecimento fornecido pela Revelação Especial". Entretanto, quando os tomistas falam do "conhecimento natural de Deus", eles estão falando da teologia natural segundo a tradição tomista. Van Til, ao contrário do que afirmam alguns de seus acusadores, nunca disse que o não-cristão não pode aprender absolutamente nada de genuíno, nem que o cristão não pode aprender absolutamente nada do descrente. James H. Anderson cita um comentário do holandês a respeito de Calvino.

"'Então [Calvino] completa: "Não obstante, os esforços humanos não são sempre totalmente infrutíferos a ponto de não conduzirem a algum resultado, especialmente quando a atenção deles é direcionada a objetos inferiores [mundanos]. Nem, mesmo em relação a objetos superiores [divinos], embora eles sejam mais descuidados na sua investigação, eles deixam de fazer algum tímido progresso. Aqui, contudo, sua habilidade é mais limitada, e ele nunca está mais consciente de sua fraqueza do que quando tentam ir além da esfera da vida presente'.

Desta citação podemos ver que Calvino está querendo dizer que todas as interpretações do homem natural são em última instância igualmente insatisfatórias, que existe um sentido no qual ele tem algum conhecimento sobre tudo, sobre Deus e sobre o mundo, e que nesse sentido ele sabe mais sobre o mundo do que sobre Deus. Esta distinção não é apenas verdadeira, mas fundamental que se faça. Muitos descrentes têm sido grandes cientistas. Comumente descrentes têm um conhecimento melhor das coisas deste mundo do que cristãos têm.

(...)

A única distinção que realmente nos ajudará é aquela que Calvino desenvolveu, a saber, que de um ponto de vista último o homem natural não conhece nada 'verdadeiramente', mas de um ponto de vista relativo, ele sabe algo sobre todas as coisas."

Como Anderson enfatiza, o pensamento de Van Til tem muito mais nuances do que enxergam seus críticos. Van Til explica que, mesmo tendo algum conhecimento até mesmo sobre a divindade, em última instância, o conhecimento do descrente é inválido.

James H. Anderson tem estudado todos os livros escritos contra Van Til e encontra neles abundância de interpretações fracas e - mais importante - absolutamente nenhuma novidade. 

O vantilianismo não é sequer totalmente incompatível com diversos argumentos cosmológicos. Na verdade, em pelo menos uma ocasião[2],  Gordon Clark zombou de Van Til precisamente por essa razão.

Historicamente temos também de lidar com o Escolasticismo Protestante. Em termos de método, qual é a objeção feita pelos vantilianos? Muito pouca. As criticas vantilianas focam os aspectos pelos quais o Escolasticismo tornou-se paulatinamente racionalista.

Finalmente, a existência de pontos de contato entre Calvino e Tomás não deveria sequer ser motivo de surpresa. A verdade é que, como bem demonstrado no livro "Origens Intelectuais da Reforma Protestante", de McGrath, em muitos sentidos, a Reforma é uma herdeira, um fruto das discussões escolásticas. Nem em qualquer momento se duvida que há discordâncias importantes em determinados temas entre o filósofo católico romano e o reformador francês. 


Fica a questão: especificamente em Calvino, até onde existia Tomás em seu pensamento?

Entre os claros pontos de concordância e os claros pontos de discordância há um hiato de incertezas que só podem ser diminuídas com estudo diligente - algo que leitores "leigos" de facebook não podem fazer. 
A controvérsia a respeito de Calvino e Escolasticismo é um tema sério que não pode ser debatido sem um rigor apropriado, com exegese do próprio campeão francês. 

NOTAS:
[1] ver "First Apology", V. Citado por R. J. Rushdoony, em "Word of Flux", p. 37.

[2] ver "Em Defesa da Teologia", de Gordon Clark. Clark não cita Van Til nominalmente, mas é a ele que Clark se refere ironicamente quando diz esperar por argumentos cosmológicos que o holandês não forneceu. 

Vitor Marques

segunda-feira, 18 de maio de 2015



CRIACIONISMO E PSICOLOGIA 
por R. J. Rushdoony.

A psicologia humanista nos dá uma doutrina do homem em desacordo radical com as Escrituras. Para os clérigos, tornou-se rotina olhar para psicologias humanistas como guias para o aconselhamento pastoral, e livros aplicando essas psicologias para os problemas pastorais têm tido um mercado receptivo e uma ampla influência. O resultado tem sido a constante infiltração nociva do humanismo em círculos cristãos e a erosão paulatina das doutrinas bíblicas do homem e da salvação.

Ao analisarmos a doutrina bíblica do homem e da psicologia do homem, é necessário, em primeiro lugar, reconhecer que do homem é declarado ser uma criatura, criado pelo ato soberano de Deus no sexto dia da criação (Gênesis 1: 26-31 ). Este fato nos dá um quadro radicalmente diferente do homem do que o fornecido pela evolução. Ao invés de emergir do caos e de uma ancestralidade animal, o homem é o trabalho direto e imediato de Deus.

Isto significa, em segundo lugar, que o homem tem uma história curta, não um passado longo e desconhecido. Essa história curta é muito amplamente documentada pela Escritura, bem como pelos registros do próprio homem. O homem é, portanto, sujeito à explicação por um registro documentado, não um passado longo e hipotético. Este registro documentado faz toda desculpa e evasão menos sustentável, enquanto um passado desconhecido corrói a responsabilidade e introduz confusão e incerteza. Assim, para o cristão, a psicologia do homem é um registro documentado.

Em terceiro lugar, em virtude do fato da criação seguir um padrão, o eterno propósito e conselho de Deus, (e à sua imagem), a psicologia do homem não é um fato em evolução, mas uma realidade fixa. O homem é mais do que um ser existente que está em processo de elaboração e definição de si mesmo; ele já foi feito e definido por Deus. Assim, a psicologia do homem posta por Freud, [1] ou por Sartre, [2] e outros, é falaciosa. A natureza do homem não é fixada por um passado evolutivo, nem por uma questão em aberto a ser determinada pelo homem. É um fato dado por Deus.

Em quarto lugar, o homem foi criado um ser maduro, não uma criança. Este é um fato de importância central. Nós, portanto, não podemos fazer psicologia infantil como base para a compreensão do homem. De acordo com Jastrow,


"O que podemos aceitar é o princípio de que a criança é uma autêntica encarnação da mais antiga, racialmente mais velha, mais persistente, mais autêntica natureza, guardiã da psicologia comportamentalista (behaviorista) natural." [3]

A psicologia humanista olha para trás, para um passado primitivo, a fim de explicar o homem, ao passo que a psicologia bíblica não olha nem para a criança nem para um passado primitivo para explicar o homem, mas para uma criatura madura, Adão, e para o propósito de Deus na criação do homem. Se o homem em sua origem é um produto de um passado evolutivo longo, o homem é, então, melhor compreendido em termos do animal, o selvagem e a criança. No entanto, desde que o homem era em sua origem uma criação madura, sua psicologia é melhor compreendida em termos de fato. Os pecados e falhas do homem não representam um primitivismo persistente ou uma reversão para a infância, mas uma deliberada revolta contra a maturidade e contra os requisitos da maturidade. Atribuir ao homem, como psicologias humanistas fazem, um substrato básico de primitivismo e infantilidade racial, é dar a essa revolta contra a maturidade uma justificativa ideológica; a estudada e desenvolvida imaturidade do homem é incentivada e justificada de forma madura. Se o homem é lembrado, sim, de que foi criado em Adão para a maturidade e responsabilidade e que sua revolta é contra a maturidade e responsabilidade, sua auto-justificação é quebrada. Tornou-se comum para as pessoas procurarem aconselhamento para discutir, não o seu problema, mas sua infância, seus pais e seu ambiente, a fim de "explicar" a sua presente "situação", isto é, o seu fracasso. O fato de uma criação madura é um dos fatos básicos e mais importantes de uma psicologia bíblica. É um fato de importância incalculável.

Em quinto lugar, o homem foi criado um ser maduro nos termos do propósito soberano de Deus, de modo que o sentido da vida do homem transcende o homem. O homem nunca pode ser entendido em termos de si mesmo, mas apenas por referência ao propósito soberano de Deus. A psicologia humanista sempre nega essa transcendência e, portanto, nega ao homem o sentido da sua existência. O Existencialismo é mais honesto aqui do que a maioria das filosofias e psicologias humanistas; mas ele nem define o homem nem atribui um significado à vida e do homem: "O homem é." Para o Existencialismo, se o homem é qualquer coisa, é porque o homem molda e define a si mesmo. Esta auto-definição é essencialmente um processo anarquista, em que cada homem é seu próprio universo e o deus daquele universo privado. Segundo as Escrituras, entretanto, o homem foi criado, e todo homem nasce dentro de um já definido universo feito por Deus, e cada um tem uma responsabilidade específica para com o Deus Triúno e aos homens e ao universo feito por Deus. Não apenas a existência do homem é um fato criado e definido, mas as condições de sua vida também são. Em nenhum ponto de sua vida ou a imaginação pode o homem pular fora de ordem ordenada de Deus para um reino de liberdade humanista ou liberdade feita pelo homem. A liberdade do homem é em si uma condição da Criação de Deus. Cada fio de cabelo na cabeça do homem, toda a imaginação de seu coração, e cada fibra de sua vida e experiência, é um aspecto da Criação de Deus e de Seu propósito soberano.

Em sexto lugar, o homem foi criado à Imagem de Deus. Como Van Til apontou,


"Ele é portanto como Deus em tudo em que uma criatura pode ser como Deus. Ele é como Deus no fato de que ele também é uma personalidade. Isto é o que queremos dizer quando falamos da Imagem de Deus no sentido mais geral e mais amplo. Em seguida, quando queremos enfatizar o fato de que o homem se assemelha a Deus especialmente no esplendor de seus atributos morais, dizemos que quando o hoemem tinha conhecimento verdadeiro quando foi criado, verdadeira justiça e verdadeira santidade. Esta  doutrina é baseada no fato de que nos é dito no Novo Testamento que Cristo veio para nos restaurar ao verdadeiro conhecimento, justiça e santidade (Colossenses 3: 10; Ef. 4: 24). Chamamos isso de Imagem de Deus no sentido mais restrito. Estes dois sentidos não podem ser completamente separados um do outro. Seria realmente impossível pensar que o homem foi criado apenas com a Imagem de Deus no sentido mais amplo; cada ato do homem primeiramente tem que ser um ato moral, um ato de escolha contra ou a favor de Deus. Portanto, o homem, em cada ato de conhecimento, deveria mesmo manifestar verdadeira justiça e santidade verdadeira.

Então, depois de enfatizar que o homem era como Deus e na natureza do caso, tinha que ser como Deus, devemos salientar o ponto de que o homem deve ser sempre diferente de Deus. O homem foi criado à Imagem de Deus. Nós vimos que alguns dos atributos de Deus são incomunicáveis. O homem nunca pode em qualquer sentido superar sua condição de criatura. Isso coloca uma conotação definida na expressão de que o homem é como Deus. Ele é como Deus, com certeza, mas sempre em uma escala de criatura. Ele nunca pode ser como Deus em asseidade, imutabilidade, infinitude e  unidade. Por essa razão, a Igreja tem encravada no coração de suas confissões a doutrina da incompreensibilidade de Deus. O Ser e o conhecimento de Deus são absolutamente abrangentes; tal conhecimento é maravilhoso demais para o homem; ele não pode alcançá-lo. O homem não foi criado com conhecimento abrangente. O homem era finito e sua finitude não era originalmente fardo algum para ele. Nem poderia o homem jamais esperar atingir um conhecimento abrangente no futuro. Não podemos esperar ter um conhecimento abrangente, mesmo no céu. É verdade que muito que agora é mistério para nós nos será revelado, mas na natureza do caso, Deus não pode revelar-nos aquilo que como criaturas nós não podemos compreender; teríamos de ser nós mesmos Deus, a fim de entender Deus na profundidade do seu ser." [4]

O homem foi criado bom, porque ele foi criado à Imagem de Deus. Portanto, justiça, santidade, conhecimento e domínio são normativos para o homem. Pecado não é natural, é uma deformação da natureza do homem, um câncer e uma doença até a morte. "Assim, nós sustentamos que o homem apareceu originalmente com uma consciência moral perfeita." [5] O homem, criado à imagem de Deus, "teve que viver por revelação." Desde que o homem é criatura de Deus, todas as condições de vida do homem e cada fibra do seu ser deve responder à Palavra lei de Deus para a sua saúde.


"Essa é, então, a diferença básica e fundamental entre epistemologia cristã e não-cristã, na medida em que tem uma influência direta sobre questões de ética, que, no caso da atividade moral do homem de pensamento não-cristão é considerada como criativamente construtiva, enquanto no caso do pensamento cristão a atividade moral do homem é considerada como sendo receptivamente reconstrutiva. De acordo com o pensamento não-cristão, não há personalidade moral absoluta a quem o homem seja responsável e de quem ele tenha recebido sua concepção do bem, enquanto de acordo com o pensamento cristão, Deus é a personalidade moral infinita que revela ao homem a verdadeira natureza da moralidade." [6]

Em sétimo lugar, tendo Deus criado o homem à Sua Imagem, ordenou-lhe que exercesse domínio e subjugasse a terra. Este é o chamado básico do homem e um aspecto básico de sua natureza. Assim, não só a natureza do homem é criada por Deus, mas a vocação do homem para o domínio está escrita na natureza do homem. Inevitavelmente, o homem é aquela criatura que foi criada para exercer domínio sobre a terra e sujeitá-la, para criar ferramentas e instituições cujo propósito é capacitar o homem para trazer todas as coisas ao seu desenvolvimento apropriado no Reino de Deus. O homem foi criado maduro para que ele pudesse exercer domínio com sua primeira respiração, e a vocação para o domínio é uma parte do seu sangue vital. "Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés" (Sl 8:6). Este fato do domínio condiciona a vida do homem, sua obediência, bem como sua desobediência. Não pode haver compreensão da psicologia do homem fora de uma consciência dessa inescapável vocação ao domínio, o que, no homem pecador, torna-se uma forma de guerra contra Deus. Nenhuma psicologia pode começar a compreender o homem fora deste aspecto da natureza do homem, o chamado para o domínio. O fato é, porém, que as psicologias humanistas negam a criação do homem em maturidade e deixam de reconhecer o significado da sua vocação para o domínio. Como resultado, eles não só não conseguem entender o homem, mas eles também dão uma falsa ilustração do próprio homem.

Em oitavo lugar, somos informados de que "homem e mulher os criou" (Gn 1:27). O caráter sexual de homens e mulheres não é um produto cego e acidental da evolução, mas o propósito de Deus e base para qualquer entendimento do homem. As tentativas de negar a validade dos regulamentos sexuais bíblicos, para interpretar a homossexualidade como uma expressão de um desenvolvimento primitivo ou como outra forma de livre expressão sexual do homem, ou para negar as diferenças psicológicas entre um homem e uma mulher, são, portanto, moralmente, bem como psicologicamente erradas. Os fatos da masculinidade e da feminilidade são básicos e constitutivos do propósito de Deus para a humanidade, e qualquer psicologia que nega-os é assim estéril e carente de entendimento. Ironicamente, os humanistas, que condenam os padrões bíblicos como puritanos e repressores, são eles próprios culpados dos piores repressões em sua negação das diferenças sexuais e de sua validade psicológica. O igualitarismo de psicologias humanistas provoca uma castração básica da natureza sexual do homem e da mulher e é uma grande força repressora na sociedade moderna.

Em nono lugar, básico para a psicologia do homem é o mandato da Criação, "Sede fecundos, multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a" (Gn 1:28). Este mandamento é precedido, no mesmo versículo pela declaração: "E Deus os abençoou." O mandamento em si é uma bênção, e o ato de obediência a todos os mandamentos de Deus é, em si, uma fonte de bênção.

Básico para a natureza do homem criado por Deus, originalmente totalmente bom, é o desejo de ser fecundo e multiplicar. A psicologia do homem como criado por Deus é, portanto, regulada pelo presente motivo, e, ainda que pervertido, este motivo não pode ser destruído sem destruir o homem. A hostilidade a esta fertilidade marcará assim uma era suicida.

O mandamento deixa claro que esta fertilidade é um aspecto do domínio do homem: "Enchei a terra e sujeitai-a." Das crianças, o Salmo 127: 3 diz que elas "são herança do Senhor." Uma herança significa duas coisas: Qualquer coisa recebida dos pais ou predecessores, e também o estado ou condição em que nascemos. Como uma "herança do Senhor" as crianças são, portanto, a nossa herança de Deus, bem como uma condição feliz da vida na Aliança. "Bem-aventurado é o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, quando falarem com os seus inimigos à porta" (Sl 127: 5). Não só a Escritura, mas a experiência da história deixa claro que a fertilidade tem sido vista como um aspecto de domínio e como um aspecto da glória do homem.

Em décimo lugar, é duas vezes indicado no relato da Criação (Gn 1: 26, 28) que um aspecto do domínio do homem é sobre o mundo animal, "sobre toda coisa vivente." O homem foi criado, assim, com um relacionamento com os animais estabelecido como normativo para sua psicologia saudável. A relação do homem para com os animais não é, portanto, de guerra, mas de domínio. O fato de que homens pecadores têm tratado animais meramente como um obstáculo a ser destruído não conseguiu apagar eficazmente a vocação do homem para um domínio normativo sobre eles. Os homens têm domesticado e aproveitado animais, utilizados como animais de estimação, protetores, e servos, e eles têm muitas vezes reconhecido que os animais selvagens têm uma função dada por Deus para trazer a terra sob o domínio.

Em décimo primeiro lugar, o homem foi criado para viver em um mundo perfeito e para cultivá-lo e mantê-lo (Gn 2:15). Assim, a psicologia do homem tem como básica uma relação com a própria terra, que é reforçada pelo fato de que o homem foi formado a partir do "pó da terra" (Gênesis 2:7) e depois feito alma vivente. O homem é portanto ligado à terra, física e psicologicamente. A terra é a área do seu domínio, o lugar para que sua fertilidade seja manifestada, e seu tesouro para desenvolver a ordem que Deus exige dele.

Estes são alguns dos aspectos elementais e elementares da psicologia do homem. O homem foi criado na maturidade, e seu pecado é uma tentativa resoluta e fútil de fugir da maturidade. No entanto, enquanto o homem pode falhar em cumprir suas responsabilidades, ele nunca pode escapar delas.

(Artigo extraído de "Revolt Against Maturity", de Rushdoony. Págs. 5-12)

1. Ver RJ Rushdoony: Freud. Philadelphia: Presbyterian & Reformed Publ. Co., 1965. [Publicado no Brasil pela Editora Monergismo]
2. Jean-Paul Sartre: Being and Nothingness. New York: Philosophical Library, 1956.
3. Joseph Jastrow, "The Reconstruction of Psychology," in The Psychological Review, #3, 1927, p. 169, cited in Cornelius Van Til: Psychology in Religion, p. 58. Philadelphia: Westminster Theological Seminary, 1935.
4. Cornelius Van Til: The Defense of the Faith, p. 29f. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1955.
5. Ibid., p. 70.
6. Idem.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.


Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.