domingo, 18 de setembro de 2016

PEREGRINOS DE PLYMOUTH: SOCIALISTAS OU PIONEIROS DA LIBERDADE?



[Nota: O texto a seguir, em grande medida, é apenas uma adaptação do texto do dr. Paul Jehle, "Economic Liberty in America: a Legacy of the Pilgrims", com algumas informações adicionais que julguei úteis.]

Alimenta-se o mito de que os peregrinos que trabalharam e fundaram a colônia de Plymouth, onde hoje fica o estado de Massachusetts, eram socialistas. A verdade, contudo, é outra. Além de não terem sido, por natureza, socialistas, os peregrinos de Plymouth lançaram algumas das pedras de fundação da liberdade americana. De acordo com o Dr. Charles Wolfe, historiador dos Peregrinos, citado pelo Dr. Paul Jehle [1], a partir de insights providenciais como consequência de seu compromisso com as Escrituras, eles deram seis importantes passos para a liberdade:

“Me ocorreu que eles (os Peregrinos) tomaram seis passos corajosos para a liberdade, que esses são passos que cada geração de Americanos deve continuar tomando... que junto a estes seis aspectos da liberdade, resulta a aplicação do... auto-governo cristão.”[2]
A ORIGEM

Os Peregrinos de Plymouth eram Congregacionalistas separatistas que fugiam da perseguição religiosa na Inglaterra. As pressões começaram na vila de Scrooby, na Inglaterra, quando, em 1607, o Arcebispo Tobias Matthew aprisionou muitos membros da congregação, que saiu daquele país dois anos depois em direção a Leyden, na Holanda. Scrooby era uma comunidade agrícola e eles tiveram dificuldade para adaptarem-se à sociedade holandesa. Mas a perseguição continuou quando, em 1618, autoridades inglesas foram até Leyden prender William Brewster por suas críticas ao Rei da Inglaterra e à Igreja Anglicana. Tais eventos impulsionaram a saída da congregação da Holanda.

Em 1619, eles conseguiram a oportunidade de viajar para o Novo Mundo através da London Virginia Company e para isso tiraram um empréstimo de sete mil libras pelas mãos dos “Aventureiros”, mercadores que buscavam lucro nas colônias. Foi nesse momento que desenharam-se os problemas contratuais que levariam a sua experiência dolorosa, em virtude dos desacordos entre a congregação e os “Aventureiros”.

O CONTRATO

Os Peregrinos só podiam pagar sua dívida através do trabalho. O contrato, depois de muita discussão, só garantia lucro aos Aventureiros, não às famílias da igreja. O acordo requeria inicialmente a divisão dos lucros, mas os Peregrinos insistiam na propriedade privada de suas casas, jardins e terras em que eles desenvolveriam seu trabalho. [3] Esse acordo foi mudado no último minuto por Thomas Weston e Robert Cuchman, o agente dos Peregrinos. William Bradford descreve isso em “Da Plantação de Plymouth” (Of Plimoth Plantation):

“As maiores e principais diferenças entre aquelas e as condições anteriores firmam-se em dois pontos; que as casas, e as terras trabalhadas, especialmente jardins e lotes de casas, deveriam permanecer integralmente indivisas para os agricultores até o fim de sete anos. Em segundo lugar, que eles [os agricultores] deveriam ter dois dias na semana para o trabalho privado e de suas famílias, para maior conforto próprio e de suas famílias, especialmente os que tivessem famílias”. [4]

Fica claro, portanto, que os Peregrinos não eram socialistas por natureza; sua “experiência socialista” lhes foi forçada. Tudo seria “comum” até 1627. Em vez de trabalharem dois dias para o lucro privado, essa pequena liberdade lhes foi restringida para um dia. A desconfiança quanto ao mercado e a rejeição ao lucro eram predominantes na Inglaterra. [5]

A VIAGEM

Antes de sair da Inglaterra, o segundo navio, Speedwell, precisou de reparos e antes do chegar ao destino acabou sendo vendido por um preço muito menor do que o usado para consegui-lo. Alguns abandonaram a viagem e outros tripulantes embarcaram por conselho dos Aventureiros para auxiliarem no trabalho na colônia; todos espremidos com os suprimentos no outro navio, Mayflower, atrasando a partida, que se deu em setembro de 1620, com mais de 100 passageiros.

Por alguma razão, o navio Mayflower não aportou na Virginia e eles foram conduzidos a Plymouth, na Nova Inglaterra, chegando ao Cape Cod em novembro de 1620. Segundo Earle E. Cairns [6], isso foi providencial, pois na Virginia eles teriam sido perseguidos como na Inglaterra.
Antes mesmo de deixarem o navio, os colonos escreveram o primeiro documento de governo da colônia, o Mayflower Compact, assinado por 41 separatistas (homens), segundo os moldes do governo congregacionalista. Eles desembarcaram depois de dois dias, tendo permanecido no domingo para o culto e orações. Eles finalmente chegaram a Plymouth em dezembro.

No primeiro inverno, metade dos 102 passageiros do grupo original de peregrinos morreram. Apenas 4 mulheres adultas sobreviveram para formar a comitiva de 53 peregrinos que comemoraram a festa da colheita em 1621 com 90 índios nativos, que serviu como símbolo para uma importante tradição americana, o Thanksgiving (traduzido no Brasil como “Dia de Ação de Graças”). Um Tratado de Paz foi feito com os nativos para proteger suas relações como uma extensão dos princípios Pactualistas vistos no pacto da igreja em Scrooby e no pacto social de Mayflower. Os Peregrinos não teriam sobrevivido sem a ajuda providencial do índio Squanto, que anteriormente (1614) foi levado pelo explorador Thomas Hunt, passando cinco anos na Europa, primeiro como escravo de monges espanhóis e depois indo para a Inglaterra, retornando em 1619. Por essa razão, Squanto dominava o inglês relativamente bem. Squanto ensinou-os a fertilizar o solo da Nova Inglaterra.
No ano seguinte, a companhia mostrou-se desleal. Quando o navio Fortune desembarcou no fim de 1621, seus 36 passageiros não tinham comida suficiente para seu sustento. Bradford diz que:

“Eles nunca tiveram suprimento de mantimentos mais tarde (mas que o Senhor proveu de outra forma), já que tudo o que a companhia enviava era sempre muito pouco para as pessoas que trouxeram.” [7]

UM PASSO PARA A LIBERDADE ECONÔMICA

Na primavera de 1623, como cita o Dr. Paul Jehle, Bradford, como governador de Plymouth, entendeu que “a menos que algo fosse feito para torná-los produtivos e auto-suficientes, eles pereceriam.”  Segundo Jehle, “a análise de Bradford, em conselho com os outros, demonstra o raciocínio bíblico e a aplicação da Escritura”.

“Então eles começaram a pensar como eles poderiam produzir tanto milho quanto pudessem, e obter uma colheita melhor do que a que fizeram, para que eles não definhassem na miséria. ... O Governador (com o conselho do maior chefe dentre eles) consentiu que eles deveriam produzir milho, cada homem para seu particular, e, nesse assunto, confiar-lhes. ... E então nomeou a cada família uma parcela da terra, de cordo com a proporção de seus números... Isto foi muito bem sucedido, porque fez as mãos muito industriosas, ... As mulheres [anteriormente restringidas do trabalho] agora foram voluntariamente para os campos, e levaram seus pequeninos consigo para colher milho; de quem antes alegar-se-ia fraqueza e inabilidade; e que a quem se tivesse compelido julgar-se-ia como grande tirania e opressão.” 
“A experiência que se teve nessa condição e curso comuns, tentada por vários homens e entre pessoas piedosas e sóbrias pode demonstrar a vaidade de conceitos como os de Platão e outros antigos, aplaudidos por alguns mais recentes, segundo os quais a tomada de propriedade e a distribuição em comunidade de bens os faria felizes e produtivos; como se eles fossem mais sábios do que Deus. Porque essa comunidade (tão longe quanto estava) gerou tanta confusão e descontentamento e retardou o empreendimento que seria para seu benefício e conforto. Donde os homens jovens, que eram mais hábeis e dispostos para trabalho e serviço, lamentavam por ter de trabalhar para as esposas e filhos de outros homens sem qualquer recompensa. O forte não tinha mais na divisão de mantimentos e roupas que aquele que era fraco e inabilitado para fazer um quarto do que ele podia; isso era julgado como injustiça. O experiente e aperfeiçoado era classificado e igualado em trabalhos e mantimentos, roupas, etc., com o tipo mesquinho e jovem, julgava-se como indigno e desrespeitoso para com eles. E para as esposas serem comandadas para serviços de outros homens, como temperar sua comida, lavar suas roupas, etc., eles consideraram como um tipo de escravidão, nem poderiam muitos maridos tolerar isso.” 
“No ponto em que todos eram iguais, fazendo tudo igualmente, julgando-se nessa condição, e um tão bom quanto o outro; e então, se isso não cortou aquelas relações que Deus estabeleceu entre os homens, fez pelo menos com que diminuísse muito o respeito mútuo que deveria ser preservado entre eles. E teria sido pior se eles tivessem sido homens de uma outra condição. Que ninguém negue que essa é a corrupção do homem. Eu respondo, vendo que todos os homens têm essa corrupção em si, Deus em sua sabedoria viu outro curso mais adequado para eles.” [8]

É interessante notar a consciência de Bradford da origem de tais ideias em "Platão e outros antigos", reconhecendo suas bases não-bíblicas. Dr. Jehle afirma que Bradford identifica muitas razões pelas quais o socialismo e o comunismo elementar não funcionaram, mesmo entre pessoas piedosas, donde ele deduziu os seguintes “ingredientes de liberdade econômica” do discurso de 1623.

“1. Em uma propriedade comum de terra e trabalho, pessoas tornam-se preguiçosas, evadindo-se do trabalho, de forma que a propriedade privada deve embasar a liberdade econômica.
2. Sob o socialismo, pessoas tendem a inventar desculpas para não trabalhar, então o lucro privado é o ingrediente-chave em uma economia livre.
3. Convivência comunal gera descontentes, porque todos tendem a querer o que os outros têm, mas recusam-se a trabalhar por isso; então o bem-estar deve ser voluntário (caridade privada) antes de forçada (caridade regulada pelo governo).
4. O Socialismo é construído sobre o orgulho e presumiu uma igualdade externa em uma aberta ou ignorante negação do plano de Deus na Bíblia de forma que as diferenças entre jovens, adultos, experientes não são respeitadas. Uma economia livre é construída, em contraste, sobre o respeito e dignidade das diferenças individuais.
5. Embora alguns pensem no lucro como um motivo corrupto, é imperativo que se veja que a natureza humana é a verdadeira corrupta, incluindo aqueles que têm função no governo. O livre mercado, em contraste, é construído sobre incentivo pessoal e interesse próprio no intuito de sobrepujar a natureza corrupta de alguém.
6. Finalmente, o desenho de Deus para a economia descansa sobre a escolha voluntária, que é muito mais produtiva que a coerção do governo e a redistribuição de bens.”

Dr. Jehle continua dizendo que “Bradfort acrescenta uma sétima característica para o sucesso de uma economia livre. Ele afirma que os Peregrinos precisavam ‘descansar na Providência de Deus... orar que Deus lhes daria o pão diário.’ Depois da repartição de terra entre as unidades familiares, seguiu-se uma seca, ameaçando toda a plantação sob seu novo sistema voluntário. Diante disso, escreve Bradford, “[eles] separaram um dia solene de humilhação, para buscar o Senhor através de humilde e fervorosa oração, nesta grande angústia.” O governador relata que Deus “agradou-se em dar-lhes uma graciosa e rápida resposta, tanto para a própria admiração quanto para a admiração dos índios que viviam entre eles. Por toda a manhã, e pela maior parte do dia, o clima estava limpo e muito quente, e nem uma nuvem ou sinal de chuva era visto; mas ao anoitecer, começou a escurecer, e pouco depois a chuva veio com tão doce e gentil vigor que deu-lhes causa para regozijar e agradecer a Deus. Ela veio sem vento ou trovão ou qualquer violência, e paulatinamente em tal abundância que a terra estava completamente molhada e encharcada com ela. ... Por cuja misericórdia, em tempo oportuno, eles também separaram um dia de ação de graças.” [9] Foi depois desse dia de oração que Hobbomock, um nativo que vivia na plantação, converteu-se. E por volta de 1694 havia dias tradicionais, para Peregrinos e puritanos, de humilhação, oração e jejum, seguidos por dias de ações de graças, sempre durante a primavera (práticas que não pararam até 1894). Os tópicos dessas proclamações anuais incluíam uma petição a Deus por prosperidade econômica. E de acordo com Dr. Wolfe, a evidência da oração estava nos frutos, que foram a multiplicação da produção, ano por ano, em três vezes: em 1621, 26 acres; em 1622, 60 acres; em 1623, 184 acres. [10] Em vez de passarem necessidade eles mesmos, eles começaram a emprestar suprimentos para comunidades necessitadas em uma base regular, como Deus promete na Escritura em Deuteronômio 28:12 quando diz que “O Senhor te abrirá o seu bom tesouro, o céu, para dar chuva à tua terra no seu tempo, e para abençoar toda a obra das tuas mãos; e emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado.”

CONCLUSÃO

Diante de um estudo nas fontes primárias, portanto, fica claro que os Peregrinos de Plymouth não eram socialistas por natureza. Seria adequado entender, para outros fins, a diferença básica – não sobre esse assunto - entre os congregacionalistas separatistas e outros grupos puritanos que também migraram para os EUA, mas o presente ensaio não é adequado para isso. Até aquele momento, como explica Gary North (membro durante muitos anos do Mises Institute nos EUA), os puritanos ainda não haviam se dedicado a aprofundar uma visão bíblica das questões econômicas porque ainda não tinham sido forçados a isso. Em grande medida, até aquele momento eles aceitaram a regulação governamental desses assuntos e padrões medievais de “preço justo” e “teto salarial”, simplesmente porque era o que existia em sua época, como herança do período medieval -fato que católicos romanos conservadores evitam expor, escondendo-se sempre atrás dos acertos dos escolásticos tardios Para notar essa confusão medieval, basta lembrar que, não coincidentemente, as ordens monásticas mais importantes da Baixa Idade Média eram as ordens mendicantes e que de dentro do franciscanismo (a ala dos “franciscanos espirituais”) brotou forças comunistas.  Influenciados pelos conceitos de virtude do helenismo, o lucro e os “interesses econômicos” eram vistos muito negativamente entre os cristãos até a Reforma, até mesmo entre os valiosos Pais da Igreja.  Calvino, por outro lado, embora não tenha se dedicado a criar uma teoria econômica, deu valiosa contribuição para o assunto tentando libertar o cristianismo de seu simbionte helênico. Como exemplo clássico, há a interpretação correta da lei da usura, tão castigada pelos Pais da Igreja e cujas consequências nefastas afetam o Ocidente até hoje.

Segundo o Dr. Wolfe, os seis passos para a liberdade feitos por aqueles Peregrinos foram:

1. Liberdade Espiritual: o reconhecimento de pecado pessoal e a conversão a Cristo.
2. Liberdade Religiosa: o rompimento da igreja financiada pelo estado e a busca de uma igreja livre baseada em um pacto.
3. Liberdade Política: o Mayflower Compact.
4. Defesa da Liberdade: sua disposição em construir um muro para proteger a plantação.
5. Liberdade Econômica: o rompimento com o modelo de contrato inicial.
6. Liberdade Constitucional (1636): na sua Constituição, protegendo suas liberdades.

A colônia de Plymouth foi muito importante para a formação da cultura americana. Tivessem os seus herdeiros antes resistido em sua fidelidade doutrinária, os EUA talvez enfrentassem menos problemas hoje. Aquela experiência, somada depois à vinda de outros grupos puritanos, fez da Nova Inglaterra a região mais resistente ao secularismo humanista no país. Que sirva-nos de inspiração para uma organização cristã mais consciente e para a Glória de Deus.

NOTAS:
1. Paul Jehle, “Economic Liberty in America: a Legacy of the Pilgrims”.
2. Charles Hull Wolfe, Pilgrim Paradigm for the New Millennium, Letter from Plymouth Rock, Vol. 23, Issue 1, January/February, 2000, 2, Plymouth Rock Foundation, Plymouth, Massachusetts-www.plymrock.org.
3. Paul Jehle.
4. William Bradford, Of Plimoth Plantation, edited by Samuel Eliot Morison (New York:  Alfred A. Knopf, 1991), 41. Citado por Paul Jehle.
5. Gary North, Puritan Economic Experiments (Tyler, TX: Institute for Christian Economics, 1988), 8., citado por Paul Jehle.
6. Earle E. Cairns, “O Cristianismo Através dos Séculos”, 148.
7. Bradford, 102. Citado por Paul Hehle.
8. Ibid. 120-121.
9. Ibid., 131-132.
10. Wolfe, Paradigm, 4. Citado por Paul Jehle.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O PARAÍSO DAS MULHERES por R. J. Rushdoony



 

O PARAÍSO DAS MULHERES

Por R. J. Rushdoony



A calúnia muda sua base sem demora, porque ela está mais preocupada com o que vai machucar do que com a verdade. Em eras diferentes, acusações diferentes machucam mais. O que em um período pode ser uma acusação dolorosa pode se tornar uma honra em um outro dia.


Isso era certamente verdade de Calvino, e da Genebra nos dias de Calvino e no seu tempo de influência. Como Gilliam Lewis e Roger Stauffenegger pontuaram, a Genebra de Calvino ficou conhecida como “o paraíso das mulheres”. ("Calvinism in Geneva in the Time of Calvin and of Beza (1545-1605)," in Menna Prestwich, ed.: International Calvinism 1541-171.5, p.49. Oxford, England: Clarendon Press, [1985] 1986.) Havia boas razões para isso. Calvino foi um forte defensor dos “direitos das mulheres”. Sob sua liderança, os consistórios da igreja foram atrás dos abusadores domésticos. Eles processaram guardiões que desapropriaram fundos de pensão de órfãos e viúvas. Esposas abandonadas foram protegidas, e assim por diante. Prestwich referiu-se à atração do calvinismo para as mulheres nessa área ("Calvinism in France, 1555-1629," in ibid., p. 96.)


Naquela era, e por séculos anteriores, homens e mulheres prósperos e poderosos contraíram matrimônio com muitas jovens mulheres e homens. As famílias dos jovens consentiam com esses arranjos por suas vantagens pessoais. Calvino sentiu profundamente que esses casamentos não deveriam ser permitidos. Em janeiro de 1557, o Consistório dissolveu o casamento entre uma mulher com “mais de 70 anos” e um homem de 27 ou 28. (Philip E. Hughes, ed: The Register of the Company of Pastors of Geneva in the time of Calvin, p. 321. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1966.) Leis foram publicadas para proteger ambos homens e mulheres no casamento. Para evitar fraudes, muitas leis foram estabelecidas. Assim, “estrangeiros vindos de um país distante” não tinham permissão de casar em Genebra antes que uma cuidadosa investigação sobre seu passado e sua família fosse feita. (Hughes, p. 75.) Uma mulher perseguida por sua fé podia legitimamente deixar seu marido. (Hughes, p. 197.)


Seria um erro dizer que os pastores de Genebra sempre foram sábios em julgamentos de casos envolvendo mulheres. O que está claro é que a Genebra Calvinista era vista em seus dias como “o paraíso das mulheres” por causa da receptividade de Calvino e outros para seu empenho e necessidade de justiça. Havia uma razão para essa atitude. Ela era o reavivamento do Velho Testamento como uma parte inseparável da Bíblia; o Novo Testamento era lido como uma parte essencial do Velho Testamento.


E porque o Velho Testamento liga solidamente a santidade à lei, e a lei está preocupada com a vida diária, o resultado foi o que Henri Hauser chamou de “secularização da santidade”, i.e., a santidade foi feita matéria da vida diária para todos os crentes.  A santidade agora era um objetivo de todos os cristãos. Isto era, nas palavras de Luthy, uma “insistência na vida santificada como objetivo de todos os crentes.” (Herbert Luthy, "Variations on a Theme by Max Weber," in Prestwich, p. 381) Calvino disse de Lucas 6:35 que é nosso dever fazer o bem sem fazer nada em troca; nós devemos exercitar uma bondade nobre, não mercenária, por termos recebido graça, nós deveríamos portanto manifestar graça. (Calvin: Harmony of the Evangelists, I, p. 302f.)


Nós temos um fato notável aqui na reforma que Calvino promoveu em Genebra. Ela era uma cidade corretamente chamada em seus dias de “paraíso das mulheres”. Este é um aspecto da Reforma para o qual foi dada atenção insuficiente.  A razão é que essas reformas nas leis civis e eclesiais que fizeram Genebra tão notável em seus dias estão agora associadas ao “patriarcalismo”, e patriarcado é uma palavra odiada pela feministas (tanto as de saias quanto as de calças). Ela sugere uma visão de opressão masculina, dominação e regra. Ela tornou-se símbolo de males passados e presentes.


O fato significante, entretanto, é que aquele “patriarcalismo” não era centrado no homem, mas centrado na governança da fé e da família. Homens modernos na família atomística comumente têm maior poder, se eles escolherem exercê-lo, do que tinham os homens “patriarcais”. A razão é muito clara: o “homem patriarcal” era um administrador do passado para o futuro. Em I Reis 21, nós vemos que Nabote não sentiu que ele tinha o direito de vender as terras da família, não importasse quanto dinheiro o rei Acabe oferecesse. A terra não era sua exceto como uma confiança de seus antepassados para os não-nascidos. 


O apelo da vida existencial é que ele limita todo o poder e direito ao momento presente. O “homem existencial(ista)” não vê responsabilidade para com o passado ou para com o futuro, nem para com qualquer coisa momentânea que não seja seu desejo e vontade. É por isso que, dada qualquer oportunidade, o "homem existencial” é sempre tirânico e opressivo: ele fará o que fará com a segurança de não incorrer em nenhum julgamento imediato. Tanto o poder quanto o “direito” são limitados ao momento e à sua vontade. O que não acontece com o “homem patriarcal”. Ele é ligado a responsabilidades, à família e a outras pessoas. Sua esposa é sua parceira e vice-gerente nas responsabilidades e ambos precisam estar orientados em direção ao futuro. 

O feminismo, como o machismo, são existencialistas e orientados em direção ao presente. Não têm qualquer senso de comunidade ou de harmonia de interesses. Tanto feministas quanto machistas acreditam que existe uma guerra dos sexos e saem para vencer essa guerra.  Como bons darwinistas, eles acreditam na sobrevivência do mais apto numa guerra cósmica pela sobrevivência. Desde que o universo não tem lei ou moralidade em sua fé, os mais aptos são simplesmente os sobreviventes,  aqueles cuja radical ausência de raízes e preocupação por moralidade os habilita para sobreviver.
Para todas essas pessoas, o patriarcado é uma armadilha, porque ele pressupõe, a despeito da Queda e da depravação humana, a sumidade e triunfo da Lei de Deus. O universo é então um universo moral. Como Débora declara em sua canção, “Até mesmo as estrelas lutaram! Deixaram as suas órbitas para pelejarem contra Sísera.” (Juízes 5:20)

Uma cultura bíblica, "patriarcal", vê o conflito essencial da vida como um conflito moral, não um conflito pessoal. Como estudante, eu escutei um professor, não favorável ao “patriarcalismo”, chamar sua característica principal de hospitalidade, e abertura para as pessoas. Ele citou como reveladoras a resposta de Abraão aos três estranhos: ele convidou-os a compartilhar seu sal e sua vida. (Gênesis 18)

O atomismo social moderno, contudo, vê todos os homens como inimigos e transforma o mundo em um lugar hostil. Classe é colocada contra classe, e raça contra raça. Woodrow Wilson, eleito presidente dos EUA, enquanto estudante de Princeton, compartilhou o ódio de estudantes contra jovens da cidade, chamados de “esnobes” em Princeton, e escreveu, “Nós ainda precisaremos matar alguns daqueles esnobes antes que eles aprendam a ter prudência.” (Jonathan Daniels, "Woodrow Wilson's Pious Young," in The New Republic, October 29,1966, p. 28; vol. 155, no. 18.) Wilson, é claro, não tinha qualquer plano de assassinato, mas ele gostava de pensar nesses termos.  Não surpreendentemente, ele ajudou a avançar a causa do conflito de classes.  Mesmo que ele sonhasse com um mundo tornado seguro pela democracia, ele avançou as divisões sociais com seu pensamento.

A cultura bíblica, "patriarcal", é agora muito desprezada por aqueles que, como humanistas, odeiam soluções morais. Para eles, nossos problemas não devem ser diagnosticados como rebelião contra Cristo e contra a Lei de Deus,  mas como um problema de conflitos econômicos, tensões entre classes, e condicionamentos sociológicos de uma natureza regressiva e sociopática. Calvino é pra eles um símbolo de respostas ruins, e um livro recente vê Calvino essencialmente como um homem “doente”! O livro fala-nos mais sobre o autor do que sobre Calvino.

Citei em certa ocasião, numa preleção, o trabalho do bispo St. Charles Borromeo, cujo trabalho era “dar dotes de matrimônio para garotas sem dinheiro cujo destino de outra maneira seria as ruas,” e ainda a pensionatos para pessoas de ruas em seus dias, orfanatos, uma casa para ex-prostitutas, e uma casa para mulheres casadas desventuradas. (Margaret Yeo: Reformer: St. Charles Borromeo, pp. 115, 228f. Milwaukee, Wisconsin: Bruce, 1938.) A resposta às vezes é fria. Problemas “sociais”, muitos afirmam, deveriam ser administrados pelo estado, não por “amadores”.

Quando nós despersonalizamos os problemas de homens e mulheres, nós também despersonalizamos a nós mesmos. Reduzimos as pessoas a cifras matemáticas cujas respostas estão nos atos do Congresso ou do Parlamento. Nós negamos Cristo e o Cristianismo em favor do estado e seus assistentes sociais. Borromeu em Milão e Calvino em Genebra deram-nos outra resposta.

Mas para muitos hoje, Genebra não poderia ser o “paraíso das mulheres”. Afinal, Genebra não tinha nenhuma Emenda de Direitos Iguais! Paulo nos diz, entretanto, que “Onde está o Espírito, aí há Liberdade.” (II Cor 3:17), e este é o Espírito que nos deu a Lei e os Evangelhos. Se nós não buscamos nossas respostas no Senhor e em Sua Palavra, nós somos parte do problema.
 
Rushdoony, Roots of Reconstrution, p. 407.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A PARANOIA INTERPRETATIVA ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA

A PARANOIA INTERPRETATIVA, ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA
por Vitor Barreto.
Revisão: Fabrício Tavares.


[Nota: Infelizmente, o texto a que nos referimos é fruto de todo um trabalho que tem sido construído dentro do conservadorismo brasileiro, especialmente em sua matriz católica, contra o protestantismo. Que ele sirva de alerta para os líderes reformados no nosso país.]

A onda conservadora tupiniquim, ainda tão adolescente – se é que chegou na adolescência –, mostra os ares de sua imaturidade no texto “Calvino e a Mentalidade Revolucionária”, escrito pelo senhor Luís Fernando Pessoa, professor de História Antiga e Medieval da Universidade Estadual de Maringá, PR. Esperava eu, quando me foi enviado o referido texto, encontrar algum trabalho acadêmico respeitável e não uma peça de desinformação tão supostamente bem intencionada.

A tese do senhor Pessoa é que João Calvino, reformador francês, que influenciou indiretamente o desenvolvimento político religioso e cultural de países conservadores como a Inglaterra e os EUA, supostamente enquadra-se dentro das características apontadas pelo professor Olavo de Carvalho dentro do fenômeno que este denomina de “mentalidade revolucionária”. Não convém entrar no mérito da teoria do professor de Carvalho a respeito da mentalidade revolucionária, que creio pessoalmente ser verossímil. Me ocuparei, destarte, à tentativa imperita de interpretar a pessoa de João Calvino na tese do referido professor universitário.

O professor introduz o texto com a exposição da inversão do tempo histórico como uma das características da mentalidade revolucionária. Em relação a João Calvino, contudo, isso não significa absolutamente nada. Calvino não era como os camponeses revolucionários da Alemanha ou como os anabatistas que perturbaram a ordem civil na Europa. Em primeiro lugar, o reformador de Genebra não acreditava em um "progresso civilizacional contínuo" como creem os revolucionários, e muito menos julgava-se um "eleito" no sentido de impulsionar tal progresso  [seria por demais desgastante e vergonhoso ter que explicar que Calvino não inventou a doutrina da eleição, além de desviar um pouco do tema; por essa razão não tratarei do assunto]. Para Calvino, Deus sempre punirá um povo na medida em que este se fizer condenável diante de Sua justiça; o único progresso que Calvino assevera sem dúvidas é o da expansão do Reino em razão das profecias que garantem que o Evangelho se difundirá por todo o mundo. Os camponeses e anabatistas, contudo, desejavam revolucionar as relações sociais. Muitos deles criam que o Reino de Deus seria estabelecido pelas mãos das pessoas naquele momento. Foi contra eles que Calvino escreveu:

"De princípio, antes que entremos na própria matéria, deve-se levar em conta aquela distinção por nós anteriormente estabelecida, de sorte que, a um tempo, não misturemos imprudentemente, o que comumente sucede a muitos, estas duas coisas que têm natureza inteiramente diversa. [...] Mas quem sabe discernir entre o corpo e a alma, entre esta vida presente e a transitória, e aquela vida futura e eterna, não terá dificuldade em entender que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muitíssimo distintas entre si. [...] nos lembramos de conter dentro de seus limites toda esta liberdade que nele nos é prometida e oferecida. [...] não importa em que condições estejas entre os homens, sob leis de que país vivas, uma vez que o reino de Cristo está mui longe de se situar nessas coisas. [...] Ora, a respeito do que alegam, que deve haver na Igreja de Deus tal perfeição que façam as vezes de quantas leis demandem, tal imaginação é uma insensatez, pois jamais poderá existir tal perfeição em qualquer sociedade humana." [1] 

A não ser que um leitor interprete desonestamente, ninguém pode negar que Calvino não confundia as "reformas sociais" que tentou promover para tirar Genebra do caos civil em que se encontrava com a tentativa de impor a própria vontade para a criação de um "futuro melhor", como se assim buscasse o Reino de Deus dentro de um progresso histórico, como defendia Shleiermacher e outros. Possíveis otimismos em relação ao futuro, convivendo ao mesmo tempo com o pessimismo, não são de forma alguma incompatíveis, caso resguardados seus devidos aspectos. Ninguém chamaria a Igreja de Roma de revolucionária (se pressupuséssemos preguiçosamente seu argumento histórico) quando lembramos que o monge Telêmaco findou as lutas de gladiadores, ou que a fé cristã ajudou a valorizar o casamento como uma instituição para os escravos, ou que Tomás de Aquino tenha criticado a prática da tortura, ou que o monge hoje conhecido como Bonifácio derrubou o carvalho sagrado dedicado ao deus Thor no processo de evangelização das tribos germânicas, etc. Semelhantemente, Calvino pediu para que Servetus não fosse executado no fogo por sua heresia (por ser a fogueira por demais cruel), etc. O reformador tinha um padrão transcendente imutável independente de si mesmo, ao qual buscou se adequar. Que horrível crime, esse, não?! Ao ler o texto do professor Luís, temos a impressão de estudar um esquizofrênico que teve a sorte de ser rigorosamente lógico, e, por acaso, tinha amplo conhecimento da Patrística e das Escrituras. O professor Luís Fernando Pessoa ataca ferrenhamente uma caricatura, um espantalho, como veremos a seguir.

O argumento gira em torno da seguinte citação de Calvino que Luís acredita conter uma evidência da mentalidade revolucionária:


“Pois, ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum, estou também dignamente cônscio de que terei Ele e os anjos como testemunhas, desde que recebi o ofício de doutor na Igreja, de a nada mais ter-me proposto senão fazer avançar a Igreja, afiançando a sincera doutrina da piedade” (CALVINO, 2007, p.12)"

Para o professor, a frase supracitada do reformador apresenta uma característica da mentalidade revolucionária pela “certeza de que ele está ao lado de Deus e que é Ele mesmo quem o justifica em sua tarefa de levar adiante o que considera como a verdadeira religião“. Uma associação dessa natureza leva-nos certamente a vários problemas – por que não dizer? – hirsutos, já que tal crença pode ser reconhecida em todos os profetas, apóstolos, missionários, bispos católicos, padres e pastores evangélicos. É próprio do adepto fiel de uma religião crer que ele segue a religião verdadeira, ou haveríamos de ser demasiado estúpidos pra crermos que o cristianismo é a religião verdadeira, mas que, ao invés, deveríamos difundir o budismo pelo mundo afora, ou viver como se não crêssemos em Cristo. Em contrário, vejamos o que escreveu o profeta Isaías (50:5-9) que citarei na tradução católica para evitar possíveis lamúrias. 

“{o Senhor Deus abriu-me o ouvido} e eu não relutei, não me esquivei. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá.”

O profeta Isaías julgou-se no “direito” (para usar o termo do homônimo do poeta português) de contestar todo o caminho que o povo de Israel seguia, e assim trazê-los para o padrão veterotestamentário da Lei de Deus. Isaías cria-se vocacionado por Deus para tal missão que julgava estar absolutamente correta. Que coisa horrenda, não? Um verdadeiro revolucionário! Ou talvez um mero crente. Seria curioso o honrado Luís, aparentemente aluno do Olavo de Carvalho, fazer o mesmíssimo julgamento contra um dos maiores santos católicos romanos, São Francisco de Assis. Sim, porque Francisco (aparentemente tão respeitado e recortado em suas opiniões por católicos romanos tão ingênuos quanto um Brás Cubas ou um Dom Quixote) julgou-se escolhido por Deus para uma missão através de uma experiência sobrenatural, que deu-lhe fé tal que fê-lo viver como um asceta confuso em nome de um padrão moral que certamente não é bíblico, e a quem Eric Voegelin diz ser o “símbolo da revolução”. [História das Ideias Políticas – v. II, p. 161] Confesso, sinceramente, que gostaria que o professor de Maringá conduzisse adiante tal empreitada – ou talvez haja algum tipo de limitação de conteúdo entre os alunos do professor, uma espécie de agenda de opiniões proibidas.

Depois de afirmação tão curiosa, a próxima assertiva do mesmo parágrafo será dividida em duas partes por questões didáticas. Primeiro ele diz que “Calvino desenvolve a certeza de que está predestinado a corrigir a sociedade através de uma transformação social profunda”. O termo "profunda" aqui é subjetivo e é de inteira responsabilidade do autor. Calvino queria sim, promover transformações sociais, mas não como ele supõe. Quando Calvino fala em "expandir o reino", ele refere-se primeiramente à expansão do próprio Evangelho, não da transformação social em si, que seria obra do Espírito Santo através da pregação da Palavra, coisa que todo cristão deveria supor naturalmente. Como dissemos no parágrafo anterior, o profeta Isaías queria promover uma transformação social "profunda" em Israel: lançar fora toda idolatria, corrupção espiritual dos sacerdotes e a maldade da monarquia. Ora, outro tipo de mudança social foi promovido pelo apóstolo Paulo, embora indiretamente, quando prejudicou a economia da cidade de Éfeso com sua pregação (Atos 19). A cidade de Éfeso era um centro de culto à deusa Ártemis, e a conversão dos cristãos significou prejuízo financeiro para os forjadores de ídolos. Seria necessário supor que uma religião não pode de forma alguma influenciar a vida social de uma comunidade para julgar qualquer influência como revolucionária. Talvez o professor creia, ainda que irrefletidamente, que ser cristão é uma mera intuição intelectual que não pode causar transformações sociais, de maneira que não é possível ver a si próprio como um missionário da obra de Deus. De semelhante modo, talvez ele entenda que a fé cristã tenha que subsistir apenas subjetivamente, não tenho absolutamente nenhuma opinião acerca das relações sociais (quando, na realidade, tem). Se assim o for, temos perante nós uma situação menos do que existencialista. Calvino não aboliu nenhum tipo de relação social, mas as adequou ao padrão cristão, da mesma forma que os profetas do Antigo Testamento exigiam que o povo desviado retornasse ao padrão do Pacto. Ora, sabe-se, para citar mais um exemplo, que, no retorno do cativeiro babilônico, o povo hebreu, tomando a Lei Mosaica como padrão, desfez todos os casamentos entre os judeus e as mulheres pagãs. O casamento entre judeus e membros de outras religiões era proibido (Esdras 9 e 10). Calvino não faz nada sequer parecido com isso. Esdras, que também cria ter a responsabilidade de organizar o povo por vocação divina, era um revolucionário? 

Vamos então à segunda parte do recorte. O sr. Luís afirma que Calvino desejava promover a tal “transformação social mediante a concentração de poderes em suas mãos”. Gostaríamos de saber a partir de que material o referido professor universitário tomou conhecimento da vida de Calvino. Estamos falando de modo sincero, porque até mesmo na leitura mais superficial das Institutas é possível notar justamente o contrário do que o professor afirma. Calvino não tinha o poder concentrado em suas mãos, nem almejou tal coisa. Este mito pueril é comum entre apologistas papistas de fóruns de quinta categoria, mas não é de se esperar de um professor universitário (muito menos um professor de História!). Prossigamos às informações contra a desinformação:


1. O reformador, a priori, não desejava sequer ser pastor. Seu intuito original era ser um teólogo recluso. Foi Guilherme Farel, outro reformador, quem o convenceu, mediante uma imprecação, a aceitar o chamado para o pastorado. Guilherme também havia iniciado a Reforma em Genebra antes da chegada do francês, e a cidade, então, vivia um caos.  

2. Calvino era francês, não cidadão suíço. Sua autoridade em Genebra era apenas indireta, tomando forma de um conselheiro moral, na melhor das hipóteses. Ele não foi nunca um membro governante do Conselho e, de fato, não poderia ser membro no corpo governante mais alto, pois apenas cidadãos de Genebra (os nascidos em Genebra como cidadãos) podiam ocupar tal cargo.

3. Calvino defendia a separação entre a Igreja e o Estado, mas subjugava ambos à religião cristã. A religião cristã estabelece a função das autoridades civis. Contudo, isso jamais seria forçado, visto que, para Calvino, um cristão deveria reconhecer a autoridade dos magistrados, exceto nos casos em que o governo o obrigasse a cometer pecados. E isso incluiria o governo civil de Genebra, que não era sujeito a Calvino, como vimos. Para Calvino, a prudência conduziria exatamente à conclusão contrária: afinal, a divisão dos poderes é mais prudente. Embora reconhecesse que a Bíblia não impõe um modelo estatal específico, Calvino prefere a aristocracia ou a democracia, ou uma mistura de ambos, visto que, ainda que devendo respeito aos monarcas, entendesse que uma monarquia pode ser mais perigosa por concentrar os poderes nas mãos de um único indivíduo. A divisão dos poderes, portanto, seria uma garantia de proteção da ordem civil. Portanto, como Calvino, que discorreu mais sobre os deveres dos governantes do que sobre os seus direitos, exigia para si a autoridade, se ele mesmo ensinava o contrário disso? Não foi por acaso que em todos os países onde o calvinismo alcançou certa influência, ocorreu exatamente o inverso do que o professor Luís entende: foram os calvinistas que tiraram a Inglaterra do Absolutismo e diminuíram o autoritarismo na Holanda, por exemplo. É o famoso Alexis de Tocqueville, reconhecido por qualquer conservador, quem aponta a influência dos puritanos na formação dos EUA. Ele diz: 

"... os imigrantes da Nova Inglaterra levavam consigo admiráveis elementos de ordem e de moralidade; entravam pelo deserto acompanhados de suas esposas e de seus filhos. Mas o que os distinguia, sobretudo, de todos os outros [colonizadores] era a própria finalidade de sua empreitada. Não tinham abandonado o seu país forçados pela necessidade; deixavam para trás uma posição social cuja perda seria lamentável e meios de vida garantidos; tampouco passaram ao Novo Mundo a fim de ali melhorar a sua situação ou de fazer aumentar as suas riquezas; arrancavam-se às doçuras da pátria para obedecer a uma necessidade puramente intelectual; expondo-se às misérias inevitáveis do exílio, desejavam fazer triunfar uma ideia. [...] As colônias inglesas, e foi essa uma das principais causas da sua prosperidade, sempre gozaram de maior liberdade interior e de maior independência política que as de outras nações; em nenhuma parte, porém, foi esse princípio de liberdade mais completamente aplicado que nos Estados da Nova Inglaterra." [2] 


Ainda, segundo Francis Schaeffer, John Locke simplesmente secularizou, sobre uma base iluminista, princípios políticos de puritanos como Samuel Rutherford. Schaeffer explica isso partindo da influência do reformador de Estrasburgo, Martin Bucer: 

“O modelo constitucionalista, implícito na política da Igreja Presbiteriana, não era só um exemplo, mas um aprendizado para os princípios da limitação política. E, mesmo naqueles lugares em que, como no caso da Inglaterra, o presbiterianismo como tal não vingou, suas ideias políticas acabaram sendo difundidas por meio de múltiplos e complexos grupos na vida pública inglesa, assumindo o papel criativo na diminuição do poder dos reis ingleses. Como resultado, os cidadãos comuns acabaram descobrindo uma forma de se livrar do poder governamental arbitrário, em uma época em que todos os países estavam caminhando rumo a alternativas políticas absolutistas (...) Muitas coisas boas na Inglaterra vieram da Escócia. Temos em um livro escrito por um escocês, Samuel Rutherford (1600-1661), o mais claro exemplo de um dos princípios da Reforma, que é o controle político da soberania por parte do povo [embora não haja aqui ainda o conceito de soberania popular]. O livro chama-se Lex Rex: a lei é Rei. (...) A obra de Samuel Rutherford e a tradição que ela encarnava tiveram grande influência sobre a Constituição dos Estados Unidos, por mais que os povos anglo-saxões de hoje tenham esquecido amplamente. A primeira foi John Wisterspoon (1723-1794), um presbiteriano que seguia o Lex Rex de Rutherford à risca usando os seus princípios pra base da Constituição e o estabelecimento de formas e liberdades. (...) O segundo veiculador da influência de Rutherford foi John Locke (1632-1704) que, embora secularizando a tradição presbiteriana, foi fortemente influenciado por ela.” [3] 

4. João Calvino não concentrava poderes nem mesmo dentro da igreja reformada que ele ajudou a construir. Foi, aliás, o próprio reformador que, levando em conta o modelo de governo eclesial bíblico de presbíteros (à luz da autoridade crescente do bispo a partir do segundo século em virtude da luta contra as heresias), criou um modelo de governo descentralizado. Calvino estabeleceu quatro ofícios na Igreja: pastores, mestres (doutores), presbíteros e diáconos. O poder de influência da Igreja em Genebra era estabelecido pelo “Venerável Conselho de Pastores”, que era formado, inclusive, por leigos, possuindo uma função meramente eclesial. Era o Consistório, ou Presbitério, que tinha obrigação de manter a disciplina entre os cristãos. Foi daqui que nasceu o outro mito em torno de Calvino sobre a tal “rede de espionagem”. Infelizmente, para estes, o Consistório não dispunha do direito de punição civil. [4] A cidade era conduzida por meio do governo dos presbíteros, todavia, Calvino não foi um inovador. Em muitas cidades, algumas leis foram ignoradas e outras foram “acrescentadas”, tão somente. A única inovação foi que essas leis começaram a ser aplicadas. Deveríamos considerar Calvino revolucionário por não ser “brasileiro”? Deveríamos considerar o Antigo Israel uma nação revolucionária por proibir a prostituição escancarada?   

O católico Christopher Dawson, reconhecido dentro do meio conservador, afirma com todas as letras que Calvino não era um revolucionário.  

“Assim, após desfrutar de uma geração livre e individualista, de maneira quase irrestrita, o protestantismo trouxe de volta os padrões mais estritos de conformidade religiosa, tanto na ideologia quanto no comportamento. A tensão era severa, mas a força interior da disciplina genebrina deu às Igrejas Calvinistas o poder de não resistir somente à pressão hostil, mas a reagir com sucesso à agressão e à ação revolucionária. Calvino não era um revolucionário político. Respeitava os direitos da autoridade civil, e sempre teve esperanças de que o rei pudesse tolerar a religião reformada, ou mesmo que se tornasse seu protetor.” [5]

E o próprio Dawson ainda informa sobre uma carta escrita por Calvino para o almirante Garpard de Coligny em 1559 onde afirmou que “era melhor todos perecerem centenas de vezes do que o Evangelho ficar exposto ao opróbio como causa da guerra civil e da carnificina.” [6]

5. Ademais, há inúmeras evidências das controvérsias entre Calvino e os Magistrados Civis e até mesmo com outros reformadores. Não sabe o digníssimo professor que Calvino foi expulso de Genebra durante 3 anos, permanecendo em exílio – e não no propósito de estabelecer alguma revolução (que pena!) – desde então? Findado o período de três anos, no qual contraiu matrimônio, foi convidado pela própria cidade de Genebra a retornar e auxiliar na organização da cidade conturbada. Em outra ocasião, para citar um exemplo, Calvino discordou da opinião de diversos membros da igreja reformada e dos Magistrados, todos contemporâneos seus, sobre a festividade do Natal. Isto está registrado em uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551. Nela, Calvino escreveu: “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação a fim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”. [7] E mais: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos [sobre a Santa Ceia] fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais frequente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha”. [8] 

Entre “procurar moderação” e estabelecer ditatorialmente, como sugerem muitos apologetas romanistas e até mesmo Olavo de Carvalho, creio que há a mesma diferença existente entre o casamento e a escravidão sexual. Em contrapartida, seria a influência de Calvino tão incontestável se seus herdeiros na Escócia tivessem abolido temporariamente o Natal em desacordo com ele mesmo? 

O conflito entre a Igreja de Genebra e os Magistrados torna-se ainda mais evidente quando lemos que, logo depois da morte de Calvino, os Magistrados exigiram para si o direito de excomunhão, em virtude da inconformidade da teoria da relação entre Estado e Igreja de Calvino com as estruturas sociais existentes. Para Calvino, tal direito cabia à Igreja, enquanto os Magistrados preferiram ficar com a opinião de outros reformadores como Zwínglio. Como Richard C. Gable escreveu:


“Em setembro de 1548, o Conselho da cidade determinou que os pastores podiam apenas exortar o povo, mas não excomungá-lo. Em dezembro, o Conselho prosseguiu em suas tentativas de usurpar o poder dando a Guichard Roux a permissão de receber a Ceia do Senhor, após ter sido proibido de fazê-lo pelo Consistório. O próprio Calvino foi admoestado pelo Conselho no dia 24 de setembro de 1548 por causa de uma carta que tinha escrito, criticando os magistrados de Genebra. Após vários protestos e esforços dos pastores, o Conselho finalmente concordou, em 24 de janeiro de 1555, em conceder ao Consistório os direitos que lhe cabiam conforme o estabelecido pelas Ordenanças Eclesiásticas de 1541. Basicamente, as Ordenanças Eclesiásticas estabeleciam o padrão pelo qual a Igreja funcionaria. Foram estabelecidos o horário e o número de cultos na cidade, bem como a frequência dos pastores aos encontros e outras regulamentações, tais como a excomunhão.” [9]

Parece incontestável que Calvino foi um “conciliador”, não um ditador revolucionário. Creio que não é necessário tecer comentários sobre a seguinte frase: “o da iluminação divina do indivíduo que se vê a si mesmo como o portador de uma mensagem transformadora e necessária para toda a humanidade.” Afinal, o Evangelho é exatamente isso. O problema é saber se o que Calvino crê é o Evangelho verdadeiro ou se a verdadeira religião cristã consiste em autoflagelações parecidas com as praticadas pelo islamismo ou com o ascetismo monástico neoplatônico que em termos práticos difere muito pouco do ascetismo das seitas gnósticas. Discutir isso, contudo, não é o cerne deste ensaio.

O próximo parágrafo é especialmente interessante.


“Quando Calvino afirma “ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum” ele utiliza um tipo de raciocínio que o aproxima da Divindade e o faz não apenas mais próximo dela como também seu principal e provavelmente único representante aqui na terra. Ser um representante de Deus, nesse sentido, significa fazer o possível para que Sua vontade seja realizada.”

Sobre isso, primeiro devemos atentar para o fato de que ter Deus como tutor espiritual é a crença do cristianismo desde, digamos, sempre. Afinal, a Igreja Católica Romana defende a mesmíssima coisa. Não é a Igreja de Roma responsável para fazer “o possível para que Sua Vontade seja realizada?”. Atenhamo-nos ao papa: ora, não seria o papa um consagrado por Deus? O papa não é, para voltar às palavras de Luís, “um representante de Deus”? Todos os papas Curialistas reclamaram posição semelhante. Decerto que Calvino não é um papa e jamais considerou-se assim, nem foi considerado por quem quer que seja, o que torna-se evidente a partir das informações colocadas há pouco. O reformador de Genebra nunca foi papa e nunca foi tido como infalível, e isto é evidente, noutro exemplo, pelo calendário festivo e pela forma de culto da Igreja Reformada na Escócia, capitaneada por um pastor pessoalmente doutrinado por Calvino, John Knox. Na Escócia, muitas opiniões de Calvino não foram seguidas. Como ele mesmo diz, João Calvino era um “doutor”, um “mestre”, ofício esse que aliás foi reconhecido pelo apóstolo Paulo em Efésios 4:11, e que muitos católicos romanos também creram ser.

O maior disparate é, a partir da aparente ignorância das doutrinas calvinistas, entender que “parece claro que se o indivíduo acredita firmemente que está representando o próprio Deus entre os homens, aqui, no que seria o vale de lágrimas de nossa história, não seria de se imaginar que o mesmo sujeito acreditasse que houvesse entre os próprios homens – dentre os quais ele é um –, pelo menos um que o pudesse questionar ou rebater.” Não, sr. Luís Fernando. Não parece nada claro, exceto para uma mente tendenciosa e tomada por tanta desinformação. 

Como ficou claro (e, desta vez, efetivamente claro) por tudo o que escrevi até aqui, Calvino jamais disse que era inquestionável. Fica ao autor o ônus da prova, alguma afirmação que sustente seu disparate. Tomás de Aquino, idolatrado por alguns, considerava a si mesmo inquestionável pelo fato de não ter deixado nenhum registro oficial do contrário? Se contudo, o reformador tinha uma argumentação sólida e coerente, seus críticos deveriam proceder com uma investigação mais prudente a fim de verificar se ele não está provavelmente certo. A menos que alguém possa ser devidamente corrigido, não há razão alguma para que este creia estar errado em alguma proposição, ainda que não considere a si mesmo como sendo infalível. Apesar de seus herdeiros serem chamados "calvinistas", a exegese bíblica avançou desde o reformador e alguns de seus pontos são contestados por diversas vertentes. Alguns questionam um aspecto da doutrina do batismo de João Calvino, outros divergem a respeito da eclesiologia ou da escatologia. Porém, mesmo um teórico anti-Reforma como Eric Voegelin afirmou que a obra do reformador francês possuía uma “unidade inteligível de significação ... como a defesa que um advogado faz de uma causa.” [10] As opiniões negativas de Voegelin sobre Calvino e a Reforma, ora baseadas nos mesmos mitos apologéticos anti-calvinistas dos quais os católicos abusam, ora de interpretações tão desastradas quanto essa do professor Luís, ora por causa de seus pressupostos. Voegelin era influenciado pela neo-ortodoxia e tinha Karl Barth e Rudolph Bultmann como suas referências de “cristianismo”. Por isso, Voegelin crê que “nenhuma doutrina bíblica pode ser extraída do texto [bíblico]”, ou que “a Cristandade dos Evangelhos sinóticos, do Evangelho de São João, das Epístolas de São Paulo e da Epístola aos Hebreus representa variantes que não podem ser organizadas numa doutrina sistemática sem contradições” [11]. Afirmações dessa natureza são coerentes com a crença que Karl Barth tinha em paradoxos. Ademais, Voegelin é tomado pelo dualismo natureza-graça, e acredita que o Antigo Testamento e a filosofia grega são na verdade os “dois antigos testamentos”, como enfatiza Mendo Castro em seu livro “A Filosofia Civil de Eric Voegelin”. É curioso, no fim das contas, que o próprio Voegelin, depois de acusar toda e qualquer criatura viva ao seu redor de “gnosticismo” em sua “Nova Ciência da Política”, foi chamado de “gnóstico” por vários estudiosos. Mendo ainda fala sobre as críticas ao próprio conceito de "gnose" usado por Voegelin, que, segundo o autor português, não pode ser considerado "erudito". Para piorar, os mesmíssimos pressupostos usados por Voegelin para chamar muitos de gnósticos foram usados para acusar até mesmo os apóstolos ( ! ) de gnosticismo! O anti-cristianismo de Voegelin, que rejeitava a inspiração de muitos textos da Escritura, fica assim evidente. Parece ser o vício de muitos filósofos não-ortodoxos tratar do Cristianismo recortando as partes da Escritura que não cabem em suas teorias (este infelizmente também foi o caso de René Girard, por exemplo).

Talvez o querido professor Luís Fernando Pessoa tenha o mesmo problema de interpretação paranoica que Voegelin teve ao estudar a Reforma e os Puritanos, o que lhe valeu críticas até irônicas. Se isso não é causa de um vício apologético católico, talvez o seja de demasiada credibilidade sem crítica acadêmica às opiniões de um certo alguém, ou talvez ainda o efeito de algum intoxicante chá de cogumelos, que o conduziu a uma paranoia que vê mentalidade revolucionária em tudo, assim como Eric via gnosticismo em tudo (até nos apóstolos e profetas). De seu texto, certamente, não há nada que se aproveite. 

1. João Calvino, "As Institutas da Religião Cristã", Vol. IV, XX, I-III, p. 453.
2. Alexis de Tocqueville, "A Democracia na America", Edit. Itatiaia Ltda. e Edit. da Universidade de São Paulo, 1977, p. 33-36.
3. Francis Schaeffer, “Como Viveremos”, p. 65-67.
4. Citado por Richard C. Gamble em “Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidenal”; Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 8, (1960; ed. reimpr., Grand Rapids: Eerdmans, 1979, pp. 481-482); James Mackinnon, Calvin and the Reformation (Londres: Longmans. Green, 1936, p. 77-81.
5. Christopher Dawson, “A Divisão da Cristandade”, p. 163.
6. Ibid., p. 165.
7. Citado pro Solano Portela em “Calvino Contra o Natal?”; Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858).
8. Ibid.; William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141], costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141.
9. Richard C. Gamble, “Calvino e sua Influência no Mundo Ocidental” (Organizado por W. Stanford Reid), p. 90.
10. Eric Voegelin, “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 321.
11. Ibid., “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 320.