sábado, 12 de maio de 2018

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA

[Reflexões sobre uma aula de R. J. Rushdoony.]

O desprezo da igreja pelo conhecimento profundo da história e por uma interpretação bíblica dela tem um alto preço. O cristianismo, de todas as religiões do mundo, é a mais conectada à história. A história do cristianismo é também uma história da criação-queda-redenção da humanidade. Em todos os momentos, Deus ordena que o povo recorra à memória de sua história:

"E lembrar-te-ás de que foste servo no Egito; e guardarás estes estatutos, e os cumprirás." (Deuteronômio 16:12)

"Lembrar-te-ás". Moisés está dizendo: lembrar para obedecer. Lembre dos atos de Deus na tua história! Devemos ter memória a fim de ver a providência e a benção divina. O preço da ignorância histórica afeta a maturidade e a firmeza dos membros. Primeiro, porque falsos mestres vêm encher a cabeça dos jovens da igreja com caraminholas e mitos históricos a fim de fazê-los presas suas. Muitos jovens entram em apostasia por pura ignorância da história. Outros, perdem a fé quando, entrando na universidade, são atacados por uma interpretação humanista da história ocidental, passando a pensar como modernos.

Segundo, porque a ignorância histórica destrói as raízes do próprio povo. Os historiadores americanos escondem convenientemente, por exemplo, a participação de alguns cristãos na Guerra Civil, ou diminuem a influência cristã na formação dos Estados Unidos. Eles têm seus próprios pressupostos. Isso tem criado uma geração cristã sem memória, fadada a repetir os erros do passado. Precisamos conhecer a história dos origenistas a fim de evitar os erros de Orígenes. É muito interessante, por exemplo, a percepção de Gordon Clark em "Uma Visão Cristã dos Homens e do Mundo", quando ele diz que o Ocidente, em especial a América, esqueceu o porquê de sua luta por liberdade, razão pela qual estava prestes a perdê-la. A memória fortalece a prudência, nos mostra bons caminhos e nos alerta para os maus. Segundo, semelhantemente, isso nos conduz ao nível pessoal: devemos nos lembrar dos erros do passado a fim de vermos a mão de Deus em nossa vida.

Não se trata de substituir a graça de Deus pelo "conhecimento histórico", mas de reconhecer que o conhecimento histórico pode ser, em si, fruto da graça, para fortalecimento da igreja.

OS MILAGRES DA FÉ ATEÍSTA


"O ateu é o verdadeiro crente em milagres: geração espontânea, algo que veio do nada, evolução em vez de involução, e mais. Ele nega as fundações do conhecimento, e sua fé descansa mais em milagres do que a fé de qualquer outra pessoa. Seus milagres são realizados por ninguém, violam toda a causalidade conhecida e são a epítome do absurdo."


- R. J. Rushdoony.

IMPOSTOS E IGREJA

IMPOSTOS E IGREJA.
"Se os EUA tentassem taxar cidadãos e organizações canadenses, isso envolveria um requerimento de jurisdição, de autoridade legítima. Nós esperaríamos que os canadenses recusassem-se a pagar impostos aos EUA porque o requerimento de jurisdição é inválido. Semelhantemente, nós devemos recusar todos os requerimentos de jurisdição estatal sobre a igreja. A taxação de uma igreja é um requerimento de soberania sobre a igreja e sua cabeça, Jesus Cristo. Taxar a igreja é roubar a propriedade de Jesus Cristo, e dar renda a impostos é desistir do que não é nosso por direito."


- Mark Rushdoony.



De onde sairia o dinheiro dos impostos cobrados de uma igreja? Dos dízimos e ofertas. Mas dízimos e ofertas são propriedade de quem? De Jesus Cristo. Não de César. São de Cristo. Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Taxar as igrejas é taxar Cristo e sua obra.

Os projetos de lei que propõem o fim da isenção de impostos da igreja partem do pressuposto de que o estado é o supervisor de tudo o que existe, como a instituição suprema do mundo. Dentro da cosmovisão humanista, o estado assume este posto como a encarnação da razão, daquilo que há de mais elevado na natureza. Presume-se portanto que a isenção de impostos da igreja é uma graça estatal, uma concessão benevolente e que pode ser retirada. Contudo, a isenção de impostos da igreja não é fruto de um favor do estado, mas do reconhecimento da igreja como submissa a Cristo como rei, de quem recebe sua liberdade e sua garantia de existência. É uma conquista do Cristianismo ao longo dos séculos e ao custo de muito sangue. O estatismo crescente é resultado da expulsão de Deus da vida pública e, com Ele, da liberdade, pelas mãos de um estado que não deve satisfações a ninguém, exceto a seus devaneios utópicos e totalitários. O que o Ocidente entende por liberdade política (ou pelo menos entendia) é um fruto da antiga liberdade cristã, construída através dos séculos. Apenas Deus honrado em sua soberania pode limitar o Estado. [Reflexões sobre Rushdoony.]

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Quão triste é ver cristãos, talvez até querendo agradar os não-cristãos, submetendo-se a tal tirania! A alegação de que tais impostos serviriam para estimular a saúde e a educação é cínica e também dependente de pressupostos terrivelmente equivocados. Os maus pastores, como o Bispo Macedo e outros, têm sido usados como motivo para o fim da isenção de impostos. Que fique claro: isto é uma espécie de vingança. A punição para tais falsos pastores não é o fim da isenção de impostos, mas a excomunhão dos mesmos. A igreja precisa buscar mecanismos bíblicos para resolver estas aberrações, ao invés de render-se a um mecanismo anti-cristão e estatista.


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É verdade - e útil para o debate que se reconheça - que impostos sobre as igrejas favorecem exatamente os mercadores da fé como Macedo e Cia. e prejudicam as pequenas igrejas genuínas. No fundo, a querela pela taxação de igrejas nada mais é do que sadismo anti-cristão sob máscara de falsa piedade humanista. "Aceitem ser taxados por amor às criancinhas, seus malvados." Eles querem apenas prejudicar a religião de alguma forma. 


Devemos gritar: "Liberdade!" A igreja serve a Cristo, não a César. A soberania das esferas deve ser reconhecida. O fato também é que nossa geração esqueceu as razões que levaram o Ocidente a buscar liberdade e agora flerta com o deus-estado que de todos cobra sacrifícios, dízimos e ofertas.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

NOTAS SOBRE FEMINISMO

NOTAS SOBRE O FEMINISMO.

A questão não é feminismo x machismo, mas a soberania da Palavra de Deus. É a Palavra de Deus que deve criar a cultura, não as condições humanísticas. Eu não devo pensar "como homem, branco, sul-americano, or whatever", mas como cristão. A reorganização em classes, gêneros, etc., foi a tentativa humanista de retornar ao universal em um mundo afetado pelo atomismo iluminista depois da Revolução Industrial. A organização de um movimento feminista é posterior à destruição da unidade familiar pelo atomismo moderno. É a falsificação do verdadeiro conflito, e é a consolidação da exclusão da religião cristã como ordenadora.

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A destruição da família começou muito antes do feminismo, com a liberação *do homem* promovida pelo Iluminismo. Em  "A Verdade Absoluta", Nancy Pearcey explica que a desintegração da família e a ascensão do feminismo clássico sofreram não pequena influência dos efeitos da industrialização e da obra de Adam Smith. Adam Smith exaltou a competição e a luta pela sobrevivência no mercado de trabalho. Com a industrialização, os homens começaram a sair de casa para trabalhar fora, e eles deveriam se adaptar à nova forma de trabalho competitivo, onde as virtudes cristãs não eram valorizadas. Os homens começaram a sair de casa para o trabalho e as mulheres ficaram em casa. Às mulheres foi dado o papel de salvaguarda da moral e da religião enquanto aos homens foi dado o papel de portadores da vitalidade, energia e sexualidade. Esse foi o primeiro ataque à família. O mundo do trabalho tornou-se o mundo da competição e da luta, a vida pública regulada pela lei do mais forte; a religião foi deixada na esfera das inclinações pessoais, na vida dentro do lar. Contra isso, o testemunho histórico anterior fornece provas. As famílias geralmente trabalhavam unidas, marido e esposa. As profissões eram ensinadas entre gerações de uma mesma família. Lutero escreveu que "Quando o pai lava fraldas e faz outra tarefa simples para o filho ... Deus com todos os seus anjos e criaturas estão sorrindo." A família trabalhava unida e esse ideal de vida familiar podia ser visto em regiões do interior da Alemanha até a década de 60 do séc. XX, enquanto nos EUA durou somente até o séc. XIX. 

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A oposição entre cristianismo e feminismo vai muito além de uma mera luta contra conceitos subjetivos de "ódio", mas entre duas cosmovisões, entre conceitos distintos de autoridade, bem-estar e redenção. O feminismo radical pretende criar uma consciência coletiva que explora a indignação e cultiva a auto-justificação das mulheres, tidas como vítimas inocentes de uma cultura patriarcal que, supostamente, as prejudica. Seu questionável "status inferior" na sociedade Ocidental é usado pra gerar ódio e cooptar mulheres vítimas de violências particulares como massa de manobra para fortalecimento do estatismo e pela busca de poder. Se as mulheres sofrem por um "patriarcalismo" onde o homem tem o poder, a redenção das mulheres requer a exclusão deles da vida pública ou pelo menos o controle de sua participação. Objetivamente falando, o feminismo não se importa com a acusação que ele mesmo faz contra seus alvos, o "discurso de ódio", porque seu movimento sobrevive do ódio contra os homens. Você tem alguma raiva pessoal do seu pai ou de um homem com quem se envolveu? Culpe todos os homens.

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O feminismo associou-se ao relativismo moral e à revolução sexual. Ironicamente, depois da revolução cultural, o número de suicídio entre mulheres (e homens também) aumentou em cerca de 30%. Se não existem valores morais absolutos pelos quais se possa proteger a mulher, e defender o casamento como um instrumento fundamental para essa proteção, não há freio moral para o fim da violência contra a mulher. A própria Simone de Beauvoir recrutava jovens garotas universitárias para que fossem seduzidas por seu amante, Sartre. A violação contra consciências não é feita tanto mediante uma relação de verdadeiro respeito, mas de uma sedução sutil e aliciadora. O relativismo sexual é a causa primária para a "objetificação" da mulher no Ocidente dos nossos dias. O cinismo dos movimentos contraculturais filhos dos pós-freudianos da Escola de Frankfurt, que confundiam "amor" com "sexo", são diretamente responsáveis por isso. John Lennon, que popularizou o ideal hippie, pregava "faça amor e não faça guerra", mas espancava suas companheiras. O movimento feminista é cego e não vê que ele mesmo destrói as mulheres. A cosmovisão feminista é falsa e não enxerga a mulher como ela é, e por isso não pode evitar a violência contra ela.

Só através do retorno ao padrão bíblico de relação entre homem e mulher, elas podem ser realmente protegidas.

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O feminismo como uma forma de neoplatonismo.

No platonismo, as mulheres eram depreciadas porque eram vistas como seres mais emocionais do que racionais, já que o conceito helênico de Razão, em sua visão dualista de mundo, tendia a entender as emoções como fonte de sofrimento e a Razão como puro espírito. O contato entre a cultura helênica e o islamismo fez com quem esse último grupo tendesse a enxergar as mulheres como seres mais diretamente ligados ao pecado. No Cristianismo (nem no catolicismo - vide o lugar dado a Maria na religião romanista), tal visão perdeu força, visto que homens e mulheres são igualmente condenáveis diante de Deus. "Não há homem ou mulher", disse Paulo em Romanos. 

No feminismo hoje, essa tendência dualista inverte-se: as virtudes femininas são exaltadas e tidas como mais "puras e espirituais" que as encontradas nos homens. Em parte, isso deve-se à tendência emocionalista ocidental. Os índices de violência envolvendo os homens foram argumentos utilizados por algumas feministas. No campo profissional, as virtudes femininas começaram a ser vistas como mais importantes que as masculinas. Vemos isto refletido em palestras para empresas e muito mais.

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O feminismo e todos os movimentos de esquerda oferecem uma tentação sedutora aos jovens: a ilusão de heroísmo. Os cooptados por essas ideologias creem piamente nas próprias boas intenções e são convencidos de que estão lutando em favor de causas justas, sendo eles mesmos os representantes de uma humanidade evoluída e superior. Une-se a isso o desejo por autoafirmação que é próprio da adolescência, onde há também uma tendência de revolta contra a autoridade paterna, que muitas vezes representa a "velha ordem" a ser superada com seus preconceitos, suas caretices e suas regras retrógradas. Ser de esquerda é ser ''cool'', justo, vanguardista e baluarte do "progresso". Essa revolta é, em parte, um desejo de auto justificação. "Você não é mau! Os errados são seus pais e a sociedade, e toda a tradição que construiu o mundo 'hipócrita' em que você vive, jovem!" - lhes é dito. Quando você não se conhece e quer ser um herói, é muito mais fácil culpar os outros. Em suma, a esquerda é um prato cheio de frutos da carne - de orgulho, ignorância e falta de temperança - que é muito mais apetitoso e fácil de ser digerido do que uma Verdade que garante que você é cheio de maldade, totalmente depravado e condenável diante de Deus, necessitado portanto do perdão de Alguém que no fundo da consciência você sabe que é infinitamente melhor do que você.

quinta-feira, 10 de maio de 2018



O OCASO DA JUSTIÇA

O humanista do século XXI não tem base para defender um conceito de justiça. "Deus está morto", e com Ele estão a moral, a punição e a justiça. A "verdade" e a "moral" já não existem mais; elas nunca passaram de padrões de dominação de uma classe sobre as outras. Se há quem cometa crimes, eles o fazem por não terem recebido "educação" suficiente, ou suficientes condições materiais. Se esta é supostamente a raiz do problema, a solução também precisa ser necessariamente outra. Se o estado tem uma antropologia distinta da antropologia cristã, não reconhecendo, por exemplo, a realidade do pecado original e a responsabilidade humana, ele entenderá seu papel de forma igualmente distinta.

Como C.S. Lewis comentou em "The Humanitarian Theory of Punishment", o antigo conceito de punição foi substituído por um conceito de "reabilitação". A pena capital, outrora aplicável sem titubeios em qualquer país ocidental (e ainda hoje em vários outros países do mundo) em casos como o do goleiro Bruno, condenado por matar, esquartejar e esconder o corpo da ex-companheira, agora é vista como desnecessária, como uma espécie de vingança intolerável pelos habitantes daqueles países ditos civilizados, i.e., humanistas "pós-cristãos". A pena capital para crimes como o dele seriam exemplos de barbárie e primitivismo -  e para o humanista, o único primitivismo bom é o primitivismo sexual. Os humanistas, é claro, julgam-se mais cristãos do que os cristãos e mais bondosos e compassivos do que o próprio Deus. 

Lewis argumenta ainda que transgressões morais agora são vistas como "doenças", como reações indevidas que corrompem aquela natureza toda bondosa do homem. Os magistrados, portanto, tendem a fornecer terapias psicológicas ou "educação" no lugar de justiça e pagamento do débito para com a sociedade. Para o humanista, como diversas vezes nos alertou R. J. Rushdoony, a "educação" substituiu o papel do Espírito Santo. Levada a cabo, tal teoria conduz à lavagem cerebral sofrida por Alex, personagem do livro - e do filme homônimo - Laranja Mecânica, para corrigir seu comportamento.

Temos visto, consequentemente, a substituição de juízes por sociólogos e o crescimento vertiginoso do controle psicológico da população como medida preventiva e salutar


Não é esta, porém, a natureza da função dada por Deus às autoridades civis. As autoridades detém um ministério de espada. Se a justiça não é cumprida, significa que a autoridade civil não está cumprindo sua obrigação para com Deus. O resultado disso será a proliferação da maldade e a progressiva desordenação social. Paulo escreveu isso em Romanos 13. É Novo Testamento.

O abandono do padrão bíblico produziu uma classe de criminosos profissionaisA Bíblia não dá guarida aos tais. Deus exigia que eles fossem retirados do meio do povo e sua punição serviria como medida educativa para os demais, para que "vissem e temessem". Algumas punições, portanto, têm um propósito que transcende o que um humanitarista é capaz de compreender.* 

Contra a visão cristã verdadeiramente bíblica, os humanistas alegam que o verdadeiro cristianismo requer piedade, mas a Escritura requer piedade da vítima, não de assassinos.

Se abandonamos o nosso padrão, abandonamos o padrão pelo qual uma sociedade pode funcionar. A Lei de Deus foi dada para que a sociedade funcione conforme seu propósito inicial, reparando os efeitos da Queda. Sua aplicação não eliminará completamente os crimes, muito menos os pecados, mas evitará que cheguemos onde o Brasil chegou: ser conhecido como a nação mais violenta do mundo.

*Na igreja neotestamentária, os crimes puníveis na lei eram substituídos pela excomunhão, com o mesmo propósito, dada a situação da igreja sob a jurisdição romana.

sábado, 28 de abril de 2018



A PERGUNTA REVOLUCIONÁRIA

Enquanto cristãos, cremos que Deus criou todas as coisas e a todas elas deu um fim específico segundo sua Vontade. Deus criou toda a realidade com sua diversidade, estrutura, coerência e ordenou-a um propósito. A pergunta que para mim foi revolucionária, levantada na obra de Cornelius Van Til, é: 

- Será que Deus também ordenou um meio adequado para interpretarmos a realidade?

Quando vamos à Escritura, vemos que a serpente tentou Eva afirmando que Deus era mentiroso. Aquilo que Eva e Adão pensavam de si mesmos era, em última instância, uma mentira criada por Deus porque, segundo a serpente, Deus não queria que eles "abrissem os olhos" e fossem "como Ele (Deus)". Para que isso fosse possível, seria necessário existir um mundo de ideias onde habitasse uma "verdade mais verdadeira" do que aquela ensinada por Deus aos nossos representantes federais (Adão e Eva), um mundo de ideias anterior a Deus. Eva deveria abdicar da interpretação dada por Deus e dar à realidade uma outra interpretação, baseada em um objeto da imaginação criado por sua razão autônoma a partir da sugestão da serpente. Nesta nova interpretação, Eva poderia ser uma deusa. Eva criou um objeto da própria imaginação que se realizaria no futuro. Eva adorou uma falsa imagem de si mesma; ela adorou aquilo que a própria imaginação criou. Isso necessariamente conduz a uma séria de consequências terríveis, como, por exemplo, uma nova forma de interpretação da história. Adão e Eva não eram criaturas de Deus criadas para serem regentes da criação para a Glória do Criador, mas eram criaturas "livres", autônomas, que poderiam evoluir até igualarem-se a Deus. Rejeitar a Palavra de Deus para a interpretação da realidade está na estrutura pela qual o Pecado Original foi possível.

Mas como não pode existir nada antes de Deus, ou superior a Deus, nem há em Deus opostos, pois tais opostos seriam coeternos e, por conseguinte, um deus mau e também eterno, Deus é necessariamente infalível. Como explica o fiel vantiliano R. J. Rushdoony nesta questão, a Palavra de Deus é a fonte da Verdade. Deus diz de Si: "Eu sou a Verdade" (Jo 14:6). Deus é a única fonte correta pela qual se interpretar a realidade. A Palavra de Deus é infalível, porque Deus é infalível. Ela é verdadeira; Deus afirma não mentir (Nm 23:9). A Palavra de Deus, como disse certa vez um professor, é parte da mente de Deus revelada aos homens. N'Ela Deus revela o que Ele pensa do homem, o que Deus pensa de Si mesmo e o que Deus planeja para o futuro, bem como o que Ele fez no passado e até mesmo aquilo que Ele decidiu na eternidade. (Ef 1:4)

Dessa forma, a verdadeira interpretação da realidade precisa das premissas dadas por Deus. O homem não pode interpretar que o homem é meramente um animal político, como Aristóteles fez, ou como uma máquina biológica, como fazem os behavioristas. Se Deus criou o ser do homem, seu propósito, seu significado, a verdade sobre o homem existe em plenitude apenas na mente de Deus.

Sola Scriptura é muito mais do que um conceito para a teologia; é a única saída possível para que haja conhecimento objetivo. Toda a metafísica cristã não pode ter uma visão sobre o início do conhecimento compartilhando a visão pagã a respeito do assunto. Cada epistemologia requer sua própria metafísica. Uma epistemologia não-cristã requer uma metafísica não cristã.

O ser do homem foi dado por Deus e deve ser interpretado a partir de Deus. Como Nancy Pearcey afirma, para Calvino, a metafísica deve vir da Palavra de Deus, porque Deus deu o ser do homem e criou todas as coisas. O que Deus pensa sobre a realidade é a Verdade sobre a realidade.


Esse é o único meio pelo qual podemos REALMENTE dizer que a Teologia é a Rainha das Ciências.

sexta-feira, 23 de março de 2018


NOTAS SOBRE BUDISMO E PÓS-MODERNIDADE.

NOTA 1: O naturalismo não provê sentido para o sofrimento humano. Se Deus não existe, a vida não tem sentido e o sofrimento também não tem. Essa é uma das razões, do meu ponto de vista, que alimentam a atração que o budismo exerce especialmente entre alguns jovens ocidentais. 

A doutrina de Buda, com suas "4 Nobres Verdades", consegue convencer superficialmente aqueles que não encontram uma orientação diante das dores da vida. As coincidências, é claro, vão além da questão do sofrimento. No budismo, o universo também é movido por forças impessoais (o karma), assim como na cosmovisão mecanicista moderna. 

Para o budismo, o universo é eterno, mas passa por períodos de contração e expansão, nos quais um ser dentre muitos nasceria como Brahma (uma espécie de deus criador) que criaria um conjunto de mundos. Esse deus criador também poderia morrer e renasceria, em seguida, em um reino celestial para aqueles que têm mérito até que outro ser, através do acúmulo de méritos, renasceria como o próximo Brahma. Embora Buda defendesse a existência deste deus criador, o universo, em última instância, não é criado por um Deus pessoal e por isso o budismo é a mais niilista das religiões. Esse deus Brahma, por não ser eterno, onisciente ou onipotente, não pode sustentar as causas necessárias para a felicidade eterna; no budismo, a felicidade e a riqueza são frutos dos méritos de vidas anteriores. Como pode haver paraíso eterno sem um deus igualmente eterno e onipotente capaz de prover as condições necessárias? A vida no budismo é, em si mesma, sofrimento, por não ter sentido. A busca da felicidade se transforma, ela mesma, em uma prisão, na qual os seres enredam-se cegamente, em vez de buscarem a "libertação" do Nirvana. 

O Cristianismo, por outro lado, provê um sentido para o sofrimento. Mais do que isso, o cristianismo promete a Vida Eterna, de felicidade eterna, na presença da Santíssima Trindade. Um Deus eterno, onisciente e onipotente pode criar uma vida eterna e a eterna felicidade: por pura Graça. E isso o budismo não tem.


O absurdo, do meu ponto de vista, é que a cultura moderna - narcisista e orgulhosa de sua questionável superioridade ante o passado e o pensamento religioso - tenha resumido estupidamente a realidade à ênfase sobre a técnica, tenha fracassado tão flagrantemente em responder questões tão fundamentais como a postura que devemos ter diante da morte de um ente querido ou de uma perda financeira. Nesse universo sem sentido, e também sem padrões pelos quais estabelecer uma hierarquia de valores, não deveria ser assustador que a necessidade humana básica pulsante na Imago Dei, a necessidade de julgar entre a futilidade e a relevância, conduza milhares de jovens a entrarem em crises existenciais constantes por não terem um iPhone de última geração; a confundirem qualquer correção paterna com uma opressão fruto de uma maldade "masculina" do sistema patriarcal que remonta a um passado sombrio e mitológico. Outra alternativa para o homem não-cristão é a rebeldia pró-vida de Albert Camus, que lutou para livrar o homem do dilema do suicídio em tal mundo onde até a beleza perece ante a insignificância do mundo. Ou se pode lutar por uma revolução mundial que transforme o mundo no "novo Éden" desprovido de sofrimento pelas mãos do estado messiânico. Também é possível, para os mais céticos, reconhecer que a própria felicidade é em si uma esperança vã, abandonando tal jornada supersticiosa para apegarem-se ao hedonismo. Mas alguns destes, mais sensíveis, acabam encontrando no budismo uma forma aparentemente coerente de entender a questão do sofrimento. São estes, do meu ponto de vista, os que mais se atraem pelas doutrinas de Sidarta Gautama, o Buda.

Sem Deus, o homem moderno acaba tendo que escolher entre o suicídio, o Nirvana, as esperanças auto-hipnóticas ou a tentativa de criar um grande berço estatal, onde os bebês protegidos pelo papai estado são guardados do frio, do calor e da necessidade de trabalhar. A pós-modernidade está desesperada e devemos esperar dela toda a loucura de que um desesperado é capaz.


NOTA 2: O "pessimismo" cristão que marcou a mentaIidade ocidentaI tem base na doutrina do pecado e na miséria humana produzida por esse pecado, que o torna cego e desafinado para o propósito de si, do mundo e da relação entre ambos. O pessimismo pós-moderno, em contrapartida, tem uma base no fracasso do homem moderno em atingir aqueIe objetivo de abarcar a totaIidade do mundo e o significado da existência em sua pequenina razão Iimitada que, jogada numa diaIética com o sofrimento agora sem consoIo por causa do encIausuramento imanentista, conduz a uma síntese de desespero existenciaI simboIizada em sua percepção do absurdo. As esperanças progressistas da modernidade cederam espaço por uma grande dose de "experiência" - das quais as duas Guerras Mundiais e os genocídios do século XX são as principais - que as derrubou, uma a uma, como mitos, marcando a pós-modernidade com esse sentimento de aversão a toda forma de ordem e verdade; uma espécie de iconocIastia. A pós-modernidade tem um aspecto iconoclasta contra a modernidade. 

Talvez possamos averiguar se muito dessa virada de direção ocidentaI seja fruto, antes, de uma sutiI infIuência budista em obras de homens como Schopenhauer, depois transformada por Nietzsche, ao mesmo tempo em que Nietzsche rejeita e inverte a atitude por eIe juIgada niiIista do budismo. Em suma: se tudo é mesmo uma grande porcaria sem sentido, vivamos ao máximo! E é aqui que eu penso que o cristianismo pode encontrar uma porta - e já tem encontrado - para seu retorno. Só o cristianismo pode dar sentido ao caos e sanar a ansiedade existenciaI dos nossos dias.