segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O PARAÍSO DAS MULHERES por R. J. Rushdoony



 

O PARAÍSO DAS MULHERES

Por R. J. Rushdoony



A calúnia muda sua base sem demora, porque ela está mais preocupada com o que vai machucar do que com a verdade. Em eras diferentes, acusações diferentes machucam mais. O que em um período pode ser uma acusação dolorosa pode se tornar uma honra em um outro dia.


Isso era certamente verdade de Calvino, e da Genebra nos dias de Calvino e no seu tempo de influência. Como Gilliam Lewis e Roger Stauffenegger pontuaram, a Genebra de Calvino ficou conhecida como “o paraíso das mulheres”. ("Calvinism in Geneva in the Time of Calvin and of Beza (1545-1605)," in Menna Prestwich, ed.: International Calvinism 1541-171.5, p.49. Oxford, England: Clarendon Press, [1985] 1986.) Havia boas razões para isso. Calvino foi um forte defensor dos “direitos das mulheres”. Sob sua liderança, os consistórios da igreja foram atrás dos abusadores domésticos. Eles processaram guardiões que desapropriaram fundos de pensão de órfãos e viúvas. Esposas abandonadas foram protegidas, e assim por diante. Prestwich referiu-se à atração do calvinismo para as mulheres nessa área ("Calvinism in France, 1555-1629," in ibid., p. 96.)


Naquela era, e por séculos anteriores, homens e mulheres prósperos e poderosos contraíram matrimônio com muitas jovens mulheres e homens. As famílias dos jovens consentiam com esses arranjos por suas vantagens pessoais. Calvino sentiu profundamente que esses casamentos não deveriam ser permitidos. Em janeiro de 1557, o Consistório dissolveu o casamento entre uma mulher com “mais de 70 anos” e um homem de 27 ou 28. (Philip E. Hughes, ed: The Register of the Company of Pastors of Geneva in the time of Calvin, p. 321. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1966.) Leis foram publicadas para proteger ambos homens e mulheres no casamento. Para evitar fraudes, muitas leis foram estabelecidas. Assim, “estrangeiros vindos de um país distante” não tinham permissão de casar em Genebra antes que uma cuidadosa investigação sobre seu passado e sua família fosse feita. (Hughes, p. 75.) Uma mulher perseguida por sua fé podia legitimamente deixar seu marido. (Hughes, p. 197.)


Seria um erro dizer que os pastores de Genebra sempre foram sábios em julgamentos de casos envolvendo mulheres. O que está claro é que a Genebra Calvinista era vista em seus dias como “o paraíso das mulheres” por causa da receptividade de Calvino e outros para seu empenho e necessidade de justiça. Havia uma razão para essa atitude. Ela era o reavivamento do Velho Testamento como uma parte inseparável da Bíblia; o Novo Testamento era lido como uma parte essencial do Velho Testamento.


E porque o Velho Testamento liga solidamente a santidade à lei, e a lei está preocupada com a vida diária, o resultado foi o que Henri Hauser chamou de “secularização da santidade”, i.e., a santidade foi feita matéria da vida diária para todos os crentes.  A santidade agora era um objetivo de todos os cristãos. Isto era, nas palavras de Luthy, uma “insistência na vida santificada como objetivo de todos os crentes.” (Herbert Luthy, "Variations on a Theme by Max Weber," in Prestwich, p. 381) Calvino disse de Lucas 6:35 que é nosso dever fazer o bem sem fazer nada em troca; nós devemos exercitar uma bondade nobre, não mercenária, por termos recebido graça, nós deveríamos portanto manifestar graça. (Calvin: Harmony of the Evangelists, I, p. 302f.)


Nós temos um fato notável aqui na reforma que Calvino promoveu em Genebra. Ela era uma cidade corretamente chamada em seus dias de “paraíso das mulheres”. Este é um aspecto da Reforma para o qual foi dada atenção insuficiente.  A razão é que essas reformas nas leis civis e eclesiais que fizeram Genebra tão notável em seus dias estão agora associadas ao “patriarcalismo”, e patriarcado é uma palavra odiada pela feministas (tanto as de saias quanto as de calças). Ela sugere uma visão de opressão masculina, dominação e regra. Ela tornou-se símbolo de males passados e presentes.


O fato significante, entretanto, é que aquele “patriarcalismo” não era centrado no homem, mas centrado na governança da fé e da família. Homens modernos na família atomística comumente têm maior poder, se eles escolherem exercê-lo, do que tinham os homens “patriarcais”. A razão é muito clara: o “homem patriarcal” era um administrador do passado para o futuro. Em I Reis 21, nós vemos que Nabote não sentiu que ele tinha o direito de vender as terras da família, não importasse quanto dinheiro o rei Acabe oferecesse. A terra não era sua exceto como uma confiança de seus antepassados para os não-nascidos. 


O apelo da vida existencial é que ele limita todo o poder e direito ao momento presente. O “homem existencial(ista)” não vê responsabilidade para com o passado ou para com o futuro, nem para com qualquer coisa momentânea que não seja seu desejo e vontade. É por isso que, dada qualquer oportunidade, o "homem existencial” é sempre tirânico e opressivo: ele fará o que fará com a segurança de não incorrer em nenhum julgamento imediato. Tanto o poder quanto o “direito” são limitados ao momento e à sua vontade. O que não acontece com o “homem patriarcal”. Ele é ligado a responsabilidades, à família e a outras pessoas. Sua esposa é sua parceira e vice-gerente nas responsabilidades e ambos precisam estar orientados em direção ao futuro. 

O feminismo, como o machismo, são existencialistas e orientados em direção ao presente. Não têm qualquer senso de comunidade ou de harmonia de interesses. Tanto feministas quanto machistas acreditam que existe uma guerra dos sexos e saem para vencer essa guerra.  Como bons darwinistas, eles acreditam na sobrevivência do mais apto numa guerra cósmica pela sobrevivência. Desde que o universo não tem lei ou moralidade em sua fé, os mais aptos são simplesmente os sobreviventes,  aqueles cuja radical ausência de raízes e preocupação por moralidade os habilita para sobreviver.
Para todas essas pessoas, o patriarcado é uma armadilha, porque ele pressupõe, a despeito da Queda e da depravação humana, a sumidade e triunfo da Lei de Deus. O universo é então um universo moral. Como Débora declara em sua canção, “Até mesmo as estrelas lutaram! Deixaram as suas órbitas para pelejarem contra Sísera.” (Juízes 5:20)

Uma cultura bíblica, "patriarcal", vê o conflito essencial da vida como um conflito moral, não um conflito pessoal. Como estudante, eu escutei um professor, não favorável ao “patriarcalismo”, chamar sua característica principal de hospitalidade, e abertura para as pessoas. Ele citou como reveladoras a resposta de Abraão aos três estranhos: ele convidou-os a compartilhar seu sal e sua vida. (Gênesis 18)

O atomismo social moderno, contudo, vê todos os homens como inimigos e transforma o mundo em um lugar hostil. Classe é colocada contra classe, e raça contra raça. Woodrow Wilson, eleito presidente dos EUA, enquanto estudante de Princeton, compartilhou o ódio de estudantes contra jovens da cidade, chamados de “esnobes” em Princeton, e escreveu, “Nós ainda precisaremos matar alguns daqueles esnobes antes que eles aprendam a ter prudência.” (Jonathan Daniels, "Woodrow Wilson's Pious Young," in The New Republic, October 29,1966, p. 28; vol. 155, no. 18.) Wilson, é claro, não tinha qualquer plano de assassinato, mas ele gostava de pensar nesses termos.  Não surpreendentemente, ele ajudou a avançar a causa do conflito de classes.  Mesmo que ele sonhasse com um mundo tornado seguro pela democracia, ele avançou as divisões sociais com seu pensamento.

A cultura bíblica, "patriarcal", é agora muito desprezada por aqueles que, como humanistas, odeiam soluções morais. Para eles, nossos problemas não devem ser diagnosticados como rebelião contra Cristo e contra a Lei de Deus,  mas como um problema de conflitos econômicos, tensões entre classes, e condicionamentos sociológicos de uma natureza regressiva e sociopática. Calvino é pra eles um símbolo de respostas ruins, e um livro recente vê Calvino essencialmente como um homem “doente”! O livro fala-nos mais sobre o autor do que sobre Calvino.

Citei em certa ocasião, numa preleção, o trabalho do bispo St. Charles Borromeo, cujo trabalho era “dar dotes de matrimônio para garotas sem dinheiro cujo destino de outra maneira seria as ruas,” e ainda a pensionatos para pessoas de ruas em seus dias, orfanatos, uma casa para ex-prostitutas, e uma casa para mulheres casadas desventuradas. (Margaret Yeo: Reformer: St. Charles Borromeo, pp. 115, 228f. Milwaukee, Wisconsin: Bruce, 1938.) A resposta às vezes é fria. Problemas “sociais”, muitos afirmam, deveriam ser administrados pelo estado, não por “amadores”.

Quando nós despersonalizamos os problemas de homens e mulheres, nós também despersonalizamos a nós mesmos. Reduzimos as pessoas a cifras matemáticas cujas respostas estão nos atos do Congresso ou do Parlamento. Nós negamos Cristo e o Cristianismo em favor do estado e seus assistentes sociais. Borromeu em Milão e Calvino em Genebra deram-nos outra resposta.

Mas para muitos hoje, Genebra não poderia ser o “paraíso das mulheres”. Afinal, Genebra não tinha nenhuma Emenda de Direitos Iguais! Paulo nos diz, entretanto, que “Onde está o Espírito, aí há Liberdade.” (II Cor 3:17), e este é o Espírito que nos deu a Lei e os Evangelhos. Se nós não buscamos nossas respostas no Senhor e em Sua Palavra, nós somos parte do problema.
 
Rushdoony, Roots of Reconstrution, p. 407.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A PARANOIA INTERPRETATIVA ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA

A PARANOIA INTERPRETATIVA, ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA
por Vitor Barreto.
Revisão: Fabrício Tavares.


[Nota: Infelizmente, o texto a que nos referimos é fruto de todo um trabalho que tem sido construído dentro do conservadorismo brasileiro, especialmente em sua matriz católica, contra o protestantismo. Que ele sirva de alerta para os líderes reformados no nosso país.]

A onda conservadora tupiniquim, ainda tão adolescente – se é que chegou na adolescência –, mostra os ares de sua imaturidade no texto “Calvino e a Mentalidade Revolucionária”, escrito pelo senhor Luís Fernando Pessoa, professor de História Antiga e Medieval da Universidade Estadual de Maringá, PR. Esperava eu, quando me foi enviado o referido texto, encontrar algum trabalho acadêmico respeitável e não uma peça de desinformação tão supostamente bem intencionada.

A tese do senhor Pessoa é que João Calvino, reformador francês, que influenciou indiretamente o desenvolvimento político religioso e cultural de países conservadores como a Inglaterra e os EUA, supostamente enquadra-se dentro das características apontadas pelo professor Olavo de Carvalho dentro do fenômeno que este denomina de “mentalidade revolucionária”. Não convém entrar no mérito da teoria do professor de Carvalho a respeito da mentalidade revolucionária, que creio pessoalmente ser verossímil. Me ocuparei, destarte, à tentativa imperita de interpretar a pessoa de João Calvino na tese do referido professor universitário.

O professor introduz o texto com a exposição da inversão do tempo histórico como uma das características da mentalidade revolucionária. Em relação a João Calvino, contudo, isso não significa absolutamente nada. Calvino não era como os camponeses revolucionários da Alemanha ou como os anabatistas que perturbaram a ordem civil na Europa. Em primeiro lugar, o reformador de Genebra não acreditava em um "progresso civilizacional contínuo" como creem os revolucionários, e muito menos julgava-se um "eleito" no sentido de impulsionar tal progresso  [seria por demais desgastante e vergonhoso ter que explicar que Calvino não inventou a doutrina da eleição, além de desviar um pouco do tema; por essa razão não tratarei do assunto]. Para Calvino, Deus sempre punirá um povo na medida em que este se fizer condenável diante de Sua justiça; o único progresso que Calvino assevera sem dúvidas é o da expansão do Reino em razão das profecias que garantem que o Evangelho se difundirá por todo o mundo. Os camponeses e anabatistas, contudo, desejavam revolucionar as relações sociais. Muitos deles criam que o Reino de Deus seria estabelecido pelas mãos das pessoas naquele momento. Foi contra eles que Calvino escreveu:

"De princípio, antes que entremos na própria matéria, deve-se levar em conta aquela distinção por nós anteriormente estabelecida, de sorte que, a um tempo, não misturemos imprudentemente, o que comumente sucede a muitos, estas duas coisas que têm natureza inteiramente diversa. [...] Mas quem sabe discernir entre o corpo e a alma, entre esta vida presente e a transitória, e aquela vida futura e eterna, não terá dificuldade em entender que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muitíssimo distintas entre si. [...] nos lembramos de conter dentro de seus limites toda esta liberdade que nele nos é prometida e oferecida. [...] não importa em que condições estejas entre os homens, sob leis de que país vivas, uma vez que o reino de Cristo está mui longe de se situar nessas coisas. [...] Ora, a respeito do que alegam, que deve haver na Igreja de Deus tal perfeição que façam as vezes de quantas leis demandem, tal imaginação é uma insensatez, pois jamais poderá existir tal perfeição em qualquer sociedade humana." [1] 

A não ser que um leitor interprete desonestamente, ninguém pode negar que Calvino não confundia as "reformas sociais" que tentou promover para tirar Genebra do caos civil em que se encontrava com a tentativa de impor a própria vontade para a criação de um "futuro melhor", como se assim buscasse o Reino de Deus dentro de um progresso histórico, como defendia Shleiermacher e outros. Possíveis otimismos em relação ao futuro, convivendo ao mesmo tempo com o pessimismo, não são de forma alguma incompatíveis, caso resguardados seus devidos aspectos. Ninguém chamaria a Igreja de Roma de revolucionária (se pressupuséssemos preguiçosamente seu argumento histórico) quando lembramos que o monge Telêmaco findou as lutas de gladiadores, ou que a fé cristã ajudou a valorizar o casamento como uma instituição para os escravos, ou que Tomás de Aquino tenha criticado a prática da tortura, ou que o monge hoje conhecido como Bonifácio derrubou o carvalho sagrado dedicado ao deus Thor no processo de evangelização das tribos germânicas, etc. Semelhantemente, Calvino pediu para que Servetus não fosse executado no fogo por sua heresia (por ser a fogueira por demais cruel), etc. O reformador tinha um padrão transcendente imutável independente de si mesmo, ao qual buscou se adequar. Que horrível crime, esse, não?! Ao ler o texto do professor Luís, temos a impressão de estudar um esquizofrênico que teve a sorte de ser rigorosamente lógico, e, por acaso, tinha amplo conhecimento da Patrística e das Escrituras. O professor Luís Fernando Pessoa ataca ferrenhamente uma caricatura, um espantalho, como veremos a seguir.

O argumento gira em torno da seguinte citação de Calvino que Luís acredita conter uma evidência da mentalidade revolucionária:


“Pois, ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum, estou também dignamente cônscio de que terei Ele e os anjos como testemunhas, desde que recebi o ofício de doutor na Igreja, de a nada mais ter-me proposto senão fazer avançar a Igreja, afiançando a sincera doutrina da piedade” (CALVINO, 2007, p.12)"

Para o professor, a frase supracitada do reformador apresenta uma característica da mentalidade revolucionária pela “certeza de que ele está ao lado de Deus e que é Ele mesmo quem o justifica em sua tarefa de levar adiante o que considera como a verdadeira religião“. Uma associação dessa natureza leva-nos certamente a vários problemas – por que não dizer? – hirsutos, já que tal crença pode ser reconhecida em todos os profetas, apóstolos, missionários, bispos católicos, padres e pastores evangélicos. É próprio do adepto fiel de uma religião crer que ele segue a religião verdadeira, ou haveríamos de ser demasiado estúpidos pra crermos que o cristianismo é a religião verdadeira, mas que, ao invés, deveríamos difundir o budismo pelo mundo afora, ou viver como se não crêssemos em Cristo. Em contrário, vejamos o que escreveu o profeta Isaías (50:5-9) que citarei na tradução católica para evitar possíveis lamúrias. 

“{o Senhor Deus abriu-me o ouvido} e eu não relutei, não me esquivei. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá.”

O profeta Isaías julgou-se no “direito” (para usar o termo do homônimo do poeta português) de contestar todo o caminho que o povo de Israel seguia, e assim trazê-los para o padrão veterotestamentário da Lei de Deus. Isaías cria-se vocacionado por Deus para tal missão que julgava estar absolutamente correta. Que coisa horrenda, não? Um verdadeiro revolucionário! Ou talvez um mero crente. Seria curioso o honrado Luís, aparentemente aluno do Olavo de Carvalho, fazer o mesmíssimo julgamento contra um dos maiores santos católicos romanos, São Francisco de Assis. Sim, porque Francisco (aparentemente tão respeitado e recortado em suas opiniões por católicos romanos tão ingênuos quanto um Brás Cubas ou um Dom Quixote) julgou-se escolhido por Deus para uma missão através de uma experiência sobrenatural, que deu-lhe fé tal que fê-lo viver como um asceta confuso em nome de um padrão moral que certamente não é bíblico, e a quem Eric Voegelin diz ser o “símbolo da revolução”. [História das Ideias Políticas – v. II, p. 161] Confesso, sinceramente, que gostaria que o professor de Maringá conduzisse adiante tal empreitada – ou talvez haja algum tipo de limitação de conteúdo entre os alunos do professor, uma espécie de agenda de opiniões proibidas.

Depois de afirmação tão curiosa, a próxima assertiva do mesmo parágrafo será dividida em duas partes por questões didáticas. Primeiro ele diz que “Calvino desenvolve a certeza de que está predestinado a corrigir a sociedade através de uma transformação social profunda”. O termo "profunda" aqui é subjetivo e é de inteira responsabilidade do autor. Calvino queria sim, promover transformações sociais, mas não como ele supõe. Quando Calvino fala em "expandir o reino", ele refere-se primeiramente à expansão do próprio Evangelho, não da transformação social em si, que seria obra do Espírito Santo através da pregação da Palavra, coisa que todo cristão deveria supor naturalmente. Como dissemos no parágrafo anterior, o profeta Isaías queria promover uma transformação social "profunda" em Israel: lançar fora toda idolatria, corrupção espiritual dos sacerdotes e a maldade da monarquia. Ora, outro tipo de mudança social foi promovido pelo apóstolo Paulo, embora indiretamente, quando prejudicou a economia da cidade de Éfeso com sua pregação (Atos 19). A cidade de Éfeso era um centro de culto à deusa Ártemis, e a conversão dos cristãos significou prejuízo financeiro para os forjadores de ídolos. Seria necessário supor que uma religião não pode de forma alguma influenciar a vida social de uma comunidade para julgar qualquer influência como revolucionária. Talvez o professor creia, ainda que irrefletidamente, que ser cristão é uma mera intuição intelectual que não pode causar transformações sociais, de maneira que não é possível ver a si próprio como um missionário da obra de Deus. De semelhante modo, talvez ele entenda que a fé cristã tenha que subsistir apenas subjetivamente, não tenho absolutamente nenhuma opinião acerca das relações sociais (quando, na realidade, tem). Se assim o for, temos perante nós uma situação menos do que existencialista. Calvino não aboliu nenhum tipo de relação social, mas as adequou ao padrão cristão, da mesma forma que os profetas do Antigo Testamento exigiam que o povo desviado retornasse ao padrão do Pacto. Ora, sabe-se, para citar mais um exemplo, que, no retorno do cativeiro babilônico, o povo hebreu, tomando a Lei Mosaica como padrão, desfez todos os casamentos entre os judeus e as mulheres pagãs. O casamento entre judeus e membros de outras religiões era proibido (Esdras 9 e 10). Calvino não faz nada sequer parecido com isso. Esdras, que também cria ter a responsabilidade de organizar o povo por vocação divina, era um revolucionário? 

Vamos então à segunda parte do recorte. O sr. Luís afirma que Calvino desejava promover a tal “transformação social mediante a concentração de poderes em suas mãos”. Gostaríamos de saber a partir de que material o referido professor universitário tomou conhecimento da vida de Calvino. Estamos falando de modo sincero, porque até mesmo na leitura mais superficial das Institutas é possível notar justamente o contrário do que o professor afirma. Calvino não tinha o poder concentrado em suas mãos, nem almejou tal coisa. Este mito pueril é comum entre apologistas papistas de fóruns de quinta categoria, mas não é de se esperar de um professor universitário (muito menos um professor de História!). Prossigamos às informações contra a desinformação:


1. O reformador, a priori, não desejava sequer ser pastor. Seu intuito original era ser um teólogo recluso. Foi Guilherme Farel, outro reformador, quem o convenceu, mediante uma imprecação, a aceitar o chamado para o pastorado. Guilherme também havia iniciado a Reforma em Genebra antes da chegada do francês, e a cidade, então, vivia um caos.  

2. Calvino era francês, não cidadão suíço. Sua autoridade em Genebra era apenas indireta, tomando forma de um conselheiro moral, na melhor das hipóteses. Ele não foi nunca um membro governante do Conselho e, de fato, não poderia ser membro no corpo governante mais alto, pois apenas cidadãos de Genebra (os nascidos em Genebra como cidadãos) podiam ocupar tal cargo.

3. Calvino defendia a separação entre a Igreja e o Estado, mas subjugava ambos à religião cristã. A religião cristã estabelece a função das autoridades civis. Contudo, isso jamais seria forçado, visto que, para Calvino, um cristão deveria reconhecer a autoridade dos magistrados, exceto nos casos em que o governo o obrigasse a cometer pecados. E isso incluiria o governo civil de Genebra, que não era sujeito a Calvino, como vimos. Para Calvino, a prudência conduziria exatamente à conclusão contrária: afinal, a divisão dos poderes é mais prudente. Embora reconhecesse que a Bíblia não impõe um modelo estatal específico, Calvino prefere a aristocracia ou a democracia, ou uma mistura de ambos, visto que, ainda que devendo respeito aos monarcas, entendesse que uma monarquia pode ser mais perigosa por concentrar os poderes nas mãos de um único indivíduo. A divisão dos poderes, portanto, seria uma garantia de proteção da ordem civil. Portanto, como Calvino, que discorreu mais sobre os deveres dos governantes do que sobre os seus direitos, exigia para si a autoridade, se ele mesmo ensinava o contrário disso? Não foi por acaso que em todos os países onde o calvinismo alcançou certa influência, ocorreu exatamente o inverso do que o professor Luís entende: foram os calvinistas que tiraram a Inglaterra do Absolutismo e diminuíram o autoritarismo na Holanda, por exemplo. É o famoso Alexis de Tocqueville, reconhecido por qualquer conservador, quem aponta a influência dos puritanos na formação dos EUA. Ele diz: 

"... os imigrantes da Nova Inglaterra levavam consigo admiráveis elementos de ordem e de moralidade; entravam pelo deserto acompanhados de suas esposas e de seus filhos. Mas o que os distinguia, sobretudo, de todos os outros [colonizadores] era a própria finalidade de sua empreitada. Não tinham abandonado o seu país forçados pela necessidade; deixavam para trás uma posição social cuja perda seria lamentável e meios de vida garantidos; tampouco passaram ao Novo Mundo a fim de ali melhorar a sua situação ou de fazer aumentar as suas riquezas; arrancavam-se às doçuras da pátria para obedecer a uma necessidade puramente intelectual; expondo-se às misérias inevitáveis do exílio, desejavam fazer triunfar uma ideia. [...] As colônias inglesas, e foi essa uma das principais causas da sua prosperidade, sempre gozaram de maior liberdade interior e de maior independência política que as de outras nações; em nenhuma parte, porém, foi esse princípio de liberdade mais completamente aplicado que nos Estados da Nova Inglaterra." [2] 


Ainda, segundo Francis Schaeffer, John Locke simplesmente secularizou, sobre uma base iluminista, princípios políticos de puritanos como Samuel Rutherford. Schaeffer explica isso partindo da influência do reformador de Estrasburgo, Martin Bucer: 

“O modelo constitucionalista, implícito na política da Igreja Presbiteriana, não era só um exemplo, mas um aprendizado para os princípios da limitação política. E, mesmo naqueles lugares em que, como no caso da Inglaterra, o presbiterianismo como tal não vingou, suas ideias políticas acabaram sendo difundidas por meio de múltiplos e complexos grupos na vida pública inglesa, assumindo o papel criativo na diminuição do poder dos reis ingleses. Como resultado, os cidadãos comuns acabaram descobrindo uma forma de se livrar do poder governamental arbitrário, em uma época em que todos os países estavam caminhando rumo a alternativas políticas absolutistas (...) Muitas coisas boas na Inglaterra vieram da Escócia. Temos em um livro escrito por um escocês, Samuel Rutherford (1600-1661), o mais claro exemplo de um dos princípios da Reforma, que é o controle político da soberania por parte do povo [embora não haja aqui ainda o conceito de soberania popular]. O livro chama-se Lex Rex: a lei é Rei. (...) A obra de Samuel Rutherford e a tradição que ela encarnava tiveram grande influência sobre a Constituição dos Estados Unidos, por mais que os povos anglo-saxões de hoje tenham esquecido amplamente. A primeira foi John Wisterspoon (1723-1794), um presbiteriano que seguia o Lex Rex de Rutherford à risca usando os seus princípios pra base da Constituição e o estabelecimento de formas e liberdades. (...) O segundo veiculador da influência de Rutherford foi John Locke (1632-1704) que, embora secularizando a tradição presbiteriana, foi fortemente influenciado por ela.” [3] 

4. João Calvino não concentrava poderes nem mesmo dentro da igreja reformada que ele ajudou a construir. Foi, aliás, o próprio reformador que, levando em conta o modelo de governo eclesial bíblico de presbíteros (à luz da autoridade crescente do bispo a partir do segundo século em virtude da luta contra as heresias), criou um modelo de governo descentralizado. Calvino estabeleceu quatro ofícios na Igreja: pastores, mestres (doutores), presbíteros e diáconos. O poder de influência da Igreja em Genebra era estabelecido pelo “Venerável Conselho de Pastores”, que era formado, inclusive, por leigos, possuindo uma função meramente eclesial. Era o Consistório, ou Presbitério, que tinha obrigação de manter a disciplina entre os cristãos. Foi daqui que nasceu o outro mito em torno de Calvino sobre a tal “rede de espionagem”. Infelizmente, para estes, o Consistório não dispunha do direito de punição civil. [4] A cidade era conduzida por meio do governo dos presbíteros, todavia, Calvino não foi um inovador. Em muitas cidades, algumas leis foram ignoradas e outras foram “acrescentadas”, tão somente. A única inovação foi que essas leis começaram a ser aplicadas. Deveríamos considerar Calvino revolucionário por não ser “brasileiro”? Deveríamos considerar o Antigo Israel uma nação revolucionária por proibir a prostituição escancarada?   

O católico Christopher Dawson, reconhecido dentro do meio conservador, afirma com todas as letras que Calvino não era um revolucionário.  

“Assim, após desfrutar de uma geração livre e individualista, de maneira quase irrestrita, o protestantismo trouxe de volta os padrões mais estritos de conformidade religiosa, tanto na ideologia quanto no comportamento. A tensão era severa, mas a força interior da disciplina genebrina deu às Igrejas Calvinistas o poder de não resistir somente à pressão hostil, mas a reagir com sucesso à agressão e à ação revolucionária. Calvino não era um revolucionário político. Respeitava os direitos da autoridade civil, e sempre teve esperanças de que o rei pudesse tolerar a religião reformada, ou mesmo que se tornasse seu protetor.” [5]

E o próprio Dawson ainda informa sobre uma carta escrita por Calvino para o almirante Garpard de Coligny em 1559 onde afirmou que “era melhor todos perecerem centenas de vezes do que o Evangelho ficar exposto ao opróbio como causa da guerra civil e da carnificina.” [6]

5. Ademais, há inúmeras evidências das controvérsias entre Calvino e os Magistrados Civis e até mesmo com outros reformadores. Não sabe o digníssimo professor que Calvino foi expulso de Genebra durante 3 anos, permanecendo em exílio – e não no propósito de estabelecer alguma revolução (que pena!) – desde então? Findado o período de três anos, no qual contraiu matrimônio, foi convidado pela própria cidade de Genebra a retornar e auxiliar na organização da cidade conturbada. Em outra ocasião, para citar um exemplo, Calvino discordou da opinião de diversos membros da igreja reformada e dos Magistrados, todos contemporâneos seus, sobre a festividade do Natal. Isto está registrado em uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551. Nela, Calvino escreveu: “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação a fim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”. [7] E mais: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos [sobre a Santa Ceia] fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais frequente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha”. [8] 

Entre “procurar moderação” e estabelecer ditatorialmente, como sugerem muitos apologetas romanistas e até mesmo Olavo de Carvalho, creio que há a mesma diferença existente entre o casamento e a escravidão sexual. Em contrapartida, seria a influência de Calvino tão incontestável se seus herdeiros na Escócia tivessem abolido temporariamente o Natal em desacordo com ele mesmo? 

O conflito entre a Igreja de Genebra e os Magistrados torna-se ainda mais evidente quando lemos que, logo depois da morte de Calvino, os Magistrados exigiram para si o direito de excomunhão, em virtude da inconformidade da teoria da relação entre Estado e Igreja de Calvino com as estruturas sociais existentes. Para Calvino, tal direito cabia à Igreja, enquanto os Magistrados preferiram ficar com a opinião de outros reformadores como Zwínglio. Como Richard C. Gable escreveu:


“Em setembro de 1548, o Conselho da cidade determinou que os pastores podiam apenas exortar o povo, mas não excomungá-lo. Em dezembro, o Conselho prosseguiu em suas tentativas de usurpar o poder dando a Guichard Roux a permissão de receber a Ceia do Senhor, após ter sido proibido de fazê-lo pelo Consistório. O próprio Calvino foi admoestado pelo Conselho no dia 24 de setembro de 1548 por causa de uma carta que tinha escrito, criticando os magistrados de Genebra. Após vários protestos e esforços dos pastores, o Conselho finalmente concordou, em 24 de janeiro de 1555, em conceder ao Consistório os direitos que lhe cabiam conforme o estabelecido pelas Ordenanças Eclesiásticas de 1541. Basicamente, as Ordenanças Eclesiásticas estabeleciam o padrão pelo qual a Igreja funcionaria. Foram estabelecidos o horário e o número de cultos na cidade, bem como a frequência dos pastores aos encontros e outras regulamentações, tais como a excomunhão.” [9]

Parece incontestável que Calvino foi um “conciliador”, não um ditador revolucionário. Creio que não é necessário tecer comentários sobre a seguinte frase: “o da iluminação divina do indivíduo que se vê a si mesmo como o portador de uma mensagem transformadora e necessária para toda a humanidade.” Afinal, o Evangelho é exatamente isso. O problema é saber se o que Calvino crê é o Evangelho verdadeiro ou se a verdadeira religião cristã consiste em autoflagelações parecidas com as praticadas pelo islamismo ou com o ascetismo monástico neoplatônico que em termos práticos difere muito pouco do ascetismo das seitas gnósticas. Discutir isso, contudo, não é o cerne deste ensaio.

O próximo parágrafo é especialmente interessante.


“Quando Calvino afirma “ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum” ele utiliza um tipo de raciocínio que o aproxima da Divindade e o faz não apenas mais próximo dela como também seu principal e provavelmente único representante aqui na terra. Ser um representante de Deus, nesse sentido, significa fazer o possível para que Sua vontade seja realizada.”

Sobre isso, primeiro devemos atentar para o fato de que ter Deus como tutor espiritual é a crença do cristianismo desde, digamos, sempre. Afinal, a Igreja Católica Romana defende a mesmíssima coisa. Não é a Igreja de Roma responsável para fazer “o possível para que Sua Vontade seja realizada?”. Atenhamo-nos ao papa: ora, não seria o papa um consagrado por Deus? O papa não é, para voltar às palavras de Luís, “um representante de Deus”? Todos os papas Curialistas reclamaram posição semelhante. Decerto que Calvino não é um papa e jamais considerou-se assim, nem foi considerado por quem quer que seja, o que torna-se evidente a partir das informações colocadas há pouco. O reformador de Genebra nunca foi papa e nunca foi tido como infalível, e isto é evidente, noutro exemplo, pelo calendário festivo e pela forma de culto da Igreja Reformada na Escócia, capitaneada por um pastor pessoalmente doutrinado por Calvino, John Knox. Na Escócia, muitas opiniões de Calvino não foram seguidas. Como ele mesmo diz, João Calvino era um “doutor”, um “mestre”, ofício esse que aliás foi reconhecido pelo apóstolo Paulo em Efésios 4:11, e que muitos católicos romanos também creram ser.

O maior disparate é, a partir da aparente ignorância das doutrinas calvinistas, entender que “parece claro que se o indivíduo acredita firmemente que está representando o próprio Deus entre os homens, aqui, no que seria o vale de lágrimas de nossa história, não seria de se imaginar que o mesmo sujeito acreditasse que houvesse entre os próprios homens – dentre os quais ele é um –, pelo menos um que o pudesse questionar ou rebater.” Não, sr. Luís Fernando. Não parece nada claro, exceto para uma mente tendenciosa e tomada por tanta desinformação. 

Como ficou claro (e, desta vez, efetivamente claro) por tudo o que escrevi até aqui, Calvino jamais disse que era inquestionável. Fica ao autor o ônus da prova, alguma afirmação que sustente seu disparate. Tomás de Aquino, idolatrado por alguns, considerava a si mesmo inquestionável pelo fato de não ter deixado nenhum registro oficial do contrário? Se contudo, o reformador tinha uma argumentação sólida e coerente, seus críticos deveriam proceder com uma investigação mais prudente a fim de verificar se ele não está provavelmente certo. A menos que alguém possa ser devidamente corrigido, não há razão alguma para que este creia estar errado em alguma proposição, ainda que não considere a si mesmo como sendo infalível. Apesar de seus herdeiros serem chamados "calvinistas", a exegese bíblica avançou desde o reformador e alguns de seus pontos são contestados por diversas vertentes. Alguns questionam um aspecto da doutrina do batismo de João Calvino, outros divergem a respeito da eclesiologia ou da escatologia. Porém, mesmo um teórico anti-Reforma como Eric Voegelin afirmou que a obra do reformador francês possuía uma “unidade inteligível de significação ... como a defesa que um advogado faz de uma causa.” [10] As opiniões negativas de Voegelin sobre Calvino e a Reforma, ora baseadas nos mesmos mitos apologéticos anti-calvinistas dos quais os católicos abusam, ora de interpretações tão desastradas quanto essa do professor Luís, ora por causa de seus pressupostos. Voegelin era influenciado pela neo-ortodoxia e tinha Karl Barth e Rudolph Bultmann como suas referências de “cristianismo”. Por isso, Voegelin crê que “nenhuma doutrina bíblica pode ser extraída do texto [bíblico]”, ou que “a Cristandade dos Evangelhos sinóticos, do Evangelho de São João, das Epístolas de São Paulo e da Epístola aos Hebreus representa variantes que não podem ser organizadas numa doutrina sistemática sem contradições” [11]. Afirmações dessa natureza são coerentes com a crença que Karl Barth tinha em paradoxos. Ademais, Voegelin é tomado pelo dualismo natureza-graça, e acredita que o Antigo Testamento e a filosofia grega são na verdade os “dois antigos testamentos”, como enfatiza Mendo Castro em seu livro “A Filosofia Civil de Eric Voegelin”. É curioso, no fim das contas, que o próprio Voegelin, depois de acusar toda e qualquer criatura viva ao seu redor de “gnosticismo” em sua “Nova Ciência da Política”, foi chamado de “gnóstico” por vários estudiosos. Mendo ainda fala sobre as críticas ao próprio conceito de "gnose" usado por Voegelin, que, segundo o autor português, não pode ser considerado "erudito". Para piorar, os mesmíssimos pressupostos usados por Voegelin para chamar muitos de gnósticos foram usados para acusar até mesmo os apóstolos ( ! ) de gnosticismo! O anti-cristianismo de Voegelin, que rejeitava a inspiração de muitos textos da Escritura, fica assim evidente. Parece ser o vício de muitos filósofos não-ortodoxos tratar do Cristianismo recortando as partes da Escritura que não cabem em suas teorias (este infelizmente também foi o caso de René Girard, por exemplo).

Talvez o querido professor Luís Fernando Pessoa tenha o mesmo problema de interpretação paranoica que Voegelin teve ao estudar a Reforma e os Puritanos, o que lhe valeu críticas até irônicas. Se isso não é causa de um vício apologético católico, talvez o seja de demasiada credibilidade sem crítica acadêmica às opiniões de um certo alguém, ou talvez ainda o efeito de algum intoxicante chá de cogumelos, que o conduziu a uma paranoia que vê mentalidade revolucionária em tudo, assim como Eric via gnosticismo em tudo (até nos apóstolos e profetas). De seu texto, certamente, não há nada que se aproveite. 

1. João Calvino, "As Institutas da Religião Cristã", Vol. IV, XX, I-III, p. 453.
2. Alexis de Tocqueville, "A Democracia na America", Edit. Itatiaia Ltda. e Edit. da Universidade de São Paulo, 1977, p. 33-36.
3. Francis Schaeffer, “Como Viveremos”, p. 65-67.
4. Citado por Richard C. Gamble em “Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidenal”; Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 8, (1960; ed. reimpr., Grand Rapids: Eerdmans, 1979, pp. 481-482); James Mackinnon, Calvin and the Reformation (Londres: Longmans. Green, 1936, p. 77-81.
5. Christopher Dawson, “A Divisão da Cristandade”, p. 163.
6. Ibid., p. 165.
7. Citado pro Solano Portela em “Calvino Contra o Natal?”; Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858).
8. Ibid.; William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141], costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141.
9. Richard C. Gamble, “Calvino e sua Influência no Mundo Ocidental” (Organizado por W. Stanford Reid), p. 90.
10. Eric Voegelin, “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 321.
11. Ibid., “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 320.

sábado, 7 de novembro de 2015


O DEMÔNIO FAMINTO
por Vitor Barreto.

Vivemos numa sociedade de consumo. O conceito de consumo a que me refiro no presente artigo ultrapassa o entendimento comum do consumo de produtos de mercado. Não me refiro à distorção desespiritualizante do capitalismo, mas ao culto à exigência. 

Uma sociedade centrada no consumo é aquela mais interessada em receber do que em produzir. As pessoas querem que tudo lhes seja oferecido como "direito fundamental". Em vez de produzirmos, consideramos justo apenas exigir, e essa exigência chega finalmente ao Estado, na forma de novas leis. Assim sendo, a busca pela satisfação de si mesmo, ou de determinados grupos, é a premissa fundamental, jamais o serviço a Deus.

“O significado de liberdade então vem a ser liberdade de consumo”, diz R. J. Rushdoony em seu livro Sovereignty.

Essa mentalidade de "direito ao consumo" não se limita a qualquer pólo do espectro político. Ela é comum tanto à esquerda quanto ao libertarianismo de direita, como observou Theodore Dalrymple.

"Existe uma aliança ímpia entre a esquerda, que acredita que o homem é dotado de direitos sem deveres, e os libertários da direita, os quais acreditam que a escolha do consumidor é a resposta para todas as questões - uma ideia avidamente adotada pela esquerda, sobretudo naqueles setores nos quais não se aplica. Dessa forma, as pessoas se veem no direito de gerar crianças da forma como bem entendem, e as crianças, certamente, têm o direito de não serem privadas de nada, ao menos nada no plano material." [1]


A raiz dessa alteração do centro da vida social (que anteriormente pautava-se em Deus e agora fundamenta-se no homem) está na negação cada vez maior da transcendência em favor de uma cosmovisão imanentista. Freud, em seu livro “Moisés e o monoteísmo” – um livro demasiado anti-cristão, diga-se de passagem, de leitura dispensável – faz uma interessante observação sobre a transição efetuada pela religião cristã na ascensão do patriarcado em relação ao matriarcado em antigas religiões pagãs. O psicanalista francês Charles Melman, considerado herdeiro de Freud na França, comenta a esse respeito:


“De fato, há em Freud uma observação, que, aliás, não lhe é pessoal, a qual estabelece que essa passagem do matriarcado para o patriarcado se constituiu um progresso para a humanidade. Progresso espiritual, progresso mental, já que passou das regras da evidência às regras da crença. Precisamos, entretanto, apreender primeiro a diferença entre os dois regimes. Se percebermos que eles advêm de uma estrutura radicalmente diferente, talvez possamos melhor entender o que significa “progresso” aqui; por que razão, efetivamente, podemos falar de progresso? Essa diferença de estrutura se liga a quê? Passamos, acabo de dizer, de um regime fundado na evidência e na positividade, tal como o matriarcado as sustenta, a esse outro regime em que o que importa e o que conduz é a ordem da fé – e remonta ao que nós, analistas, chamamos de pacto simbólico. 
O matriarcado regula, com efeito, a questão da causa, da causalidade. E primeiro, no que concerne à fecundação, ao dizer que o processo se origina num mecanismo evidente e que não poderia ser mais positivo: a mãe é a causa do filho. Estabelece-se, então, um regime em que a mãe, como presente no campo da realidade – quer dizer, enquanto não se funda em nenhum mistério, mas em seu próprio poder, sua própria autoridade –, se encontra investida de potência que é para todos os seres humanos a potência suprema [...] O que não quer dizer que o pai, um dos dois genitores, não serviu para nada. Mas sua função se mostra acessória, de nenhum modo necessária. Mãe e filho são suficientes, então, para assegurar a continuidade de uma cadeia de gerações que, assim, tem a vantagem, vemos bem, de ser sem mistério. [...] O pai da realidade [no Cristianismo], o bravo pai de família, nada mais é do que o representante, o delegado, o funcionário de um Pai situado no real.” [2] 

As antigas religiões da natureza, em especial, eram devotadas aos cultos do feminino, às deusas femininas, geralmente ligadas à fertilidade, pelas razões explicadas por Melman no trecho supracitado. No Antigo Testamento, temos o culto à deusa Astarote despontando dentro de Israel algumas vezes. E apesar da existência de certo patriarcalismo em outros povos, o Ocidente cristão tem a autoridade paterna fundada na religião cristã, quando a transcendência retira o pensamento do homem do reino da evidência e o conduz à fé, à profecia, à eternidade. Em outras palavras, numa sociedade “científica”, tecnicista e naturalista, na qual a religião cristã foi condenada como superstição, observamos a tendência de destruição da autoridade do pai em favor do retorno do matriarcado, especialmente no século XX, que foi nitidamente alavancado pela revolução sexual que veio arrancar as sementes cristãs que vingaram em terras ocidentais. Mas não só isso: há a explosão de religiões neopagãs que cultuam o princípio feminino. A Wicca é apenas uma delas.

O pai, por outro lado, não retira sua autoridade da “natureza” em uma cosmovisão materialista. Com o cristianismo, aprendemos a lidar com o real que não é encontrado na razão empírica. Esse tipo de introdução simbolizada na figura paterna tornou possível, por exemplo, a descoberta por parte do matemático alemão Cantor dos números ordinais transfinitos. Percebendo que a sequência de números é infinita, ele nomeou esse inatingível de “Aleph”, que simplesmente está fora do campo da realidade. 

Um segundo ponto, profundamente relacionado a essa paulatina negação da transcendência, é a teoria do Contrato Social, um marco da revolução secularizante. Com o Iluminismo, o homem secularizou a doutrina do Pacto em um Contrato entre iguais, uma paródia, onde as vontades dos iguais são o parâmetro; não é, sobretudo, um Pacto de Graça. R. J. Rushdoony, comentando sobre o efeito desse processo dentro da Revolução Civil, dá-nos o entendimento-chave:


“É claro, depois de Rousseau, a vontade de Deus foi substituída por uma nova infalibilidade, a vontade geral das pessoas. Desde que essa vontade geral seja desconhecida até que seja expressada, o estado não tem critério definido exceto um suposto desenvolvimento da vontade geral. Em consequência da substituição da vontade de Deus pela vontade geral, há uma mudança da ênfase dos deveres do homem em relação a Deus para os direitos humanos. Direitos substituíram deveres, o foco da sociedade mudou de produção para consumo. O homem vive como um consumidor, não como uma criatura feita à Imagem de Deus e de quem se requer o serviço a Deus de todo o coração, mente e ser. Não é Deus quem deve ser servido, mas o homem e o estado. Deus como legislador foi substituído pelo homem.” [3]

O homem deixa de ser um servo de Deus para se tornar um consumidor. Isso necessariamente afetaria todas as relações humanas, apesar da resistência cristã. 

Em primeiro lugar, há uma tendência geral de crescimento do infantilismo e uma revolta contra a maturidade. A relação entre um bebê e sua mãe é de completo consumo e dependência. Apenas a maturidade pode conduzir à independência e ao auto sustento. Não por acaso, psicanalistas como o próprio humanista Melman e também o conservador britânico Dalrymple testemunham o mesmo fenômeno, no qual a adolescência se prolonga até idades cada vez mais avançadas. Esse infantilismo governará também todas as relações, inclusive em relação ao estado. Podemos notar corretamente o comportamento claramente infantil de mobilizações estudantis e juvenis. Como crianças pirracentas quando contrariadas por um desejo não atendido, grupos estudantis cada vez mais apelam para a bizarrice no intuito de chamar atenção. Nos EUA, estudantes tocados pelo marxismo destruíram patrimônio institucional sob o pretexto de quererem uma “escola de qualidade”. Eles querem apenas consumir, mas não construir. Ademais, em outro lugar ainda [4], Rushdoony pontua a participação da obra de Freud nessa fonte de infantilização ao estabelecer a infância como o modelo básico e referência para o ser humano, em vez do homem adulto, Adão, que o cristianismo reconhece como o modelo básico.

Em segundo lugar, a destruição da instituição da família e do casamento. O casamento não é mais um Pacto entre Deus, um homem e uma mulher, mas um contrato entre um homem e mulher que é, antes, guiado pelo consumo. Depois da Segunda Guerra Mundial, Rushdoony observa que começou a surgir uma demanda por “manuais de casamento”, especialmente no âmbito sexual, que, finalmente, transformava o casamento numa relação de consumo de prazer. 


“Experts, cientistas, sexólogos, substituíram os pastores e sacerdotes como autoridades no casamento”, escreve o teólogo. A técnica científica substituiu a fé Bíblica como fator-chave no casamento. Manuais de casamento agora eram manuais sexuais, e uma vida tão grandemente centrada no ato sexual tornou-se inconscientemente um trabalho para diversão, não para propósito. O Dr. Van de Velde insistiu, “Mas – o marido precisa exercer a maior gentileza, a mais delicada reverência!” A reverência foi transferida da igreja para a cama do casal.” [6]

Com a maior relativização dos valores, essa reverência logo seria também abandonada pelo consumismo de ambas as partes. Em poucas décadas, a educação para o casamento transformou-se em mera educação sexual, para atender ao desejo de consumo [de prazer]. Paulatinamente, as “descobertas científicas” começaram a substituir a moral religiosa no comportamento sexual, em todos os níveis de educação. 

Com o descrédito lançado contra a figura do pai e a relação entre homens e mulheres reduzida ao usufruto de apetites sexuais, temos a retirada completa da família como ente celular na estrutura social. Novos “modelos” de família começaram a surgir desde a segunda metade do século XX. Cada vez mais, mulheres, sozinhas, chefiavam famílias. Filhos são produzidos por inseminação artificial por mulheres que simplesmente não querem ter um relacionamento sério com um homem. A própria maternidade tornou-se apenas um produto de consumo, um “sonho” de mulheres solteiras que poderia ser resolvido com uma visita a um banco de esperma, prescindindo completamente de uma figura paterna. Por outro lado, os filhos também tornaram-se um empecilho para outros sonhos de consumo, como uma carreira bem-sucedida, ou viagens caras e vida de luxos. A famosa “liberdade” das feministas nada mais é do que a liberdade para a satisfação dos desejos de consumo. Tudo tornou-se objeto de consumo através de contratos.

E, ainda dentro dessa perspectiva, há a subversão da função educadora dos pais. Eles devem acomodar-se a um novo papel: não o de educar e inculcar valores objetivos nos filhos; não mais receberem honra; mas são apenas servos dos filhos, e protetores de seu “bem-estar”, proporcionando-lhes a satisfação que eles têm por “direito”.

"
Já que homens e mulheres se associam e têm filhos, a criação destes últimos torna-se apenas uma questão de direitos do consumidor, sem quaisquer grandes implicações morais, semelhante ao ato de escolher entre chocolate branco ou preto; e o Estado não pode discriminar entre formas distintas de associação e da criação dos menores, mesmo quando essa não discriminação é capaz de gerar o mesmo efeito que produziu a neutralidade anglo-francesa durante a Guerra Civil Espanhola." [7]

Em terceiro lugar, relações sociais descartáveis. Não apenas no âmbito sexual, mas em todos os outros. A relação utilitarista na esfera profissional (que é justa em termos bíblicos; vide a parábola dos talentos. É digno de nota que as relações trabalhistas são verdadeiramente contratuais) tendem a estender-se a outras esferas, onde laços são desfeitos quando se avaliam que são insuficientes. O prolongamento da expectativa de vida acarretará problemas no futuro, com um aumento no número de idosos, eventuais “fontes de despesas”. Não surpreendentemente, é possível encontrar quem defenda a eutanásia para casos de pessoas que sofreram graves acidentes, vítimas de doenças, ou qualquer um que assim deseje. 

Em quarto lugar, a busca do prazer a qualquer preço. Charles Melman reconhece uma ligeira mudança de mentalidade para a nova sociedade consumista (que ele chama de “nova economia psíquica”): 


"Foucault, Althusser, Barthes, Deleuze, que não proclamam mais o direito à felicidade, mas ao gozo. [...] não há mais nem autoridade, nem referência, menos ainda saber que se sustente. Estamos apenas na gestão, há apenas prática." [8]

A busca incessante por sensações é a ordem do dia. O espetáculo do absurdo e a quebra de tabus estão na moda. A famosa festa “Sensations” parece ser emblemática. Como Melman observou, “estamos numa sociedade em que a fabricação de objetos aptos a satisfazer os orifícios corporais se tornou uma espécie de exigência e obtém, evidentemente, a concordância coletiva. São objetos maravilhosos, capazes com efeito, de saturar até o esgotamento os orifícios visuais e auditivos. Fabricam-se hoje sons extraordinários que não são mais escutados com os ouvidos, mas com todo o corpo – o corpo vibra com os baixos que o atravessam como raios. São gozos fabricados, artificiais, que fazem parte dos produtos da nova economia psíquica.” [9]

As artes visuais agora tão dramáticas, de cores berrantes, também buscam atender a essa demanda por gozo visual. O body building é lembrado pelo psicanalista dentro do que ele entende por “gozos corporais”. Essa busca por gozo conduz inevitavelmente a uma maior demanda por drogas.

Agora, em quinto lugar, a destruição da alta cultura. Não há mais autoridade além do indivíduo, nem sentido na vida além da satisfação. As grandes obras da tradição ocidental mostram-se, assim, irrelevantes. A emergência desse novo homem consumidor precisa necessariamente romper com o passado e abandonar toda a sua herança, que seguia um sentido oposto ao adotado agora. Alia-se a isso a visão mecanicista de mundo, em que não há mais lugar para o sujeito. Lugar esse que a religião reserva. Sem autoridade e sem tradição, o novo homem também não tem razões para respeitar a alta cultura. O relativismo destruiu o respeito pela erudição e pela capacitação. A sociedade então começa a nivelar-se por baixo, abolem-se os padrões. Essa é a “Invasão Vertical dos Bárbaros” a que referiu-se Mário Ferreira dos Santos, e a conquista do “homem-massa” que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset dissecou em “A Rebelião das Massas”. 

Em sexto lugar, há uma subversão do Direito. O Estado deixou de ser um ministro de Deus com objetivo de punir o mal e preservar a ordem social para transformar-se em um garantidor dos “direitos” dos indivíduos e grupos, e, portanto, um responsável pela satisfação dos mesmos. O Direito, ao pé da letra, é colocado a serviço do cumprimento da satisfação de todos os apetites. Aquilo que representa obstáculo à satisfação é entendido como injusto, moralmente incorreto e aqueles que defendem uma moralidade objetiva que regule os apetites são cassados pela “polícia do pensamento”. Melman reconhece isso:



“Tornou-se extremamente difícil fazer valer uma posição que não seja correta, ou seja, uma posição que não vá no sentido dessa filosofia implícita que quer que qualquer pessoa, seja qual for seu sexo, sua idade, possa ver seus votos cumpridos, realizados nesse mundo. Toda reflexão que busque discutir esse implícito é, a priori, barrada, interdita.” [10] 


O Direito agora deixa de servir a objetivos definidos para ser o estado-babá, a garantir saúde, educação, moradia, segurança, alimentação... e também o direito ao prazer.

Theodore Dalrymple, no livro “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, percebeu que o povo britânico está tão influenciado por essa mentalidade que, quando há um corte de impostos no governo, isso é entendido como “um dinheiro extra para a diversão, como um pai que dá um trocado às crianças para o fim de semana.”. Isso conduz, segundo ele, à uma paralisação da ação, à degradação e à falta de respeito próprio e, pior de tudo, a mais um elemento destruidor de relações familiares. “[...] O Estado britânico retirou, de várias áreas importantes da vida humana, a responsabilidade que tem o indivíduo sobre si mesmo e sua família,” como disse Dalrymple.

Testemunhamos uma luta ferrenha pela legalização das drogas nos nossos dias. Sem valores morais absolutos, o desejo de consumo não pode mais ser interditado pelo Estado. Como Dalrymple percebeu, há um pressuposto na filosofia de John Stuart Mill (algo como, "faça o que quiser desde que não prejudique ninguém"). Esse é, nas palavras dele, um “fundamentalismo filosófico”. Ele diz:


“(...) em outras palavras, não temos nada em comum, a não ser nosso acordo contratual para não interferirmos na vida uns dos outros, enquanto prosseguimos em busca de nossos prazeres privados.” [11]


E com a abolição dos tabus e do modelo de família, como vimos há pouco, estamos testemunhando o absurdo da abominação quando o Comitê de Ética da Alemanha começa a discutir o incesto como um “direito fundamental de parentes para a autodeterminação sexual”. 

Em sétimo e último lugar, vemos o consumismo afetar as igrejas cristãs. Deus agora não é mais servido, mas o servidor de um homem consumidor e repleto de apetites. A Teologia da Prosperidade cresceu porque teve uma demanda que a alimentasse. Deus deve nos dar carros, pagar contas, resolver problemas, realizar “sonhos”... São os crentes quem “determinam” o milagre, não Deus. A transferência de soberania de Deus para o homem é tristemente visível em nossos dias dentro da própria igreja.

É preciso dizer que Melman, que citamos algumas vezes, não é sequer cristão, mas um humanista, e não considera toda essa degradação como motivo suficiente para que o papel da religião seja repensado seriamente na sociedade. Ele conclui sua análise crítica do caos pós-moderno sonhando com um novo humanismo utópico, em que o abandono da religião não precise conduzir à destruição de toda ordem civil, o que é evidentemente um romantismo daqueles que Francis Schaeffer cansou de denunciar como irracional. Não há razão para o homem sem Deus viver em ordem social, promover o progresso ou respeitar a vida. 

Erramos. O Ocidente errou abominavelmente. Não somos deuses. As relações humanas são pautadas a partir do Pacto que Deus tem conosco, onde a moral nos foi Revelada. Ela não estabelece-se de acordo com nossa vontade e conveniência. Como crianças mimadas, nossos contemporâneos não querem mais produzir. A demanda ilimitada por consumo cada vez mais deixa dívidas financeiras para as gerações futuras,o que verifica-se em todas as nações, até as mais ricas. Estamos abrindo buracos e deixando a pobreza como herança pra nossos filhos. Vivemos dias terríveis e o consumismo é um demônio faminto a devorar tudo o que construímos. Não era assim que os puritanos pensavam. Nós devemos viver inteiramente para a Glória de Deus e construir um mundo por amor a Ele, tão somente.

“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (Rm 11:36) 

Diante de Deus, temos apenas dívidas, ofensas, pecados. Deus não nos deve nada.  A morte entrou no mundo e nós a merecemos. É a Graça de Deus quem nos sustenta, e tão somente ela. O que podemos fazer pra salvar o Ocidente do colapso? Reconhecer que só ELE é Senhor!

"A revolução começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (Visconde de Bonald)

Notas:
1.  Theodore Dalrymple, “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, p. 38.
2.     Charles Melman, “O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço”, p. 79.
3.     R. J. Rushdoony, “Sovereignty”, p. 266.
4. ver R. J. Rushdoony, “Revolt Against Maturity”, p. 5-12.
5. R. J. Rushdoony, “Sovereignty”, p. 111.
6. Charles Melman, “O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço”, p. 38.
7.  Theodore Dalrymple, “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, p. 38.
8.     Ibid., p. 40.
9. Ibid., p. 32.
10.   Charles Melman, “O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço”, p. 38.
11.   Theodore Dalrymple, “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, p. 238.